segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Friends e os Anos 90: Uma Análise Sobre a Cultura do Ódio ao Homem



  A História é coalhada de eventos em que ideologias foram criadas para ser difundidas em larga escala com o objetivo de fazer a maioria das pessoas pensarem e agirem de determinada maneira. Trata-se de um fenômeno comum e necessário à manutenção da estrutura social da forma como ela existe. Nada mais que um mal necessário, decorrente da incapacidade humana em manter a ordem sem os rígidos blocos ilusórios que determinam os caminhos que a humanidade deve trilhar. O que ocorre geralmente é que essas ilusões geram demandas que na maioria das vezes, além de alienação, não causam nenhum efeito negativo considerável na maior parte das pessoas. A cultura do amor romântico e do consumo de álcool como bebida são exemplos que mostram que, a despeito das desgraças de alguns poucos (relativamente falando), a imposição à maioria de determinados modos de agir e pensar tem um objetivo duplo: além de servir como um sutil meio de controle social, faz uma minoria lucrar em cima disso. Vale ressaltar que, a exemplo dos fascismos do século XX, as demandas de uma sociedade nem sempre são a saúde da mesma.
 Os anos 90 foram uma época de crescimento econômico nos países desenvolvidos e intensa atividade cultural. A queda do Muro de Berlim, seguida pela derrocada das ditaduras de esquerda do leste europeu e pela consequente substituição destas por governos democraticamente eleitos, criou, no ideário do ser ocidental comum, a imagem de um futuro livre, onde a superpotência vencedora da Guerra Fria iria reinar absoluta e com ela seus valores e tradições. Muito embora houvesse ainda guerras, fome, a crise nos Bálcãs e o crescimento da AIDS na África, existia o sentimento de que tudo seria resolvido. Mesmo que o mundo livre tenha sempre sido a terra das oportunidades, antes havia no leste a ameaça vermelha, que, ainda que não invadisse e acabasse com a democracia e a liberdade da América, poderia ainda desencadear uma guerra nuclear, como quase aconteceu em 1962.
Esses receios acabaram por se tornar obsoletos. Era necessário que se criasse uma ideologia compatível com a nova configuração global.  A situação política e econômica estável deste novo desenho geopolítico, juntamente com oito anos de relativa prosperidade econômica do governo Clinton, criou o cenário ideal para o advento da terceira onda feminista nos EUA. Se a primeira onda, do final do século XIX, acontecia em plena Revolução Industrial e a segunda, da década de 60, tinha como contrapeso, o medo de um inimigo externo cuja existência ameaçava a liberdade o último estágio contava com uma sólida estrutura social, econômica e política que possibilitou a infiltração dessa ideologia no ocidente.
Na esteira destas transformações, juntamente com o advento da internet e a consolidação da televisão como meio de comunicação de massa, seguida da consequente distribuição de opinião, comportamentos e modos de pensar por atacado, surgiram alguns dos fenômenos de mídia que marcaram época. Como qualquer cultura de massa, o segredo de séries como Friends é que elas representam de forma incisiva os principais anseios de uma geração. A chave da popularidade dos seis amigos de Nova York é o fato de suas vidas serem o retrato dos sonhos da juventude dos anos 90. Na verdade qualquer um pode se identificar em maior ou menor grau com qualquer um dos protagonistas.
 Tão importante quanto perceber o sucesso da série é detectar e analisar os significados que ela traz de forma mais ou menos oculta. Muito da grande adesão do público, principalmente feminino, ao sitcom se deve, sem dúvida ao seu forte e disfarçado viés sexista misândrico. Mais que nos enredos dos episódios, muito disso se reflete nas características próprias de cada personagem.
Juntamente com Rachel Green, Ross Geller é o personagem que melhor confirma essa tese. Tímido e inseguro, o típico garoto de classe média parece ter sido criado pelos pais numa redoma e desde cedo, em virtude da criação que recebeu, criou a ilusão de que é especial. Essa mentalidade o atrapalha por demais em suas relações da vida adulta. Bem sucedido profissionalmente, Ross é o retrato do garoto mais inteligente da sala, racionalmente muito perspicaz, mas, ao mesmo tempo, quase um completo retardado sócio-emocional. Em virtude disso ele mesmo é quem mais é motivo de chacota na série.
Ph.D em paleontologia, Geller sofre quase todo tipo de sevícia social e emocional a que um homem pode ser submetido. A primeira temporada é especialmente pródiga em mostrar essas situações. É nesse estágio que é apresentada a história do seu primeiro divórcio. Ao estilo Alan Harper (Two And a Half Men), Ross é dispensado por Carol, sua ex-esposa, e ainda tem que se contentar em vê-la se descobrir lésbica, grávida dele e com planos de criar a criança com a companheira, Susan. Esta nada mais é do que uma caricatura, que utiliza o jocoso apelido de “bobo do esperma” para se referir ao ex-marido da companheira.  O episódio da cerimônia de união de Carol e Susan representa nada mais do que o retrato da completa subjugação do homem enquanto homem frente à ideologia feminista dominante na sociedade americana (algo tão claro que até os mais intransigentes militantes saltimbancos reconhecem). A título de informação, a ministra que celebra o evento é a meio irmã lésbica de Newt Gingrich, notório estadista republicano, conhecido por sua postura conservadora. A própria Marta Kauffman, co criadora da série, já disse em entrevista que a escolha significou a bit of ‘fuck you’ in it to the right wing”.
Há outros episódios que mostram isso de forma ainda mais explícita. Vale lembrar a ocasião em que Ben, o filho de Ross e Carol, “escolhe” uma Barbie como brinquedo. O mais interessante desse evento é ver Ross e Joey sendo censurados por tentarem convencer o garoto a trocar a boneca por um G.I. Joe.
Outra passagem interessante é aquela na qual Ross (sempre ele) acidentalmente machuca uma garotinha que vendia biscoitos. Mais relevante que o fato de o paleontólogo, mesmo sendo inocente, ser continuamente tratado como um monstro por todas as pessoas com as quais ele tem contato, é a decoração do quarto da criança, repleto de naves espaciais, típica de um dormitório de menino. Geralmente isso passa despercebido, mas a decoração característica do quarto de uma garota de nove anos tem mais a ver com unicórnios, flores e bonecas do que com naves espaciais. 
                 Num mundo como o de hoje, onde a polícia de pensamento do politicamente correto está sempre a postos para exigir a cabeça de quem tem a petulância de divergir do totalitarismo ideológico imposto por sua cartilha coletivista, nunca é demais afirmar e reafirmar que é um absurdo acreditar que o que define as aptidões de um indivíduo é a quantidade de estrogênio ou testosterona no organismo.
Além do aspecto visual do quarto da menina, pesa o fato de ela ser órfã de mãe e de o pai dela tentar continuamente persuadi-la a ajudar na limpeza e esquecer a carreira de astronauta. Isso exposto, pode-se tirar duas conclusões: a primeira é a clara associação do sitcom com a ideologia do girl Power, evidenciada pelo esforço em pintar o pai da garota como um monstro machista que desencoraja  a filha a seguir seus sonhos para ser uma dona de casa( não é que isso não exista, mas é impossível encontrar um pai que ame sua filha e se comporte dessa forma com ela) e por último e mais importante, a função do personagem de David Schwimmer, que nada mais é do que atuar como bode expiatório, ou seja, ele representa o real inimigo da ideologia feminista: o homem ocidental branco e heterossexual.
Ainda em se tratando de Ross, uma análise mais criteriosa traz à luz o fato de que, seguido por Chandler Bing, ele é o mais humilhado. Certamente isso tem a ver com o fato de que dos três ele é o mais bem sucedido. Diferentemente da beleza, característica marcante de Joey, e do humor, ponto forte de Chandler, a inteligência de Ross é a mais efetiva forma de potência masculina. Desta forma, a satirização constante do personagem atua como uma forma de exercício de domínio, passando a mensagem de que ser inteligente e bem sucedido, do ponto de vista que isto representa um entrave à subjugação do homem pela mulher, não é motivo de admiração, mas de gozação.  Levando-se em conta o fato que, dos três protagonistas homens, Joey é o menos ridicularizado, mesmo sendo incapaz de saber que os Países Baixos são um país de verdade, o que se depreende é que, em Friends, quanto mais imponente for o homem, mais ele deve ser motivo de escárnio, pois não é interessante que ele se dê conta do poder que tem. Daí um dos porquês de o ator fracassado ser, paradoxalmente, quem faz mais sucesso com mulheres no sitcom.
As primeiras temporadas são especialmente ricas nessas situações e o que se observa é que, à medida que a sitcom vai caindo no gosto popular e ganhando mais seasons, esse caráter claramente hostil ao sexo masculino diminui e vai dando lugar a uma atitude de zombaria mais branda. Não é difícil perceber também certo esforço na direção de inverter alguns clichês de relações  homem - mulher em situações do senso comum. Prova disso é o episódio em que Ross é forçado por Rachel a contratar um homem para ser babá da filha (devido à delicadeza naturalmente feminina, geralmente as babás são mulheres) e a relação de Rachel com um subordinado quando trabalhava na Ralph Lauren, uma clara inversão de uma situação clássica que é a relação entre o patrão e a empregada. É como se a misandria fosse um mecanismo utilizado pelos criadores da série para tentar emplacá-la e, alcançado esse objetivo, os roteiristas recorressem a uma forma de ataque mais soft.
Como já mencionado, das protagonistas, a mais emblemática sem dúvida é Rachel Green.  Estereótipo da garota fútil e vazia de classe média, Rachel é a garota rica e bonita que sempre teve tudo na vida e faz escolhas erradas por esporte. Uma de suas primeiras aparições na série já dá um indicativo de seu caráter. De maneira cômica, ela aparece vestida de noiva fugindo do próprio casamento, onde abandonou o noivo no altar. A partir de então ela passa a morar com Monica e começa a trabalhar como garçonete no Central Perk.
Os traços mais marcantes de Rachel são sem dúvida sua personalidade superficial e sua tendência a ter muitos relacionamentos.  Isso se confirma à medida que a história se desenrola.  Muito da popularidade da personagem de Jennifer Aniston se deve a isso.  Tanto é que o corte de cabelo da personagem foi um dos mais copiados durante a década de 90. Da mesma forma que Ross é o saco de pancadas ideológico da série, Rachel é o modelo a ser emulado e a heroína da filosofia que o sitcom adotou. Não por acaso, das protagonistas, ela é a única que não casa ao final da série (já que um dos pilares do pensamento feminista é a independência total da mulher em relação ao homem e algumas teóricas defendem inclusive o fim do matrimônio e da família, consideradas instituições patriarcais opressoras), e é a única que consegue “dobrar” o garanhão Joey, inclusive grávida (como se um homem acostumado a ter muitas mulheres fosse abrir mão disso por uma só e ainda grávida de outro...).
Sua personalidade insensata é atraente justamente pelo fato de não haver uma contrapartida para suas ações na série. Faça o que fizer Rachel muito raramente sofre as consequências dos seus atos. À medida que a história se desenrola, entre outras coisas, se descobre casos de Rachel com homens comprometidos,  como o pai de um garoto que ela cuidou num emprego temporário e inclusive com o próprio ex-noivo quando este estava prestes a se casar com uma amiga sua. Surpreendentemente (ou não) a promiscuidade é uma característica comum não só às protagonistas, mas a todas as personagens. Há um episódio em que Chandler conhece uma soldado israelense que, além dele, se relaciona simultaneamente com mais dois homens, sendo que um deles é o marido dela. Sem falar na emblemática mãe dele, escritora de romances soft porn e definida por ele próprio como “pesadelo freudiano”, que chega inclusive a se envolver com Ross. O mais curioso é que isso adquire uma coloração cômica no seriado, como se essa forma de tratamento extinguisse automaticamente todos os dilemas morais decorrentes desse tipo de comportamento.
Analisando - se outras comédias com temática sexual lançadas nos anos 2000 como Two And a Half Men e The Big Bang Theory, percebe-se que a promiscuidade de algumas personagens é apresentada de forma cômica, mas, diferentemente do que se vê em Friends, este tratamento não assume um caráter panfletário. Isto é, quem escreve o roteiro não se preocupa em incentivar esse tipo de comportamento, mas apenas em fazer o público rir dessa condição, utilizando- a apenas como mero artifício cômico, sem a intenção de transformá-la numa plataforma de discurso ideológico ou numa ferramenta de autoafirmação. Levando em conta esse fato, percebe-se uma clara relação entre o conteúdo de Friends e o momento no qual ela foi concebida. Como já sugerido, o apelo sexista do sitcom foi uma coisa feita sob medida para se encaixar com o espírito da época na qual a série foi ao ar. Isso explica seu sucesso retumbante e sua ascensão de uma simples série qualquer a um fenômeno cultural. No final, tudo é questão de fazer dinheiro. Foi lançando mão dessa ferramenta que Friends conseguiu isso. Sex and the City tem o mesmo teor, foi lançada num momento semelhante, tem o mesmo público-alvo e alcançou sucesso análogo utilizando a mesma fórmula.            

Embora de forma mais radical, outro fato que ilustra de forma explícita a instrumentalização do desprezo ao sexo masculino com fins comerciais foi a popularidade alcançada por uma série de camisetas para meninas da marca David and Goliath, lançadas no fim da década de 90. Entre os pensamentos estampados nas roupas era possível encontrar coisas como:  “Garotos dizem mentiras, furem seus olhos!”, Garotos são estúpidos, joguem pedras neles!”. Segundo o Wall Street Journal, o faturamento da David and Goliath em 2004 foi de US$ 90 milhões.
 É comum, em sociedades com capitalismo em estágio avançado, a utilização de todo tipo de tática de propaganda, recorrendo-se frequentemente a uma série de artifícios, que vão desde técnicas de engenharia social a programação neurolinguística, para maximizar lucros. Partindo do ponto de que sem liberdade não há capitalismo e nem sociedade de consumo, aceitar que o problema não está em quem vende o produto, mas em quem o compra é a única forma de avaliar a situação. Quem comercializa apenas se vale, de forma utilitarista, de problemas de ordem psicológica de quem adquire.
De qualquer forma, como já mencionado, esses fenômenos nada mais são do que fatos comuns e cotidianos, essenciais à manutenção e ao funcionamento do mecanismo social.  O que realmente merece reflexão é que, nas palavras de Warren Farrel, preconceitos contra outras etnias são chamados de racismo, preconceitos contra as mulheres são chamamos de sexismo e preconceitos contra os homens são chamados de humor.

POR QUE MINORIA DE UM


"O fato de ser uma minoria, mesmo minoria de um, não significava que você fosse louco. Havia verdade e havia inverdade e, se você se agarrasse à verdade, mesmo que o mundo inteiro o contradissesse, não estaria louco. (...) Sanidade mental não é uma coisa estatística. (...)"                                                                                           
George Orwell, 1984



Algumas das passagens mais impactantes do livro 1984, de George Orwell, são as que tratam sobre a fluidez do conceito de realidade. Através de cenas como a clássica reunião dos três minutos de ódio, Orwell pinta um quadro aterrador onde um governo totalitário super poderoso facilmente distorce este conceito, obrigado os cidadãos a viver num estado de ignorância auto induzida. Mesmo tendo uma mentalidade crítica ao governo de Oceânia, o protagonista Winston Smith não consegue deixar de se levar pelo sentimento da multidão entorpecida pelo espetáculo orquestrado pelo Partido.

Mais adiante, Smith é preso por conspirar contra o regime. Durante as sessões de tortura psicológica, O’Brien, seu algoz e confidente, busca invalidar suas razões e prerrogativas alegando que ele é apenas uma minoria de um e, simplesmente por ele não pensar como a maioria, suas opiniões seriam sempre erradas só por causa disso.
A ideia por trás desse blog é justamente ir contra o senso comum, na tentativa de estimular o leitor a pensar de maneira crítica, independentemente se a maioria o fizer ou não. Como escreveu Luiz Felipe Pondé, a mediocridade anda em bando.





"Integridade é o reconhecimento do fato de que, (...) como um juiz que não dá importância à opinião pública, ele não pode sacrificar suas convicções em prol dos desejos dos outros, ainda que seja a totalidade da humanidade a implorar ou a ameaçar. (...)"

                                                                                  Ayn Rand, A Revolta de Atlas, vol. III