terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Como o "Progressismo" está Destruindo o Ocidente



Mais uma vez a civilização é posta de joelhos ante a barbárie do horror islâmico radical. No que foi o mais mortal atentado perpetrado contra o Ocidente desde o 11/09, por volta de 130 pessoas foram trucidadas a sangue frio em sete ataques coordenados na capital francesa. Desde o nazismo e o comunismo, nenhuma ideologia foi tão bem sucedida em fornecer subsídios morais à matança indiscriminada de civis inocentes desarmados quanto a loucura sanguinária radical islâmica. A carnificina de Paris é mais um dos recorrentes episódios de selvageria cega motivados por uma visão de mundo perversa, que enquanto não for seriamente combatida, desacreditada, ridicularizada e humilhada continuará a produzir vítima atrás de vítima.
Durante a conturbada história do século XX poucos momentos foram tão decisivos para o Ocidente quanto a segunda metade da década de 40, o início dos anos 60 e o fim dos 1980. Foi nesses tempos sombrios que a sobrevivência da civilização mais urgentemente dependeu da existência de líderes com a capacidade de ver, entender, enfrentar e expor sem medo os perigos que ameaçavam tudo pelo que realmente vale a pena lutar. Muito da força e do prestígio desfrutados ainda hoje pelo Mundo Livre sempre se deveu à força e à firmeza de caráter de gente como Churchill, Thatcher, Reagan e Karol Wojtyla, que não tiveram medo de apontar o dedo e enfrentar com coragem o mal que assomava no horizonte.
É nesses momentos delicados, onde cada decisão errada ou demonstração de fraqueza pode significar para milhões a diferença entra vida e morte, liberdade e escravidão, que esses líderes se fazem mais imprescindíveis. Cada vez que representantes do Mundo Livre não estiveram à altura dos cargos que ocupavam, legiões de inocentes pereceram. Depois de nazistas alemães e comunistas soviéticos, ninguém teve mais culpa pelo inferno que o povo polonês teve de suportar do início da Segunda Guerra ao fim da Guerra Fria que Édouard Daladier e Neville Chamberlain, cuja covardia e fraqueza, farejadas por Hitler da mesma forma que um tubarão detecta sangue num raio de quilômetros, deram ao carniceiro austríaco o impulso que ele precisava para seguir adiante com seus delírios megalômanos.
É exatamente essa a raiz da crise de autoconfiança que acomete o Ocidente. Como um câncer que se espalha sem controle e põe em risco a vida de um organismo outrora saudável, a profusão de líderes "progressistas", descendentes diretos de Chamberlain/Daladier nada mais é do que uma injeção de adrenalina nas pretensões tirânicas universalistas do islã radical, a mais grave ameaça à Civilização Ocidental da atualidade.
Numa França desarmada, à mercê da incompetência gritante de um governo incapaz de rastrear terroristas em atividade há mais de uma década, a barbaridade islâmica radical não poderia encontrar terreno mais conveniente para praticar livremente suas atrocidades. Como no caso dos militares americanos que recentemente impediram outro massacre de proporções cataclísmicas num trem que ia de Paris a Amsterdã, a administração Hollande vive de esperar que heróis apareçam do nada para agir pelas pessoas que eles mesmos impedem de se defender. Arrogância inepta assassina é o termo que melhor define a essência do tipo de mentalidade que prefere ver pessoas sendo abatidas como gado a divergir de uma agenda ideológica. É a insistência criminosa de gente como o socialista François Hollande em se opor ao direito de as pessoas portarem armas para se defender, o que tornou possível que a escória tivesse tempo de recarregar três vezes enquanto latia “Alá é grande”.
Se na França já é aterrador constatar a fraqueza que o "progressismo" impõe ao Ocidente, nos EUA as coisas tomam proporções ainda maiores. É simplesmente um disparate que o comando do Mundo Livre esteja nas mãos de um covarde intelectualmente castrado pelo politicamente correto que tem receio até de pronunciar a expressão “islã radical”. Na última de suas intervenções circenses, Barack Obama disse que a carnificina em Paris foi “um ataque à humanidade e a nossos valores universais”. Se já não fosse preocupante e extenuante o suficiente debater se tamanha estupidez é fruto de sua comprovada incapacidade em dominar o básico de geopolítica do Oriente Médio (ele descreveu o ISIS como “bando de amadores” e chamou o Iêmen de "história de sucesso") ou se é covardia "progressista" pura e simples, pior é constatar que, na melhor das hipóteses, é por negligência que ele sabota a posição de liderança dos EUA no Ocidente. Como se muçulmanos radicais estivessem tão empenhados em massacrar chineses, budistas ou hindus, como o estão em exterminar ocidentais, só um tolo completo ou um covarde inveterado enxergaria no banho de sangue em Paris algo diferente de um ato de guerra contra a Civilização Ocidental e aos valores que ela representa no mundo.
Enquanto isso, em terras tupiniquins, uma presidente sem noção do ridículo prega o diálogo com radicais de uma religião intrinsecamente universalista, cujo objetivo final consiste em nada menos que se sobrepor à força a todas as outras crenças (Corão 8:39). O Ministério da Justiça, refletindo o preparo dos que ocupam seus quadros, e em consonância com o pensamento de um ministro de governo despudorado que não se furta nem de agir como advogado de porta de cadeia se isso convier aos interesses de seu partido, trata jihadistas com cortesia e cobra respeito a eles.
Afora Benjamin Netanyahu, que é o único líder do Mundo Livre que enfrenta o problema do Islã radical com a seriedade e franqueza necessárias, apenas Vladimir Putin tem agido de forma sensata no combate ao terror (ainda que norteado por sua Realpolitik imunda, diga-se). Da mesma forma que irresponsável e ingenuamente celebrou os levantes “democráticos” da “Primavera” Árabe, Obama exige agora a queda de Assad na Síria, se dizendo apoiador de rebeldes “moderados”. Como se isso existisse fora de seus contos de fada multiculturalistas politicamente corretos, a afetação "progressista" que o leva a acreditar nesse tipo de baboseira nada mais é que produto de uma combinação de um esnobismo ideológico ordinário, que acredita no universalismo de instituições exclusivamente ocidentais como democracia e direitos humanos, e de uma ignorância e desinformação inadmissíveis para alguém que ocupa o cargo mais importante do planeta. Qualquer um minimamente interessado em política internacional certamente lembra da devoção bovina que alguns setores da mídia ocidental nutriam em relação a Ahmad Shah Massoud, o carniceiro da Aliança do Norte, acusado de uma infinidade de massacres durante a guerra civil afegã. Se não fosse assassinado pela Al Qaeda, cujo líder era considerado outro exemplo de “moderação” à época da invasão soviética no Afeganistão, certamente estaria perpetrando atrocidade atrás de atrocidade no vale do Panjshir.
A simpatia por regimes sanguinolentos, aliás, parece ser uma marca registrada das administrações "progressistas" ocidentais, principalmente na América. Devido às claras afinidades ideológicas e a uma espécie de tara ancestral socialista por violência, o movimento iniciado por Brasil, Argentina e Nicarágua, ganhou um status de nobreza com a famigerada reaproximação de EUA e Cuba. No que não passou de uma tentativa desesperada de deixar para os cronistas bajuladores "progressistas" algo que possa ser maquiado como acerto após oito anos de uma política externa desastrosa, a única serventia desse capricho irresponsável é oferecer uma sobrevida a um regime assassino moribundo se acabando por sobre as próprias bases. Após tornar o mundo mais perigoso permitindo o surgimento do ISIS e tornando um Irã nuclear uma realidade cada vez mais concreta, Barack Obama acintosamente prolonga o sofrimento do povo cubano só pra poder posar de restaurador das relações de EUA e Cuba, como se a aproximação com uma tirania sanguinária fosse algo menos que um insulto intolerável a uma sociedade que se ergueu sobre o extremo oposto do que o arquipélago gulag representa para o mundo.
Ainda na década de 1920, H.L Mencken escreveu que todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive. Graças à influência que as idéias "progressistas" desfrutam atualmente no Ocidente, o que na época podia ter sido encarado como uma provocação, hoje é visto como profecia. Se fosse só a vergonha de ser representado por uma presidente que prega diálogo com grupos de bandoleiros sanguinários e por um ministro da justiça que não tem competência nem para escolher seus subordinados, menos mal. O real problema aparece quando dezenas de inocentes precisam pagar com a vida pela covardia e incompetência dessa gentalha.   

domingo, 1 de novembro de 2015

A Favela no Mainstream


Em Brave New World (Admirável Mundo Novo, no Brasil) Aldous Huxley descreve uma sociedade futurista na qual todos os problemas e contradições sociais estariam totalmente superados e a tão almejada paz social plena teria sido finalmente atingida. Publicado em 1932, esse livro compõe, juntamente com  Darkness at Noon (Arthur Koestler), 1984 (George Orwell), We (Yevgeny Zamyatin), Fahrenheit 451 (Ray Bradbury) e A Clockwork Orange (Anthony Burgess), a espinha dorsal do gênero literário conhecido como Distopia Política. Na contramão da tradição iniciada pela Utopia de Thomas Morus, a principal peculiaridade dessa escola de pensamento é a contestação feroz da antiga crença ocidental de que o inevitável progresso técnico da humanidade traria necessariamente consigo o progresso moral da espécie.
Apesar das muitas similaridades, um fator torna Brave New World singular em relação a seus correlatos. Diferentemente das demais, ela é a única obra que descreve um poder tirânico que se impõe sem utilizar violência elementar. Isto é, no governo mundial de Huxley, as pessoas permanecem cativas, a diferença é que elas não se dão conta disso. Pela primeira vez um poder totalitário irresistível consegue reinar absoluto e eliminar o principal efeito colateral de todo empreendimento erguido com o propósito de controlar seres humanos milimétrica e irrestritamente: a ameaça constante de rebelião. 
Ao imaginar uma sociedade na qual as pessoas não só as constroem e mantêm, mas são ensinadas a amar as grades que as aprisionam, o pensador britânico se tornou o escritor distópico que melhor pressagiou a modalidade de tirania do futuro. Produto direto do retumbante fracasso político/econômico do Socialismo Marxista no século XX, o atual Estado de Bem Estar Social nasce da união entre sua vertente Fabiana (não revolucionária) e o Capitalismo, num reconhecimento manifesto e claro do quão indispensável é este último em qualquer tentativa de se criar um sistema econômico que, ainda que imperfeitamente, se ajuste minimamente à egolatria inerente à natureza humana.
Antevendo isso brilhantemente, Huxley alicerçou o sucesso da tirania de seu livro na capacidade do governo de mesmerizar sistematicamente a população, com o intuito de mantê-la ininterruptamente sob controle. Através de condicionamento hipnopédico e de técnicas avançadas de engenharia social, as pessoas são adestradas de modo a se encontrarem na mais abjeta submissão e, além de ignorá-la por completo, se adequarem mecanicamente a ela. Num insight espetacular, o pensador britânico entendeu a causa da ruína de todas as tiranias do passado: violência gera violência. Se ensinadas a venerar sua servidão, as pessoas não só se acostumam a ela, como vão defendê-la ferrenhamente.
Na rigidamente estratificada sociedade do livro, as pessoas não nascem. São produzidas em série. No topo da pirâmide social, os Alfa são concebidos de modo a explorar todas as suas potencialidades humanas. Sendo os únicos cujo desenvolvimento embrionário não é deliberadamente sabotado através da adição de álcool no sangue, eles formam a elite que administra a Nova Ordem Mundial de Admirável Mundo Novo. Após estágios intermediários, segregados entre si pelo aumento gradativo de etanol em seu pseudo-sangue fetal, eis que são apresentados os Ípsilon. Intencionalmente cultivados para serem intelectualmente deficientes, esses párias perfeitamente harmonizados são os responsáveis por todo trabalho braçal. Devido ao condicionamento hipnopédico que recebem, todos são estimulados a abraçar cegamente sua condição. “As crianças Alfa (...) trabalham muito mais que nós porque são formidavelmente inteligentes. Francamente, estou contentíssimo de ser um Beta, porque não trabalho tanto. E, além disso, somos muito superiores aos Gamas e aos Deltas (...). E os Ípsilon são ainda piores.” Essa é a mensagem com que os cérebros Beta, localizados logo abaixo dos Alfas na hierarquia social, são lavados toda noite ao dormir. Cada casta recebe a mesma pregação, adaptada de modo a ressaltar os pontos positivos de sua posição.
Às vezes a vida imita a arte de modo tão visceral que determinadas previsões do passado parecem produto de clarividência. Um viajante do tempo proveniente dos anos 30 que tivesse a capacidade estóica de analisar o atual panorama sócio-cultural brasileiro sem sentir ânsia de vômito, só poderia imaginar que Aldous Huxley fosse uma espécie de feiticeiro. Ao perceber como o ser humano médio é habilmente induzido a se comportar de modo a atender determinados interesses, o observador talvez desconfiasse da existência de um complô seriamente empenhado em converter homens em gado.
A ascensão ao poder máximo da República de um partido historicamente associado com a defesa de causas sociais, que por se assumir representante dos pobres e desfavorecidos se impunha como modelo de moralidade (como se uma coisa implicasse necessariamente na outra) e cujo representante máximo encarnava o arquétipo do brasileiro humilde que vence na vida (o retirante nordestino que sai da pobreza do Nordeste e se alça à liderança do maior país da América Latina), trouxe consigo expectativas que dificilmente seriam atingidas por grupos políticos mais capacitados. A despeito dos sucessos de uma gestão que vai entrar para a história do Brasil como a maior experiência de distribuição de renda já empreendida até então, convém analisar algumas nuances dos métodos levados a cabo por esse governo para esse fim, bem como suas principais conseqüências no panorama cultural brasileiro.
O desempenho econômico da primeira gestão Lula (2002-2005) foi como uma overdose de endorfina em quem via no pragmatismo econômico social-democrata do PSDB a fonte de todos os males que assolavam a população mais carente do Brasil. Apesar de contrariar setores mais à esquerda de sua base de apoio ao publicar a famosa Carta ao Povo Brasileiro, na qual se comprometia, entre outras coisas, a honrar os compromissos financeiros das gestões passadas e a preservar os pilares macroeconômicos então em vigor, dados como a redução da extrema pobreza em 75% entre 2001 e 2012 conferiram um status quase impecável à política econômica da primeira gestão do PT no comando do Brasil.
O que ocorre é que os defensores do modelo petista geralmente deixam de mencionar alguns detalhes. Ao pintar Lula como o gênio econômico que cobriu a dívida externa do Brasil com reservas em moedas fortes, geralmente é ignorada a participação chinesa no processo. Aproveitando-se da brutal valorização do preço das commodities, ocasionada pelo extraordinário crescimento da maior economia asiática, qualquer um poderia ter empreendido semelhante proeza. Quando realmente surgiu a oportunidade de mostrar a que veio, Lula mostrou ser apenas um político comum. Da mesma forma que o Milagre Econômico do governo Médici na década de 70, o “milagre” do PT não passou de um vôo de galinha. Talvez imaginando que os preços das matérias-primas fossem se manter no mesmo nível eternamente, o então presidente escolheu o caminho fácil: preferiu comprar a consciência dos mais pobres expandindo o crédito, não aproveitou o momento para investir o que deveria em infraestrutura e não se preocupou em mudar as bases da economia, extremamente dependente da exportação desses itens. O previsível resultado é que, passada a bonança, o partido que tanto se vangloriou de ter reduzido o número de pessoas que vivem com menos de US$ 1/dia, amarga hoje o primeiro aumento do indicador em uma década. Como se isso não bastasse, ainda vê a reputação de bom pagador do país ir pelo ralo.
Passado o frenesi da acidental farra econômica, ainda restava incólume ao PT a sua tão suntuosa envergadura moral. Desde o auge do processo de impeachment de Fernando Collor em 1992 (aquele tempo em que não era golpe ainda), o partido ostentou como nunca se viu na história deste país a pose arrogante do diferenciado, moralmente superior a todo o resto. Lula virou ícone da cultura pop e era venerado como o semideus que ia acabar com a corrupção endêmica do país.
A questão é que, quanto mais alto o coqueiro, maior a queda. Da mesma forma que Robespierre, “O Incorruptível” da Revolução Francesa, não hesitou em decapitar milhares pela causa, o partido da moral protagonizou em 2005 o maior escândalo tupiniquim de corrupção que se tinha notícia até então. Mesmo que o mega esquema de distribuição de propinas e superfaturamento de obras da Petrobras supere em muito a compra de apoio político com dinheiro público de 2005 (sendo considerado inclusive o maior escândalo da história do capitalismo mundial), o impacto daquele não se compara ao deste. Por ser o primeiro sintoma claro de que a diferença do PT para os outros partidos é só a cor de sua bandeira, o escândalo do Mensalão foi a pá de cal no que restava de credibilidade na imagem do partido que adorava cuspir pra cima. A partir de então, a agremiação que encarnava todas as virtudes passou a simbolizar o que há de pior em política: o lobo em pele de cordeiro. O que se faz de bom, mas que na verdade é pior do que os outros.
Eis que, devido a tudo isso, quando se achava que o PT estava no fim da linha, o verdadeiro milagre aconteceu. Contando com a incompetência extravagante da “oposição”, completamente incapaz de aproveitar o momento para liquidar a carreira política de qualquer um que, àquela altura, conseguia não se envergonhar em ser associado ao nome do partido, Lula consegue a reeleição. Muito embora o crescimento robusto da economia (3,2% em 2005 e 4% em 2006), traduzido socialmente na expansão do crédito que deslocou um contingente enorme das classes baixas para as médias tenha ajudado o candidato petista, uma popularidade abaixo de 40% em ano eleitoral seria mais do que suficiente para decretar seu ocaso político num cenário onde a oposição fosse minimamente eficiente.
Após o improvável sucesso eleitoral no auge do maior esquema de corrupção até então registrado (do qual conseguiu se desvencilhar mesmo se encontrando em seu epicentro), num pleito onde, ao se dar ao luxo de faltar a um debate em rede nacional (desmarcando uma hora antes do início, inclusive), demonstrou um desprezo quase surreal pela população e pelo processo eleitoral, Lula sabia que permaneceria no poder única e exclusivamente por causa da solidez das instituições do Brasil. Já não havia qualquer sustentáculo moral que o habilitasse a exercer o cargo máximo da República. Se desde sempre ele soubesse que seu discurso moralista era puro embuste, antes tinha a seu favor o fator surpresa, já que todo mundo podia ser enganado. Agora todos já conheciam suas intenções. E ele sabia disso.
Ao constatar a previsível perda de vigor da atividade econômica do país após a farra da supervalorização das commodities, e agora órfão do manto moral que outrora ornamentava a aura do partido, Lula percebeu que todas as máscaras tinham caído e ele não precisaria mais se preocupar em manter as aparências. Vendo seu empreendimento econômico ruir por sobre as próprias bases frágeis, o establishment petista viu a hora de colocar em prática seu plano B.
Em paralelo a uma campanha massiva de terrorismo propagandístico, o partido enxergou na exaltação de suas fraquezas a chave para se perpetuar no poder. Numa saída brilhante, a intelligentsia do PT percebeu na glamourização da pobreza e da ignorância uma forma de usar seus defeitos como escudo, de modo a atenuar o máximo possível a percepção geral do fracasso retumbante do partido em cumprir suas promessas.  Da mesma forma como o governo de Brave New World consegue manter todos rigidamente sob controle fazendo-os amar sua servidão, as mentes mais brilhantes do PT viram num problema cada vez mais difícil de esconder, a solução para todos os outros: da mesma forma que a tartaruga utiliza sua pesada carapaça, que a torna tão lenta, para se defender, os parcos recursos intelectuais de Dilma e Lula seriam exibidos não mais como uma mancha indelével na reputação do Brasil como país, um lembrete de como o brasileiro não sabe escolher seus representantes. A partir de agora a glamourização da pobreza, da ignorância e da estupidez passa a ser a armadura que os torna lentos, mas ao mesmo tempo fortes.
Nunca foi segredo que muito da popularidade de Lula junto às massas ignaras sempre foi resultado de sua capacidade de capitalizar seu ar de nordestino xucro e sua pose de ignorante. Como se apenas boas intenções (se é que elas realmente existiram em algum momento) fossem suficientes para levar um país adiante, talvez seu maior êxito político foi convencer que, mesmo sendo inimigo dos livros, sua “vontade de fazer o bem”, aliada a sua história de vida difícil seriam prova de sua honestidade e o habilitariam a ser um bom governante. Até o dia em que sua verdadeira face foi revelada isso funcionou como um relógio.
Quando não pôde mais continuar no poder, a estratégia teve de ser modificada. Na falta de alguém com o mesmo apelo popular e tendo que amargar a situação de ver os três sucessores naturais (Dirceu, Palocci e Genoíno) nas páginas policiais dos noticiários, o partido não viu alternativa a não ser indicar para a sucessão uma burocrata obscura sem qualquer experiência na vida política. Dona de um carisma de bode velho e de uma capacidade retórica simiesca, Dilma Roussef tinha como único diferencial em relação aos demais candidatos o fato de ser mulher. Uma vez que apenas homens tinham assumido o cargo máximo da República, isso certamente pesaria a seu favor junto à militância bovina, mas ficou evidente que era necessária outra abordagem para captar a atenção da parcela da população que trabalha.
Desse modo, o caminho escolhido pelo departamento de marketing do PT foi investir na imagem da tecnocrata competente: a mulher forte por trás da Petrobras. A “mãe do PAC”.
Não que isso tivesse feito qualquer diferença, mas, até que o escândalo do Petrolão viesse à tona (gestado durante sua própria administração da estatal), foi possível, aos trancos e barrancos, levar a imagem adiante. Foi apenas quando ficaram evidentes seu despreparo gritante, seus parcos recursos intelectuais e sua completa inabilidade política, que ela foi definitivamente acometida pela síndrome do Lula desacreditado (em menor grau, é claro, já que dela nunca se esperou muita coisa).
Foi nesse ambiente sócio-cultural que foi se instituindo progressivamente no ideário coletivo do brasileiro médio o culto à favela. Resultado direto do fracasso retumbante do PT em atender às expectativas que eles mesmos traçaram e da completa desmoralização do partido após uma década do governo mais depravado da história da República, essa nova modalidade de religião secular se caracteriza pela exaltação e glamourização da pobreza e da estupidez, com o intuito de acomodar as pessoas mais necessitadas (o alvo histórico da retórica populista do PT) à sarjeta sócio-econômica-cultural que o governo só conseguiu perpetuar, de modo a facilitar a administração dessa situação em benefício próprio.
Por mais que haja um esforço hercúleo da “elite intelectual” tupiniquim em provar o contrário, favelas são locais insalubres onde prevalece a lei da selva. Como em toda terra-de-ninguém, os mais fracos estão continuamente submetidos aos caprichos de gangues de traficantes e milícias que impõem suas vontades única e exclusivamente por meio da força bruta. Mesmo que o Estado esteja infestado de toda sorte de criaturas iguais ou piores, há que se apontar a existência da Constituição que, bem ou mal, limita seu poder de destruição. A Magna Carta da favela, por outro lado, é a arbitrariedade tirânica de quem tem mais poder de fogo.
 É exatamente por isso que toda tentativa de angelizar a paisagem só pode interessar a quem detém o poder. Por não passarem de cortinas de fumaça que impedem as pessoas de enxergar o fracasso estrondoso do governo em cumprir sua função auto imposta de “melhorar sua vida” (como se simplesmente sair do caminho delas não fosse a melhor forma de fazer isso), esse perverso sistema de hipnotização em massa só serve para maquiar a dura realidade para quem vê, voluntária ou involuntariamente, o Estado como a apoteose da civilização: nas favelas ele está de joelhos, as pessoas estão entregues à própria sorte e não há nenhuma solução para essa situação no longo-médio prazo.
Desde que Edward Bernays teve a idéia de usar a propaganda para explorar comercialmente a imensa capacidade do ser humano de ser feito de otário, a grande mídia sempre se mostrou o meio ideal para tal. No caso do Brasil, não poderia ser diferente. A cultura pop foi inundada de referências à favela. Desde a novela das nove que ostenta o nome de uma “comunidade” no título e conta a história da moradora que “sonha com uma vida melhor”, ao programa dominical comandado pela apresentadora que angariou fama e fortuna fazendo pose de ralé, passando pela profusão interminável de “cantores” de funk tatuados que saíram da miséria latindo pornografia grosseira e fazendo apologia ao crime, o que antes era tido como um lugar perigoso, destinado a pessoas sem opção, tem virado o paraíso da nova modalidade de cultura então em vigor no ideário coletivo das massas. O espaço que o rapper aliciado com esmola estatal consegue em rede nacional para chamar opositores do governo de terroristas, a atenção exagerada recebida pelo casal de “músicos” que expõe a crise conjugal em rede nacional para voltar aos holofotes e o culto bovino ao jogador de futebol que virou um semideus por encarnar com perfeição o espírito favelado do novo rico (aquele que sai da favela mas a favela não sai dele), nada mais são do que sintomas de uma mesma doença: a favelização cultural em marcha no Brasil.    
As conseqüências disso não poderiam ser mais evidentes.
Um projeto social organizado por uma ONG de atuação em favelas, em parceria com o MIT e o Ford Institute, tem como objetivo identificar moradores de comunidades com talento para criar “inovações tecnológicas”. Por trás da idéia aparentemente altruísta, se esconde um desprezo por gente pobre que, de tão sutil, é impossível de ser entendido no âmbito da maldade elementar. Um mal tão velado, fino e involuntariamente irônico que possivelmente nem mesmo os detentores desse sentimento torpe têm condições de destilá-lo do turbilhão de preconceitos, idéias erradas, e pressuposições equivocadas que os levam a endossarem tamanha monstruosidade moral.
A imagem que orna o título da matéria que apresenta a iniciativa mostra três moradores de favela que participam do projeto, dos quais se destaca uma moça de 24 anos, negra, grávida do segundo filho. Estudante de Serviço Social da UFRJ e bolsista de um programa do Ministério da Cultura, a jovem fala com empolgação sobre sua habilidade em utilizar lixo para resolver os problemas de “engenharia doméstica” que surgem no seu dia a dia. Um em particular, enfatizado pela reportagem, mostra de maneira inequívoca a real função desses projetos com “consciência social”.
Ao expor como a moça contornou a carência de um ventilador, utilizando recortes de cartolina para refrigerar um quarto quente num dia de calor, o enfoque delinquente do texto procura utilizar a engenhosidade dela para maquiar o absurdo camusiano presente no fato de alguém não dispor de míseros R$ 30 para comprar um simples aparelho de ventilação no paraíso do bem estar social petista. Espécime típico do segmento da população que pulula na retórica populista do partido, a jovem é o retrato mais fiel do retumbante fracasso da estratégia por ele adotada para tirar as pessoas da pobreza: mesmo não dispondo de tão irrisória quantia, ainda assim, possui dois filhos. E está feliz e satisfeita com isso. Ao mascarar o fato de a moça precisar catar lixo para ter um mínimo de conforto como um suposto esforço para “romper com preconceitos com materiais recicláveis”, o texto cumpre com perfeição sua função pedagógica huxleyana de manter as pessoas pobres estagnadas e contentes na latrina sócio-econômica que aprenderam a amar.
Nas palavras de um integrante da ONG: “A gambiarra é genuinamente favelada”. Ele não poderia estar em maior consonância com o conceito do projeto social do qual faz parte. O próprio nome, “Gambiarra Favela Tech”, traduz um desprezo cínico por essas pessoas, uma ironia fina com sua situação de miséria, que, de tão odientos e desproporcionais, só se comparam à amplitude da loucura ideológica que consegue enxergar caridade no assassinato inclemente de sua dignidade.
 É unicamente sob a mesma ótica insana que é possível tentar entender o causo a seguir que, de tão surreal, parece fruto de alucinação lisérgica.
Um rapaz de classe média, cosmopolita e educado em colégios particulares, faz amizade com moradores de uma favela adjacente ao bairro nobre em que reside. Resolve então abrir mão da educação de elite a que tinha acesso para ingressar num colégio estadual e estudar junto com os novos amigos. Em seguida, decide não cursar faculdade e resolve abandonar a confortável vida que levava para viver na favela. Enfim, casa com uma moça da comunidade e arruma um emprego de motoboy em uma pizzaria.
Eis que um delegado da polícia federal é assaltado próximo à ocupação. Em meio à investigação, ao cruzar dados de suspeitos do crime, a equipe responsável pelo caso descobre no Facebook fotos em que o rapaz aparecia junto com os meliantes. Como é natural, ele passa então a figurar na lista de suspeitos. A apuração avança sobre uma quadrilha de roubo de carros. Ao levantar ocorrências de delegacias da região, o delegado associa as imagens a características descritas por vítimas dos assaltos. Em dois casos, ocorridos em 2013, algumas delas reconhecem o rapaz dentre os acusados. Como de praxe, sua prisão preventiva é decretada.
A decisão judicial teve repercussão nacional no meio acadêmico. O frenesi, registrado em 16 estados incluindo São Paulo (onde os fatos se passaram), se baseia nas alegações de que o rapaz foi detido ilegalmente (já que crime de roubo é de competência estadual e um delegado federal lidera a operação) e de que o motivo principal da ação policial é o fato de ele “ter ultrapassado certas barreiras de inclusão social”.
É de uma tolice no mínimo hilariante rotular de “ilegal” uma prisão preventiva, decretada após extenso trabalho de investigação iniciada num crime do qual o próprio agente federal foi vítima, só porque o mesmo resultado deveria ser obtido a partir da investigação de agentes estaduais. Esse apego obsessivo a pormenores técnicos insignificantes não passa de uma tentativa mal disfarçada de assegurar impunidade ao comportamento duvidoso do rapaz. Óbvio que a simples presença dele em fotos na companhia de suspeitos não assegura por si só sua culpa. Já isso associado ao fato de ele ter sido reconhecido por duas vítimas de assaltos torna sua apreensão nada mais do que o resultado da conduta prudente de agentes da lei que executam um simples procedimento padrão.       
O que se apresenta aqui, no entanto, não é um simples protesto em favor da aplicação ortodoxa da legislação criminal do estado de São Paulo. Isso não passa de uma roupagem para encobrir o real significado da manifestação desses setores minoritários da sociedade. A história de um rapaz de classe média (aquela mesma classe tão odiada por esses grupos) que “supera preconceitos”, “ultrapassa barreiras de inclusão social” e é punido “ilegalmente” pelo sistema judiciário reacionário, racista, elitista e segregador do estado de São Paulo (aquele mesmo estado diabólico onde os iluminados do PT não podem mais sair na rua) é a versão progressista do mito de Prometeu. Ao abrir mão de sua “situação privilegiada” para trazer o fogo de sua presença iluminada à comunidade das pobres almas desassistidas e injustiçadas por um sistema desumano que só privilegia os ricos e brancos, o bravo jovem atraiu a fúria dos deuses do estado e, como punição, tem seu fígado devorado pela intolerância preconceituosa desses “fascistas” que odeiam pobres e se ressentem em vê-los viajando de avião.
Certamente resultado do provável proselitismo ideológico dos pais, ambos ligados a movimentos sociais e à militância de esquerda, o destino do rapaz que abriu mão de uma carreira profissional promissora para morar numa favela e trabalhar como entregador (não que isso seja demérito pra ninguém, mas quantas pessoas não queriam ter acesso às oportunidades de que ele dispunha?) só pode ser entendido no âmbito do culto à favela. Diferentemente das pessoas comuns, que se submetem a morar em favelas por não ter opção, o caso do rapaz é mais enigmático porque mostra como idéias tem consequências, que podem facilmente acabar com a vida de uma pessoa. A visão da perversão crua de duas aberrações morais que não hesitam em sacrificar o futuro do próprio filho em nome de uma tara ideológica só piora quando se constata que esse picadeiro só está montado porque o rapaz agiu de modo suspeito na condição artificial de favelado. Difícil acreditar que sua mãe, professora de psicologia da USP, tivesse dado a cara pra bater se o rapaz fosse um empresário bem sucedido flagrado lavando dinheiro única e exclusivamente visando seu lucro pessoal, sem levar em conta nenhuma das “boas causas” que possivelmente justificam o Mensalão pra ela.
De um país cujos meios acadêmicos estão infestados de bandidos morais que acreditam piamente que a “formação de cidadãos” (seja lá o que isso signifique) é mais importante que a transmissão de conhecimento técnico-profissional, e que consideram “patrono da educação” alguém cuja delinquência intelectual o cegou a ponto de fazê-lo  endossar a barbárie pura e simples, não se poderia esperar um panorama cultural muito diferente. É o desprezo que Marx sentia pelos pobres que explica porque os governos que se dizem mais preocupados com os necessitados são justamente os que mais insistem em rebaixá-los, humilhá-los e tratá-los como subespécie. Só assim é possível entender que o maior prejuízo que eles causam às sociedades não é político ou econômico. Sua verdadeira herança maldita é sempre legada às mentes das pessoas.




sábado, 17 de outubro de 2015

A Revolta de Atlas



No início de 2014 a imagem de um ladrão surrado amarrado a um poste no bairro do Flamengo repercutiu mundo afora. Extenuadas com a incompetência arrogante do governo em prover um mínimo de segurança, ao mesmo tempo em que as impede de exercerem seu natural direito à auto defesa, algumas pessoas se juntaram e resolveram fazer justiça com as próprias mãos. De tão recorrente no Brasil, a ação talvez passasse despercebida se não fosse um comentário de Rachel Sheherazade no jornal do SBT. Por achar compreensível a atitude do grupo numa circunstância onde as autoridades só demonstram competência na hora de tomar o fruto do trabalho das pessoas, a jornalista atraiu a fúria de alguns setores minoritários, que, não fosse sua organização e capacidade de se fazer ouvidos, seriam insignificantes. Depois de um tempo afastada da bancada do jornal por pressão da polícia de pensamento do Estado, Rachel retornou mutilada em seu direito à livre expressão. 
Algum tempo depois do episódio, o mesmo meliante, agora alçado à condição de popstar pelos justiceiros de redação, voltou a aprontar. Ao ser novamente capturado, ele lançou uma máxima que até hoje ecoa na cabeça de quem evita sair de casa com receio de não voltar: Eu sou o ‘do poste’! Sabe com quem está falando?.
Ao longo de toda a história documentada, o sentimento generalizado de insatisfação tem sido a maior ameaça ao status quo na maioria das sociedades humanas. Por ser um animal intrínseca e naturalmente egoísta, poucas coisas são tão intoleráveis ao homem quanto a injustiça. O afã de exterminar privilégios (mesmo os legítimos) e desigualdades (mesmo as naturais) com o objetivo de nivelar a humanidade por baixo e acabar com injustiças deu origem a algumas das piores e mais tenebrosas perversões já perpetradas em nome de uma suposta idéia de “justiça social”. A coisa ficou especialmente pior a partir de 1789, quando o fator “causa” foi inserido na equação. Com os avanços na capacidade técnica humana, proporcionados pela Revolução Industrial, o início da era dos assassinatos industriais foi inevitável. Todas as desgraças que se abateram sobre a humanidade nos últimos cem anos remetem única e exclusivamente à sede de justiça inerente à natureza humana. Se Maria Antonieta, ao saber da fome que assolava o Terceiro Estado, materializada na escassez crônica de pão, se abstivesse de, ironicamente, aconselhá-los a substituí-lo por brioche, talvez ela terminasse seus dias de vida com a cabeça ainda no corpo.
Não foram preconceitos, hostilidade contra a aristocracia ou qualquer coisa semelhante o que levou parte dos russos do início do século XX a endossar as práticas criminosas dos bolcheviques. Ódio certamente explica a motivação de gente que, como Lenin e Trotsky, toma a frente dos movimentos e convence os demais que a violência cega é o melhor caminho. Em se tratando do cidadão comum, apenas injustiças intoleráveis têm o poder de tirá-lo da civilização. Só isso pode explicar a atitude do grupo de pessoas que amarrou o bandido ao poste. A simples idéia de que determinadas condutas são permitidas a determinados tipos de pessoas em função de sua ascendência genética, condição socioeconômica, opção sexual ou equivalente é mais do que suficiente para regredir seres humanos ao nível da selvageria.
É exatamente o sentimento de impotência diante da impunidade generalizada, amplificado pela deficiência atávica das autoridades em fornecer um mínimo de segurança e justiça a quem todo dia se vê sitiado pela criminalidade, o que cria a atmosfera ideal para o surgimento de grupos radicais, empenhados em executar o papel que seria do Estado, o detentor legal do monopólio da violência. Cada vez mais acuada, a maioria da população pacífica e honesta tem apelado para soluções cada vez mais drásticas na tentativa desesperada de se defender.
A mais recente delas alude aos grupos voluntários de justiçamento. Formadas por jovens de classe média, a maioria praticante de artes marciais, essas facções surgiram em reação à onda de arrastões que tem tomado conta do Rio de Janeiro. Seu modus operandi consiste basicamente em detectar e agredir tipos considerados “suspeitos” de cometerem os crimes. Nas palavras de um integrante, estes seriam “moleques de chinelo, com cara de quem não tem R$ 1 no bolso.”
Esse tipo de generalização rasa carrega consigo um precedente tenebroso. A cultura de associar a aparência de um indivíduo a seu suposto comportamento é tão nefasta quanto a crença de que, por ter como alvos jovens aparentemente provenientes de favela, esses movimentos têm caráter racista e “elitista”.
Seis em cada dez detentos no Brasil são negros ou pardos. Dentre as vítimas de homicídio, a proporção sobe para sete. A análise superficial de dados como esses, combinada com doses cavalares de desonestidade intelectual e charlatanismo ideológico, confere um status quase axiomático ao engodo de que o “racismo estrutural brasileiro” é a única explicação plausível para esses números. Se metade da população representa 70% das vítimas de morte violenta, como não haver um sistema seriamente empenhado em eliminar essas pessoas?
Num ambiente intelectual como o brasileiro, onde a desinformação generalizada, aliada à seletividade ideológica de estatísticas e à inclinação pavloviana de enxergar “grupos oprimidos” sempre como vítimas formam quase um senso comum, é praticamente impossível não chegar a esse tipo de conclusão. Devidamente amalgamadas com a teoria da “dívida histórica”, essas idéias formam a base de um aparato retórico amplamente empregado para defender o salvo conduto de determinados grupos sociais em deter o monopólio moral da pobreza e da criminalidade.
Dentre os “oprimidos”, os negros (perfil que geralmente inclui pardos também) são, sem dúvida, os queridinhos das grandes almas iluminadas que dedicam suas existências à árdua tarefa de tornar o mundo um lugar melhor. Na maioria das vezes em que algumas estatísticas (como a composição étnica das vítimas de assassinatos no Brasil, por exemplo) são freneticamente alardeadas para endossar determinada agenda ideológica, geralmente alguns dados acessórios são “esquecidos”.
Dois estudos, conduzidos por acadêmicos da Fundação Oswaldo Cruz em maternidades federais e municipais fluminenses, fornecem números que trazem o racismo de uma parte da população mais para perto das conseqüências que das causas desses números.
Publicado em 2002 sob o título Experiência da gravidez na adolescência, fatores associados e resultados perinatais entre puérperas de baixa renda, o primeiro deles elenca algumas características sócio-econômicas e de estilo de vida de 3508 mulheres de baixa renda que tinham acabado de dar à luz nessas instituições, de idades que iam da pré-adolescência aos 34 anos. A análise do documento mostra que, no grupo composto por mulheres menores de 20 anos, por exemplo, quase 88% delas estavam desempregadas, 26% residiam em favelas ou na rua, mais de um terço não vivam com o pai da criança (desses, um em quatro não tinha fonte de renda formal) e quase 58% delas eram pardas ou negras. 
O segundo, realizado entre os anos de 1999 e 2001 e publicado em 2004, traça o perfil sócio-demográfico e psicossocial de adolescentes recém-parturientes na mesma situação econômica. Contando com uma amostra de pouco mais de dez mil entrevistadas, o levantamento constatou, por exemplo, que, na faixa etária compreendida entre 17 e 19 anos, 57,2% delas eram negras ou pardas. No intervalo imediatamente anterior, 12-16 anos, esse percentual sobe para 58,4%. Desse contingente, 61,3% delas não estavam em união consensual na época da concepção do bebê.
Dessa forma, entender que o número elevado de negros e pardos dentre presos e vítimas de violência é mais uma questão demográfica que ideológica/cultural é simplesmente enxergar a realidade objetiva que salta aos olhos. Sendo essa a composição étnica da maioria das mães solteiras de baixa renda, das crianças de rua e das pessoas que menos se preocupam com planejamento familiar, é mais do que natural que haja mais deles envolvidos em criminalidade, pobreza e violência do que os brancos. É óbvio também que o peso da escravidão de seus antepassados e sua reinserção social no mínimo negligente são fatores a ser levados em consideração, mas creditar a isso a maior parte ou a totalidade das causas dos males que acometem essas pessoas nada mais é do que uma manifestação categórica de preconceito e desprezo por elas. A violência no Brasil é muito mais um problema de responsabilidade individual que de herança étnico-cultural.
Cada vez que um grupo se organiza para agredir alguém com “perfil de criminoso”, são esses fatos que são involuntária e instintivamente invocados para justificar as ações. Óbvio que isso é assustador, mas afirmar que apenas racismo e elitismo são as únicas motivações dessas pessoas é de uma monstruosidade moral pornográfica. Qualquer pessoa que já teve a experiência de freqüentar ou residir em áreas periféricas de centros urbanos brasileiros, já presenciou a profusão quase onipresente de adolescentes grávidas, em sua maioria negras e pardas, bem como de crianças de todas as idades vagando livremente e sem supervisão em qualquer horário. Por mais que se trate de uma prática temerária, discriminatória e até certo ponto funesta, não deixa de ser compreensível, dado o rumo que as coisas tomaram.

Tanto é assim, que da maioria das pessoas que se vêem presas na espiral caótica de violência e insegurança que tomou conta da maioria dos grandes centros urbanos brasileiros, não se poderia esperar menos que um efusivo apoio a esses grupos. Afinal, além de serem sistematicamente espoliados para garantir a base eleitoral de um governo cada vez mais disposto a se manter no poder através da administração e perpetuação da pobreza à custa da riqueza dos outros, eles ainda têm que se contentar em ser continuamente humilhados e hostilizados pelas pessoas que eles mesmos sustentam. Além de arcar com o ônus das escolhas erradas alheias, ainda são taxados de racistas, elitistas e criminosos se tentam se defender. Esse é o sistema moral que os algozes de Sheherazade (que acham um absurdo ela compreender as atitudes dessas pessoas, ao mesmo tempo que não vêem problema em alguém justificar crimes ) estão tentando implantar no Brasil.  

domingo, 20 de setembro de 2015

#StandWithAhmed



Porbandar, Índia, 1891. Imagine o jovem Gandhi saindo sozinho de uma festa na casa de amigos tarde da noite. Ao passar por uma viela suja, escura e erma, ele é acometido por uma lancinante dor no estômago. Alguma comida da festa lhe causou um enorme problema digestivo. São 00h12min. Cambaleando, Gandhi não sabe se vai conseguir voltar pra casa, quando então passa por ele, apressada e sozinha, uma jovem de mais ou menos 17 anos. Desesperado e sem ter a quem mais recorrer, o futuro criador da filosofia do satyagraha puxa o sári da garota na tentativa de chamar sua atenção. Qual a instintiva reação da moça ao ser abordada por trás, tarde da noite, sozinha, num local afastado e quase sem iluminação, num país onde uma mulher é estuprada a cada 21 minutos?
Dilema semelhante tirou o sossego de uma professora do ensino médio em Irving, Texas, ao constatar um artefato insólito em poder de um aluno de origem sudanesa. Uma semana após o décimo quarto aniversário do mais mortal ataque perpetrado em território americano desde a Guerra Civil de 1861, Ahmed Mohamed, de 14 anos, levou à escola um relógio que ele construiu para apresentar na aula de engenharia.  Empolgado, o garoto foi mostrar seu trabalho à professora que, nervosa, aconselhou-o a manter o invento oculto. Eis que, no meio da aula, o relógio guardado na mochila do azarado rapaz começa a alarmar.
O triste mal entendido rendeu ao pobre Mohamed uma visita a um centro de detenção juvenil (com direito a algemas, longas horas de um perturbador interrogatório, coleta e registro de impressões digitais e uma sessão de fotos ao estilo Al Capone), além de três dias de suspensão no colégio, sem que ele fosse acusado de qualquer crime.
Óbvio que houve nítido excesso na abordagem do inocente rapaz. Quando do confisco do objeto, qualquer especialista em explosivos poderia atestar seu caráter inofensivo e Ahmed seria poupado de muito sofrimento desnecessário. É natural que o episódio gere indignação, já que se trata de um inocente pagando por algo que não cometeu. Mais justo ainda é o garoto receber algum tipo de compensação do estado. Esclarecido esses pontos, ao que interessa.
Como sempre ocorre quando alguém que não se encaixa no padrão branco/heterossexual/cristão/anglo-saxão, é punido justa ou injustamente (como é o caso de Mohamed) nos EUA, uma profusão interminável de justiceiros de rede social com muito tempo livre e trambiqueiros de palanque sem qualquer freio moral, não demora a se manifestar, dispostos a tirar proveito da desgraça alheia. Como apresentadores policialescos que se utilizam da sórdida compulsão por tragédias da ralé que lhes dá audiência, os vigaristas midiáticos se valem da necessidade que os chimpanzés de iPhone têm de tentar conferir um mínimo de significado a suas existências patéticas, vazias e bovinas, posando de legais e politicamente corretos, sempre em rede social, nunca no mundo real.
Ostentando o cinismo e oportunismo habituais, Barack Obama não demorou em reivindicar seu naco de publicidade ao convidar Ahmed Mohamed para visitar a Casa Branca e levar seu invento. À primeira vista parece uma atitude nobre e desinteressada, mas, também não seria legal convidar também alguém que passou 30 anos no corredor da morte injustamente? Se der para tirar proveito político disso, quem sabe? A mesma pergunta fica para Mark Zuckerberg, que, do alto de sua falsidade demagógica politicamente correta, disse que “a ambição de construir algo deveria levar a aplausos, não à prisão”. Ignorando completamente o trauma que um ataque terrorista de proporções cataclísmicas ainda causa, mesmo uma década e meia depois, na psique de uma população pacífica, Zuckerberg cumpre com perfeição seu papel de bajulador categoricamente submisso à opinião de quem tem o poder de falar mais alto. Foi essa mesma covardia oportunista que levou o nerd trapaceiro a aceitar calado a censura imposta ao Facebook por Tayyip Erdogan na Turquia. Intencionando cair nas graças do tiranete turco e, em conseqüência, alcançar o mercado de seu feudo particular, Mark Zuckerberg rapidamente esqueceu que “a ambição de construir algo” só pode surgir onde existe liberdade para pensar e se expressar.
Rotular a professora de Ahmed, os policiais que o detiveram (a despeito da truculência desnecessária) ou, por conseguinte, a maioria da população dos EUA de “islamofóbica” (seja lá o que isso signifique) por desconfiarem de um garoto de aparência árabe, portando um artefato no mínimo inusitado, dentro de um local cheio de crianças, nos EUA, uma semana após um aniversário do 11/09, faz tanto sentido quanto tentar colar a pecha de misândrica na mocinha do causo fictício de Gandhi. Num cenário onde só há vítimas, o que mais se aproxima de culpa pela situação desagradável é a displicência infantil da família de Mohamed, que permitiu que o pobre garoto agisse de modo suspeito numa sociedade profundamente traumatizada, que tem todos os motivos do mundo para desconfiar da própria sombra. Aos justiceiros de plantão e aos vigaristas de púlpito uma última pergunta: se antes de levar sua invenção à escola, Ahmed decidisse dar uma passadinha na Casa Branca? O que aconteceria?

             

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

As Vítimas da "Vítima": Quando a Luta de Classes Migra dos Contos de Fada Para a Realidade



Um interessante experimento social, conduzido pela rede americana de televisão ABC, detecta as reações de pessoas comuns diante de manifestações explícitas de racismo. Ambientada numa barbearia do Harlem, bairro nova-iorquino de população majoritariamente negra, a trama apresenta uma funcionária negra do estabelecimento que flerta com um cliente, também negro, até que a namorada branca dele aparece. Esses três primeiros personagens são atores. Ao saber da relação entre a mulher que chega por último e o cliente, a cabeleireira surta e começa a proferir impropérios racistas à única pessoa branca no recinto. Os outros clientes do salão, esses os alvos da armação, se comportam de diferentes maneiras, mas, além do fato de serem negros, todos têm outra coisa em comum: a presença de espírito de, cada qual a seu modo, reprovar os atos explícitos de intolerância.
Ninguém com um mínimo de bom senso e honestidade poderia esperar outra coisa. Afinal, é do Ocidente que se trata. A civilização que aboliu a escravidão humana, que equiparou socialmente homens e mulheres, que trouxe para os pobres do mundo uma prosperidade sem precedentes na história da humanidade, que erradicou a varíola, a gripe espanhola, a tuberculose o fascismo, o internacional/nacional-socialismo e o comunismo. É simplesmente por isso que as reações das pessoas na experiência não causam espanto em quem as observa. Por mais que alguns ideólogos do caos inutilmente dediquem vidas inteiras em tentar negar, pessoas educadas, conscientes e civilizadas são a regra no Mundo Livre.  E isso não se deve a nenhuma bondade intrínseca à espécie humana. É apenas o resultado do sucesso dessa civilização em, através da caridade cristã, educação e prosperidade material, elevar as pessoas do seu natural estado de selvageria à vanguarda da civilização no mundo.
O problema é que esse êxito incontestável, apesar de adaptar o homem à vida em sociedade, não muda sua natureza bárbara. Isso, acrescido do fato de que o esforço racional de renúncia à animalidade é uma noção exclusivamente ocidental, é o que explica porque a maioria da humanidade ainda vive no neolítico social. O fato de as mulheres ainda serem tratadas como gado em países islâmicos ou de a segregação institucional ainda persistir na civilização hindu, mesmo oficialmente abolida de suas sociedades (mais por pressão do Ocidente que por iniciativa própria, diga-se), são a pá de cal na trapaça multi-culturalista de que todas as culturas humanas são moralmente aceitáveis.
É nas ocasiões em que está sob a liderança de civilizações de tradição latino-helenística-judaico-cristã (Império Romano na antiguidade, Império Britânico na era Moderna, EUA atualmente) que o mundo é menos insalubre para a maior parte das pessoas (vide o caos que se instalou na Europa durante o vácuo de poder entre a queda do Império Romano e a ascensão da Igreja Católica, a violência da expansão do Islã no Oriente Médio e norte da África entre os séculos VII e VIII ou mesmo o reino de terror Mongol na Ásia Central entre os séculos XIII e XIV). Tendo em mente que o poder dessas nações está intimamente relacionado a sua capacidade de conter e administrar a natural brutalidade humana, é de causar espanto como, mesmo diante da implacável repressão que seus autores sofrem, as ocorrências de atos de selvageria persistem no Ocidente (claro que em número insignificante se comparados às demais culturas humanas). Isso só ilustra como é tênue a linha que separa civilização e barbárie, além de realçar com clareza singular como há muito o que perder no Mundo Livre. Embora os Dylan Roofs, Sandy Hooks e Columbines provem que sempre haverá o que combater, esses casos estão longe de ser uma ameaça séria à existência da maior civilização que já floresceu no planeta.
Uma nova geração de bárbaros, saída do lodo da arrogância anticlerical megalômana iluminista, fornecedora do aparato teórico que tornou possível a loucura carniceira jacobina e inaugurou a era dos assassinatos industriais, se configura no maior perigo que o Mundo Ocidental já enfrentou.
Cegamente crentes de que a salvação do mundo depende de seus ideais “generosos”, “progressistas” e “solidários”, estas grandes almas encarnam com perfeição a máxima burkeana atribuída a Rousseau, seu pai intelectual, do tipo de gente que ama a humanidade e odeia seu semelhante. Capazes de se indignar violentamente com quem olha torto para um representante de alguma “minoria historicamente oprimida”, esses filósofos da vaidade, iluminados herdeiros de Gramsci e Robespierre, se ressentem com a “decadência dos hipócritas valores morais judaico-cristãos do Ocidente”, enquanto tratam o abate sistemático de seres humanos para a comercialização de órgãos como política de planejamento familiar.
A carnificina da Virgínia, ocorrida no último dia 26 nos EUA e transmitida ao vivo em rede nacional, representa nada menos do que o mais nefasto efeito da campanha ideológica de vitimização, inveja e ressentimento obstinadamente perpetrada por esse tipo de gente, que acredita que características fenotípicas, orientação sexual ou condição socioeconômica conferem direitos automáticos a uns e condenação sem julgamento a outros. Foi certamente seu senso de merecimento exacerbado, devidamente orientado pela bússola moral sem norte, típica do revolucionário metido a justiceiro que faz qualquer coisa “pela causa”, o que fez Vester Lee Flanagan II se achar no direito de assassinar a sangue frio dois ex-colegas por se sentir por eles “discriminado”.
Negro e homossexual, Bryce Williams, cognome profissional de Flanagan, certamente se acreditava duplamente merecedor de direitos por pertencer simultaneamente a duas “classes oprimidas”. Democrata obamista e provavelmente militante LGBT, talvez tivesse achado intolerável ser demitido ou rejeitado. Como um negro, e ainda por cima gay, pode ser preterido de um emprego num país com um governo tão progressista como os EUA? Claro que isso só pode ser reflexo do racismo estrutural e da “homofobia” endêmica que permeiam a reacionária, atrasada e conservadora maioria da população norte-americana. Pouco importa se Williams era uma pessoa perturbada, propensa a conflitos com seus colegas de trabalho e com histórico de demissão em outras emissoras por onde passou. Que relevância pode ter o fato de ele precisar ter sido retirado por policiais do antigo escritório, quando da sua última demissão? Nada disso importa, afinal ele era afrodescendente e gay e todos nós, “racistas e ‘homofóbicos’”, temos uma dívida histórica para com ele. Quem liga se ele nunca foi escravizado ou se tinha os mesmos direitos que qualquer cidadão americano? Errados estão todos os que se recusaram a tratá-lo de maneira especial por causa da cor de sua pele e de sua opção sexual.
Em mais uma demonstração descarada de timing e oportunismo político, a Casa Branca não perdeu tempo em mover o foco da discussão do ato de terrorismo ideológico em si para a “necessidade” do controle de armas. Como se objetos inanimados de metal pudessem, por si só, causar dano a alguém, Obama mais uma vez deixou claro seu desprezo pela população que jurou defender ao sequer se dar ao trabalho de comentar pessoalmente o caso. Diferentemente da chacina de junho passado na Carolina do Sul (tornada possível pelo empenho do senador Clementa Pinckney, um dos nove mortos, em barrar uma lei que permitiria o porte de armas em locais públicos) quando, numa performance digna de Oscar, o liberal superman democrata não desperdiçou mais uma oportunidade de dançar sobre as covas das vítimas, despejando sua cantilena controladora desarmamentista, dessa vez, numa demonstração de descaso poucas vezes vista, ele delegou a seu porta-voz Josh Earnest a recorrente tarefa de sua administração de tripudiar dos mortos em favor de uma agenda ideológica. Quem sabe se o assassino fosse branco, heterossexual e conservador e as vítimas negras, homossexuais e progressistas, o carismático presidente não desse o ar da graça?
Em outra experiência, idêntica à do Harlem, mas com atores brancos desempenhando o papel dos atores negros e vice versa, realizada pela mesma ABC, a reação dos alvos da trama, todos brancos, não foi diferente. Apesar de ainda existir no Ocidente gente estúpida o suficiente para julgar pessoas por algo que não seu caráter e suas ações, a realidade é que, nessa civilização, esse tipo de comportamento minoritário não é mais estimulado nem tolerado. Logo, qualquer um que ao menos cogite entender a covardia traiçoeira de Flanagan como algo que destoe minimamente de uma manifestação histérica de afetação, típica de uma geração podre de mimada, habilmente mesmerizada pelo ópio do vitimismo constante por qualquer motivo, tem as mãos sujas de sangue. Agora que há gente morta, dá pra se ter idéia do que acontece quando a luta de classes migra do plano teórico para o mundo real.