terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Como o "Progressismo" está Destruindo o Ocidente



Mais uma vez a civilização é posta de joelhos ante a barbárie do horror islâmico radical. No que foi o mais mortal atentado perpetrado contra o Ocidente desde o 11/09, por volta de 130 pessoas foram trucidadas a sangue frio em sete ataques coordenados na capital francesa. Desde o nazismo e o comunismo, nenhuma ideologia foi tão bem sucedida em fornecer subsídios morais à matança indiscriminada de civis inocentes desarmados quanto a loucura sanguinária radical islâmica. A carnificina de Paris é mais um dos recorrentes episódios de selvageria cega motivados por uma visão de mundo perversa, que enquanto não for seriamente combatida, desacreditada, ridicularizada e humilhada continuará a produzir vítima atrás de vítima.
Durante a conturbada história do século XX poucos momentos foram tão decisivos para o Ocidente quanto a segunda metade da década de 40, o início dos anos 60 e o fim dos 1980. Foi nesses tempos sombrios que a sobrevivência da civilização mais urgentemente dependeu da existência de líderes com a capacidade de ver, entender, enfrentar e expor sem medo os perigos que ameaçavam tudo pelo que realmente vale a pena lutar. Muito da força e do prestígio desfrutados ainda hoje pelo Mundo Livre sempre se deveu à força e à firmeza de caráter de gente como Churchill, Thatcher, Reagan e Karol Wojtyla, que não tiveram medo de apontar o dedo e enfrentar com coragem o mal que assomava no horizonte.
É nesses momentos delicados, onde cada decisão errada ou demonstração de fraqueza pode significar para milhões a diferença entra vida e morte, liberdade e escravidão, que esses líderes se fazem mais imprescindíveis. Cada vez que representantes do Mundo Livre não estiveram à altura dos cargos que ocupavam, legiões de inocentes pereceram. Depois de nazistas alemães e comunistas soviéticos, ninguém teve mais culpa pelo inferno que o povo polonês teve de suportar do início da Segunda Guerra ao fim da Guerra Fria que Édouard Daladier e Neville Chamberlain, cuja covardia e fraqueza, farejadas por Hitler da mesma forma que um tubarão detecta sangue num raio de quilômetros, deram ao carniceiro austríaco o impulso que ele precisava para seguir adiante com seus delírios megalômanos.
É exatamente essa a raiz da crise de autoconfiança que acomete o Ocidente. Como um câncer que se espalha sem controle e põe em risco a vida de um organismo outrora saudável, a profusão de líderes "progressistas", descendentes diretos de Chamberlain/Daladier nada mais é do que uma injeção de adrenalina nas pretensões tirânicas universalistas do islã radical, a mais grave ameaça à Civilização Ocidental da atualidade.
Numa França desarmada, à mercê da incompetência gritante de um governo incapaz de rastrear terroristas em atividade há mais de uma década, a barbaridade islâmica radical não poderia encontrar terreno mais conveniente para praticar livremente suas atrocidades. Como no caso dos militares americanos que recentemente impediram outro massacre de proporções cataclísmicas num trem que ia de Paris a Amsterdã, a administração Hollande vive de esperar que heróis apareçam do nada para agir pelas pessoas que eles mesmos impedem de se defender. Arrogância inepta assassina é o termo que melhor define a essência do tipo de mentalidade que tolera ver pessoas sendo abatidas como gado em nome de agenda ideológica. É a insistência criminosa de gente como o socialista François Hollande em se opor ao direito de as pessoas portarem armas para se defender, o que tornou possível que a escória tivesse tempo de recarregar três vezes enquanto gritava “Alá é maior”.
Se na França já é aterrador constatar a fraqueza que o "progressismo" impõe ao Ocidente, nos EUA as coisas tomam proporções ainda maiores. É simplesmente um disparate que o comando do Mundo Livre esteja nas mãos de um covarde intelectualmente castrado pelo politicamente correto que tem receio até de pronunciar a expressão “islã radical”. Na última de suas intervenções circenses, Barack Obama disse que a carnificina em Paris foi “um ataque à humanidade e a nossos valores universais”. Se já não fosse preocupante e extenuante o suficiente debater se tamanha estupidez é fruto de sua comprovada incapacidade em dominar o básico de geopolítica do Oriente Médio (ele descreveu o ISIS como “bando de amadores” e chamou o Iêmen de "história de sucesso") ou se é covardia "progressista" pura e simples, pior é constatar que, na melhor das hipóteses, é por negligência que ele sabota a posição de liderança dos EUA no Ocidente. Como se muçulmanos radicais estivessem tão empenhados em massacrar chineses, budistas ou hindus, como o estão em exterminar ocidentais, só um tolo completo ou um covarde inveterado enxergaria no banho de sangue em Paris algo diferente de um ato de guerra contra a Civilização Ocidental e aos valores que ela representa no mundo.
Enquanto isso, em terras tupiniquins, uma presidente sem noção do ridículo prega o diálogo com radicais de uma religião intrinsecamente universalista, cujo objetivo final consiste em nada menos que se sobrepor à força a todas as outras crenças (Corão 8:39). O Ministério da Justiça, refletindo o preparo dos que ocupam seus quadros, e em consonância com o pensamento de um ministro de governo despudorado que não se furta nem de agir como advogado de porta de cadeia se isso convier aos interesses de seu partido, trata jihadistas com cortesia e cobra respeito a eles.
Afora Benjamin Netanyahu, que é o único líder ocidental a enfrentar o problema do Islã radical com a seriedade adequada, apenas Vladimir Putin tem agido de forma sensata no combate ao terror. Da mesma forma que irresponsável e ingenuamente celebrou os levantes “democráticos” da “Primavera” Árabe, Obama exige agora a queda de Assad na Síria, se dizendo apoiador de rebeldes “moderados”. Como se isso existisse fora de seus contos de fada multiculturalistas politicamente corretos, a afetação "progressista" que o leva a acreditar nesse tipo de baboseira nada mais é que produto de uma combinação de um esnobismo ideológico ordinário, que acredita no universalismo de instituições exclusivamente ocidentais como democracia e direitos humanos, e de uma ignorância e desinformação inadmissíveis para alguém que ocupa o cargo mais importante do planeta. Qualquer um minimamente interessado em política internacional certamente lembra da devoção bovina que alguns setores da mídia ocidental nutriam em relação a Ahmad Shah Massoud, o carniceiro da Aliança do Norte, acusado de uma infinidade de massacres durante a guerra civil afegã. Se não fosse assassinado pela Al Qaeda, cujo líder era considerado outro exemplo de “moderação” à época da invasão soviética no Afeganistão, certamente estaria perpetrando atrocidade atrás de atrocidade no vale do Panjshir.
A simpatia por regimes sanguinolentos, aliás, parece ser uma marca registrada das administrações "progressistas" ocidentais, principalmente na América. Devido às claras afinidades ideológicas e a uma espécie de tara ancestral socialista por violência, o movimento iniciado por Brasil, Argentina e Nicarágua, ganhou um status de nobreza com a famigerada reaproximação de EUA e Cuba. No que não passou de uma tentativa desesperada de deixar para os cronistas bajuladores "progressistas" algo que possa ser maquiado como acerto após oito anos de uma política externa desastrosa, a única serventia desse capricho irresponsável é oferecer uma sobrevida a um regime assassino moribundo se acabando por sobre as próprias bases. Após tornar o mundo mais perigoso permitindo o surgimento do ISIS e tornando um Irã nuclear uma realidade cada vez mais concreta, Barack Obama acintosamente prolonga o sofrimento do povo cubano só pra poder posar de restaurador das relações de EUA e Cuba, como se a aproximação com uma tirania sanguinária fosse algo menos que um insulto intolerável a uma sociedade que se ergueu sobre o extremo oposto do que o arquipélago gulag representa para o mundo.
Ainda na década de 1920, H.L Mencken escreveu que todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive. Graças à influência que as idéias "progressistas" desfrutam atualmente no Ocidente, o que na época podia ter sido encarado como uma provocação, hoje é visto como profecia. Se fosse só a vergonha de ser representado por uma presidente que prega diálogo com grupos de bandoleiros sanguinários e por um ministro da justiça que não tem competência nem para escolher seus subordinados, menos mal. O real problema aparece quando dezenas de inocentes precisam pagar com a vida pela covardia e incompetência dessa gentalha.   

domingo, 1 de novembro de 2015

A Favela no Mainstream


Em Brave New World (Admirável Mundo Novo, no Brasil) Aldous Huxley descreve uma sociedade futurista na qual todos os problemas e contradições sociais estariam totalmente superados e a tão almejada paz social plena teria sido finalmente atingida. Publicado em 1932, esse livro, juntamente com Darkness at Noon (Arthur Koestler) e 1984 (George Orwell), dentre outros, simboliza uma tradição intelectual conhecida como Distopia, que se caracteriza pela contestação feroz da antiga crença ocidental de que o inevitável progresso técnico da humanidade traria necessariamente consigo a evolução moral da espécie.
Apesar das semelhanças, um fator torna Brave New World singular. Diferentemente das demais, esta é a única obra que descreve um poder tirânico que se impõe sem utilizar violência elementar. No governo mundial de Huxley, as pessoas continuam cativas, é verdade, a diferença é que elas não se dão conta disso. Pela primeira vez um poder totalitário irresistível consegue reinar absoluto e eliminar o principal efeito colateral de qualquer empreendimento erguido com o propósito de controlar seres humanos irrestritamente: a ameaça constante de rebelião. 
Ao imaginar uma sociedade na qual as pessoas são controladas pelo prazer, o pensador britânico se tornou o escritor que melhor pressagiou a modalidade de tirania do futuro. Produto direto do retumbante fracasso político/econômico do socialismo marxista no século XX, o atual estado de bem estar social nasce da união entre sua vertente fabiana (não revolucionária) e a economia de mercado.
Huxley alicerçou o sucesso da tirania de seu livro na capacidade do governo de se aproveitar do quase infinito apetite humano por distrações. Através de condicionamento hipnopédico e de técnicas avançadas de engenharia social, as pessoas são ensinadas a se adequarem à servidão. A casta governante finalmente entendeu a causa da ruína dos despotismos antigos: violência gera violência. Se ensinadas a venerar seu cativeiro, as pessoas não só se acostumam a ele, como vão defendê-lo ferrenhamente.
Na sociedade rigidamente estratificada do livro, as pessoas não nascem. São produzidas em série. No topo da pirâmide social, os Alfa são concebidos de modo a explorar todas as suas potencialidades humanas. Sendo os únicos cujo desenvolvimento embrionário não é deliberadamente sabotado através da adição de álcool no sangue, eles formam a elite que administra a Nova Ordem Mundial de Admirável Mundo Novo. Após estágios intermediários, segregados entre si pelo aumento gradativo de etanol em seu pseudo-sangue fetal, eis que são apresentados os Ípsilon. Intencionalmente cultivados para serem intelectualmente deficientes, esses párias perfeitamente harmonizados são os responsáveis por todo trabalho braçal. Devido ao condicionamento hipnopédico que recebem, todos são estimulados a abraçar cegamente sua condição. “As crianças Alfa (...) trabalham muito mais que nós porque são formidavelmente inteligentes. Francamente, estou contentíssimo de ser um Beta, porque não trabalho tanto. E, além disso, somos muito superiores aos Gamas e aos Deltas (...). E os Ípsilon são ainda piores.” Essa é a mensagem com que os cérebros Beta, localizados logo abaixo dos Alfas na hierarquia social, são lavados toda noite ao dormir. Cada casta recebe a mesma pregação, adaptada de modo a ressaltar os pontos positivos de sua posição.
Às vezes a vida imita a arte de modo tão visceral que determinadas previsões do passado parecem produto de clarividência. Um viajante do tempo proveniente dos anos 1930 que tivesse a capacidade estóica de analisar o atual panorama cultural brasileiro sem sentir ânsia de vômito, só poderia imaginar que Aldous Huxley fosse uma espécie de feiticeiro. Ao perceber como o homem comum é induzido a se comportar de modo a atender determinados interesses, o observador talvez desconfiasse da existência de um complô seriamente empenhado em converter homens em gado.
A ascensão ao poder máximo de um partido historicamente associado com a defesa de causas sociais, que por se assumir representante dos pobres e desfavorecidos se impunha como modelo de moralidade (como se uma coisa implicasse necessariamente na outra) e cujo representante máximo encarnava o arquétipo do brasileiro humilde que vence na vida (o retirante nordestino que sai da pobreza do Nordeste e se alça à liderança do maior país da América Latina), trouxe consigo expectativas que dificilmente seriam atingidas por grupos políticos mais competentes. A despeito dos sucessos de uma gestão que entrou para a história do Brasil como a maior experiência de distribuição de renda já empreendida até então, convém analisar alguns pontos dos métodos desse governo e seus impactos no panorama cultural brasileiro.
O desempenho econômico da primeira gestão Lula (2003-2006) foi como uma overdose de endorfina para quem não via com bons olhos o pragmatismo econômico social-democrata do PSDB. Apesar de contrariar setores mais à esquerda de sua base de apoio ao publicar a famosa Carta ao Povo Brasileiro, na qual se comprometia, entre outras coisas, a honrar os compromissos financeiros das gestões passadas e a preservar os pilares macroeconômicos então em vigor, dados como a redução da extrema pobreza em 75% entre 2001 e 2012 conferiram um status quase impecável à política econômica da primeira gestão do PT no comando do Brasil.
O que ocorre é que os entusiastas desse modelo geralmente deixam de mencionar alguns detalhes. Ao pintar Lula como o gênio econômico que cobriu a dívida externa do Brasil com reservas em moedas fortes, geralmente é ignorada a participação da China no processo. Aproveitando-se da brutal valorização do preço das commodities, ocasionada pelo extraordinário crescimento chinês dos anos 2000, qualquer um poderia ter empreendido proeza similar. Quando realmente surgiu a oportunidade de mostrar a que veio, Lula mostrou ser apenas um político comum. Da mesma forma que o Milagre Econômico do governo Médici na década de 70, o “milagre” do PT não passou de um vôo de galinha. Talvez imaginando que os preços das matérias-primas fossem se manter no mesmo nível eternamente, o então presidente escolheu o caminho fácil: preferiu comprar a consciência dos mais pobres expandindo o crédito, não aproveitou o momento para investir o que deveria em infraestrutura e não se preocupou em incentivar a mudança das bases da economia, extremamente dependente do setor primário. O previsível resultado é que, passada a bonança, o partido que tanto se vangloriou de ter reduzido o número de pessoas que viviam com menos de US$ 1/dia, amarga hoje o primeiro aumento do indicador em uma década. Como se isso não bastasse, ainda vê a reputação de bom pagador do país ir pelo ralo.
Passado o frenesi da acidental farra econômica, ainda restava ao PT sua imagem. Desde o auge do processo de impeachment de Fernando Collor em 1992 (aquele tempo em que não era golpe ainda), o partido ostentou como nunca se viu na história deste país a pose arrogante do diferenciado, moralmente superior a todo o resto. Lula virou ícone da cultura pop e era venerado como o semideus que ia acabar com a corrupção endêmica do país.
A questão é que, quanto mais alto o coqueiro, maior a queda. Mal completado o primeiro mandato à frente do país, os paladinos da moral protagonizaram, em 2005, o maior escândalo de corrupção que se tinha notícia até então. Mesmo que o mega esquema de distribuição de propinas e superfaturamento de obras da Petrobras supere em muito a compra do parlamento de 2005, o impacto daquele não se compara ao deste. Por ser o primeiro sintoma claro de que a diferença do PT para os outros partidos é só a cor da bandeira, o escândalo do mensalão foi a pá de cal no que restava de sua imagem. A partir de então, a agremiação que encarnava todas as virtudes passou a simbolizar o que há de pior em política.
Eis que, devido a tudo isso, quando se achava que o PT estava no fim da linha, o verdadeiro milagre aconteceu. Contando com a incompetência e a condescendência da “oposição”, completamente incapaz de aproveitar o momento para liquidar a carreira política de qualquer um que, àquela altura, conseguia não se envergonhar em ser associado ao nome do partido, Lula consegue a reeleição. Muito embora o crescimento robusto da economia (3,2% em 2005 e 4% em 2006), traduzido socialmente na expansão do crédito que deslocou um contingente enorme da pobreza para as classes médias tenha ajudado o candidato petista, uma popularidade abaixo de 40% em ano eleitoral seria mais do que suficiente para decretar seu ocaso político num cenário onde a oposição fosse minimamente eficiente.
Após o improvável sucesso eleitoral no auge do maior esquema de corrupção até então registrado (do qual conseguiu se desvencilhar mesmo se encontrando em seu epicentro), num pleito onde, ao se dar ao luxo de faltar a um debate em rede nacional (desmarcando uma hora antes do início, inclusive), demonstrou um desprezo sem equivalente pela população e pelo processo eleitoral, Lula sabia que permaneceria no poder única e exclusivamente por causa da solidez das instituições do Brasil. Já não havia qualquer sustentáculo moral que o habilitasse a exercer o cargo máximo da República. Se desde sempre ele soubesse que seu discurso moralista era puro embuste, antes tinha a seu favor o fator surpresa, já que todo mundo podia ser enganado. Agora todos já conheciam suas intenções. E ele sabia disso.
Ao constatar a previsível perda de vigor da atividade econômica do país após a farra da supervalorização das commodities, e agora órfão do manto moral que outrora ornamentava a aura do partido, Lula percebeu que todas as máscaras tinham caído e ele não precisaria mais se preocupar em manter as aparências. Vendo seu empreendimento econômico ruir por sobre as próprias bases frágeis, o establishment petista viu a hora de colocar em prática seu plano B.
Em paralelo a uma campanha massiva de terrorismo propagandísticoo partido enxergou na exaltação de suas fraquezas a chave para se perpetuar no poder. Numa saída brilhante, a intelligentsia do PT percebeu na glamourização da pobreza e da ignorância uma forma de usar seus defeitos como escudo, de modo a atenuar o máximo possível a percepção geral do fracasso retumbante do partido em cumprir suas promessas.  Da mesma forma como o governo de Brave New World consegue manter todos rigidamente sob controle fazendo-os amar sua servidão, as mentes mais brilhantes do PT viram num problema cada vez mais difícil de esconder, a solução para todos os outros: da mesma forma que a tartaruga utiliza sua pesada carapaça, que a torna tão lenta, para se defender, os parcos recursos intelectuais de Dilma e Lula seriam exibidos não mais como uma mancha indelével na reputação do Brasil como país, um lembrete de como o brasileiro não sabe escolher seus representantes. A partir de agora a glamourização da pobreza, da ignorância e da estupidez passa a ser a armadura que os torna lentos, mas ao mesmo tempo fortes.
Nunca foi segredo que muito da popularidade de Lula junto às massas ignaras sempre foi resultado de sua capacidade de capitalizar seu ar de nordestino xucro e sua pose de ignorante. Como se apenas boas intenções (se é que elas realmente existiram em algum momento) fossem suficientes para levar um país adiante, talvez seu maior êxito político foi convencer que, mesmo sendo inimigo dos livros, sua “vontade de fazer o bem”, aliada a sua história de vida difícil seriam prova de sua honestidade e o habilitariam a ser um bom governante. Até o dia em que sua verdadeira face foi revelada isso funcionou como um relógio.
Quando não pôde mais continuar no poder, a estratégia teve de ser modificada. Na falta de alguém com o mesmo apelo popular e tendo que amargar a situação de ver os três sucessores naturais (Dirceu, Palocci e Genoíno) nas páginas policiais dos noticiários, o partido não viu alternativa a não ser indicar para a sucessão uma burocrata obscura sem qualquer experiência na vida política. Dona de um carisma de bode velho e de uma capacidade retórica simiesca, Dilma Roussef tinha como único diferencial em relação aos demais candidatos o fato de ser mulher. Uma vez que apenas homens tinham assumido o cargo máximo da República, isso certamente pesaria a seu favor junto à militância bovina, mas ficou evidente que era necessária outra abordagem para captar a atenção da parcela da população que trabalha.
Desse modo, o caminho escolhido pelo departamento de marketing do PT foi investir na imagem da tecnocrata competente: a mulher forte por trás da Petrobras. A “mãe do PAC”.
Não que isso tivesse feito qualquer diferença, mas, até que o petrolão viesse à tona (gestado durante sua própria administração da estatal), foi possível, aos trancos e barrancos, levar a imagem adiante. Foi apenas quando ficaram evidentes seu despreparo gritante, seus parcos recursos intelectuais e sua completa inabilidade política, que ela foi definitivamente acometida pela síndrome do Lula desacreditado (em menor grau, é claro, já que dela nunca se esperou muita coisa).
Foi nesse ambiente político que foi se instituindo progressivamente no ideário coletivo o culto à favela. Resultado direto do fracasso retumbante do PT em atender às expectativas que eles mesmos traçaram e da completa desmoralização do partido após uma década do governo mais depravado da história da República, essa nova modalidade de religião secular se caracteriza pela exaltação e glamourização da pobreza e da estupidez, com o intuito de acomodar as pessoas mais necessitadas (o alvo histórico da retórica populista do PT) à sarjeta socioeconômica e cultural que o governo só conseguiu perpetuar, de modo a facilitar a administração dessa situação em benefício próprio.
Por mais que haja um esforço hercúleo da classe falante brasileira em provar o contrário, favelas são locais insalubres onde prevalece a lei da selva. Como em toda terra-de-ninguém, os mais fracos estão continuamente submetidos aos caprichos de gangues de traficantes e milícias que impõem suas vontades única e exclusivamente por meio da força bruta. Mesmo que o Estado esteja infestado de toda sorte de criaturas iguais ou piores, há que se apontar, pelo menos, a existência de um sistema legal de pesos e contrapesos que, bem ou mal, limita seu poder de destruição. A Magna Carta da favela, por outro lado, é a arbitrariedade tirânica de quem tem mais poder de fogo.
 É por isso que toda tentativa de angelizar a paisagem só pode interessar a quem tem a pretensão de se perpetuar no poder. Por não passarem de uma cortina de fumaça que impede as pessoas de enxergar o fracasso estrondoso do governo em cumprir sua função auto imposta de “melhorar sua vida” (como se simplesmente sair do caminho delas não fosse a melhor forma de fazer isso), esse perverso sistema de hipnotização em massa só serve para maquiar a dura realidade para quem vê, voluntária ou involuntariamente, o Estado como a apoteose da civilização: nas favelas ele está de joelhos, as pessoas estão entregues à própria sorte e não há nenhuma solução para essa situação no longo-médio prazo.
Desde que Edward Bernays teve a idéia de usar a propaganda para explorar comercialmente a imensa capacidade humana de ser feito de otário, a mídia se apresentou como o meio ideal. No caso do Brasil, não poderia ser diferente. A cultura pop foi inundada de referências à favela. Desde a novela das nove que ostenta o nome de uma “comunidade” no título e conta a história da moradora que “sonha com uma vida melhor”, ao programa dominical comandado pela apresentadora que angariou fama e fortuna fazendo pose de ralé, passando pela profusão interminável de “cantores” de funk tatuados que saíram da miséria latindo pornografia grosseira e fazendo apologia ao crime, o que já foi visto como um lugar perigoso, destinado a pessoas sem opção, tem virado o paraíso da nova modalidade de cultura então em vigor no ideário popular. O espaço que o rapper aliciado com esmola estatal consegue em rede nacional para ofender opositores do governo, a atenção exagerada recebida pelo casal de “músicos” que expõe a crise conjugal em rede nacional para voltar aos holofotes e o culto bovino ao jogador de futebol que virou um semideus por encarnar com perfeição o espírito favelado do novo rico (aquele que sai da favela, mas a favela não sai dele), nada mais são do que sintomas de uma mesma doença: a favelização cultural em marcha no Brasil.
As conseqüências disso não poderiam ser mais evidentes.
Um projeto social organizado por uma ONG de atuação em favelas, em parceria com o MIT e o Ford Institute, tem como objetivo identificar moradores de comunidades com talento para criar “inovações tecnológicas”. Por trás da idéia aparentemente altruísta, se esconde um desprezo por gente pobre que, de tão sutil, é impossível de ser entendido no âmbito da maldade elementar. Um mal tão velado, fino e involuntariamente irônico que possivelmente nem mesmo os detentores desse sentimento torpe têm condições de destilá-lo do turbilhão de preconceitos, idéias erradas, e pressuposições equivocadas que os levam a endossarem tamanha monstruosidade moral.
A imagem que orna o título da matéria que apresenta a iniciativa mostra três moradores de favela que participam do projeto, dos quais se destaca uma moça de 24 anos, negra, grávida do segundo filho. Estudante de Serviço Social da UFRJ e bolsista de um programa do Ministério da Cultura, a jovem fala com empolgação sobre sua habilidade em utilizar lixo para resolver os problemas de “engenharia doméstica” que surgem no seu dia a dia. Um em particular, enfatizado pela reportagem, mostra de maneira inequívoca a real função desses projetos com “consciência social”.
Ao expor como a moça contornou a carência de um ventilador, utilizando recortes de cartolina para refrigerar um quarto quente num dia de calor, o enfoque delinquente do texto procura utilizar a engenhosidade dela para maquiar o absurdo camusiano presente no fato de alguém não dispor de míseros R$ 30 para comprar um simples aparelho de ventilação no paraíso do bem estar social petista. Espécime típico do segmento da população que pulula na retórica populista do partido, a jovem é o retrato mais fiel do retumbante fracasso da estratégia por ele adotada para tirar as pessoas da pobreza: mesmo não dispondo de tão irrisória quantia, ainda assim, possui dois filhos. E está feliz e satisfeita com isso. Ao mascarar o fato de a moça precisar catar lixo para ter um mínimo de conforto como um suposto esforço para “romper com preconceitos com materiais recicláveis”, o texto cumpre com perfeição sua função pedagógica huxleyana de manter as pessoas pobres estagnadas e contentes na latrina sócio-econômica que aprenderam a amar.
Nas palavras de um integrante da ONG: “A gambiarra é genuinamente favelada”. Ele não poderia estar em maior consonância com o conceito do projeto social do qual faz parte. O próprio nome, “Gambiarra Favela Tech”, traduz um desprezo cínico por essas pessoas, uma ironia fina com sua situação de miséria, que, de tão odientos e desproporcionais, só se comparam à amplitude da loucura ideológica que consegue enxergar caridade no assassinato inclemente de sua dignidade.
 É unicamente sob a mesma ótica insana que é possível tentar entender o causo a seguir que, de tão surreal, parece fruto de alucinação lisérgica.
Um rapaz de classe média, cosmopolita e educado em colégios particulares, faz amizade com moradores de uma favela adjacente ao bairro nobre em que reside. Resolve então abrir mão da educação de elite a que tinha acesso para ingressar num colégio estadual e estudar junto com os novos amigos. Em seguida, decide não cursar faculdade e resolve abandonar a confortável vida que levava para viver na favela. Enfim, casa com uma moça da “comunidade” e arruma um emprego de motoboy em uma pizzaria.
Eis que um delegado da polícia federal é assaltado próximo à ocupação. Em meio à investigação, ao cruzar dados de suspeitos do crime, a equipe responsável pelo caso descobre no Facebook fotos em que o rapaz aparecia junto com os meliantes. Como é natural, ele passa então a figurar na lista de suspeitos. A apuração avança sobre uma quadrilha de roubo de carros. Ao levantar ocorrências de delegacias da região, o delegado associa as imagens a características descritas por vítimas dos assaltos. Em dois casos, ocorridos em 2013, algumas delas reconhecem o rapaz dentre os acusados. Como de praxe, sua prisão preventiva é decretada.
A decisão judicial teve repercussão nacional no meio acadêmico. O frenesi, registrado em 16 estados incluindo São Paulo (onde os fatos se passaram), se baseia nas alegações de que o rapaz foi detido ilegalmente (já que crime de roubo é de competência estadual e um delegado federal lidera a operação) e de que o motivo principal da ação policial é o fato de ele “ter ultrapassado certas barreiras de inclusão social”.
É de uma vigarice atroz rotular de “ilegal” uma prisão preventivadecretada após extenso trabalho de uma investigação iniciada num crime do qual o próprio agente federal foi vítima, só porque mesmo resultado deveria ser obtido a partir da investigação de agentes estaduais. Esse apego obsessivo a pormenores técnicos não passa de uma tentativa mal disfarçada de assegurar impunidade ao comportamento duvidoso do rapaz. Óbvio que a simples presença dele em fotos na companhia de suspeitos não determina, por si só, sua culpa. Já isso associado ao fato de ele ter sido reconhecido por duas vítimas de assaltos torna sua apreensão nada mais do que um procedimento padrão da polícia.       
O que se apresenta aqui, no entanto, não é um protesto em favor da aplicação ortodoxa da legislação criminal do estado de São Paulo. A história de um rapaz de classe média que “supera preconceitos”, “ultrapassa barreiras de inclusão social” e é punido “ilegalmente” pelo sistema judiciário reacionário, racista, elitista e segregador do estado de São Paulo é a versão “progressista” do mito de Prometeu. Ao abrir mão de sua “situação privilegiada” para trazer o fogo de sua presença iluminada à comunidade das pobres almas desassistidas e injustiçadas por um sistema desumano que só privilegia os ricos e brancos, o bravo jovem atraiu a fúria dos deuses do estado e, como punição, tem seu fígado devorado pela intolerância preconceituosa desses “fascistas” que odeiam pobres e se ressentem em vê-los viajando de avião.
Certamente resultado do provável proselitismo ideológico dos pais, ambos ligados a movimentos sociais e à militância de esquerda, o destino do rapaz que abriu mão de uma carreira profissional promissora para morar numa favela e trabalhar como entregador só pode ser entendido no âmbito do culto à favela. Diferentemente das pessoas comuns, que se submetem a morar em favelas por falta de opção, o caso do rapaz é mais enigmático porque mostra como idéias tem consequências. O horror de duas aberrações morais que não hesitam em sacrificar o futuro do próprio filho em nome de uma tara ideológica só piora quando se constata que esse picadeiro só está montado porque o rapaz agiu de modo suspeito na condição artificial de favelado. Difícil acreditar que sua mãe, professora de psicologia da USP, fosse dar a cara pra bater se ele fosse um empresário bem sucedido flagrado lavando dinheiro única e exclusivamente visando seu lucro pessoal, sem levar em conta nenhuma das “boas causas” que possivelmente justificam o mensalão pra ela.

De uma sociedade cujos meios difusores de ideias estão infestados de revolucionários comprometidos mais com proselitismo ideológico do que com a busca honesta da verdade não se poderia esperar um panorama cultural muito diferente. É o desprezo que Marx sentia pelos pobres que explica porque os governos que se dizem mais preocupados com os necessitados são justamente os que mais insistem em rebaixá-los, humilhá-los e tratá-los como subespécie. Só assim é possível entender que o maior prejuízo que eles causam às sociedades não é político ou econômico. Sua verdadeira herança maldita é sempre legada às mentes das pessoas.


domingo, 20 de setembro de 2015

#StandWithAhmed



Porbandar, Índia, 1891. Imagine o jovem Gandhi saindo sozinho de uma festa na casa de amigos tarde da noite. Ao passar por uma viela suja, escura e erma, ele é acometido por uma lancinante dor no estômago. Alguma comida da festa lhe causou um problema digestivo. São 01h12min. Cambaleando, Gandhi não sabe se vai conseguir voltar pra casa, quando então passa por ele, apressada e sozinha, uma jovem de mais ou menos 17 anos. Desesperado e sem ter a quem mais recorrer, o futuro criador da filosofia do satyagraha puxa o sári da garota na tentativa de chamar sua atenção. Qual a instintiva reação da moça ao ser abordada por trás, tarde da noite, sozinha, num local afastado e quase sem iluminação, num país onde uma mulher é estuprada a cada 21 minutos?

Dilema semelhante tirou o sossego de uma professora do ensino médio em Irving, Texas, ao constatar um artefato insólito na mochila de um aluno de origem sudanesa. Uma semana após o décimo quarto aniversário do 11 de Setembro, Ahmed Mohamed, de 14 anos (!), levou à escola um relógio que ele construiu para apresentar na aula de engenharia. Empolgado, o garoto foi mostrar seu trabalho à professora que, nervosa, aconselhou-o a escondê-lo. Eis que, no meio da aula, o relógio guardado na mochila do garoto começa a alarmar...
O triste mal entendido rendeu ao pobre Mohamed uma visita a um centro de detenção juvenil (com direito a algemas, longas horas de interrogatório, coleta e registro de impressões digitais e uma sessão de fotos ao estilo Al Capone), além de três dias de suspensão no colégio, sem que ele fosse acusado de qualquer crime.
Óbvio que houve nítido excesso na abordagem de Ahmed. Quando do confisco do objeto, qualquer especialista em explosivos poderia atestar seu caráter inofensivo e o garoto seria poupado de muito sofrimento desnecessário. É natural que o episódio gere indignação, já que se trata de um inocente pagando por algo que não cometeu. Seria justo também ele receber algum tipo de compensação. Esclarecidos esses pontos, vamos ao que interessa.
Como sempre ocorre quando alguém que não se encaixa no padrão WASP, é punido justa ou injustamente (como é o caso de Mohamed) no Ocidente, uma profusão interminável de justiceiros de rede social com muito tempo livre e trambiqueiros de megafone sem qualquer freio moral, não demora a se manifestar, dispostos a tirar proveito da desgraça alheia. Um bando de vigaristas midiáticos se valendo da necessidade dos chimpanzés narcisistas de iPhone de tentar conferir um mínimo de significado a suas existências patéticas posando de “tolerantes” e politicamente corretos no facebook.
Exibindo o cinismo e o oportunismo habituais, Barack Obama não demorou em reivindicar seu naco de publicidade ao convidar Ahmed Mohamed para visitar a Casa Branca e levar seu invento. À primeira vista parece uma atitude nobre e desinteressada, mas, por que não convidar também alguém que passou 30 anos no corredor da morte injustamente? Se der para tirar proveito político disso, quem sabe? O mesmo poderia ser perguntado ao hipócrita Mark Zuckerberg, que, do alto de sua falsidade politicamente correta, disse que “a ambição de construir algo deveria levar a aplausos, não à prisão”. Isso pode fazer sentido pra quem anda cercado por seguranças todo o tempo, mas, pra pessoas comuns, talvez o medo de ser morto do nada fale mais alto do que a necessidade de fazer social para a beautiful people das corporações de comunicação...
Rotular a professora de Ahmed, os policiais que o detiveram (a despeito da truculência desnecessária) ou, por conseguinte, a maioria da população dos EUA de “islamofóbica” (seja lá o que isso signifique) por desconfiarem de um garoto de aparência árabe, portando um artefato no mínimo inusitado, dentro de um local cheio de crianças, nos EUA, uma semana após um aniversário do 11/09, é tão justo quanto querer colar a pecha de misândrica na mocinha do causo fictício de Gandhi. Num cenário onde só há vítimas, o que mais se aproxima de culpa pela situação desagradável é a displicência da família (se realmente foi inocência) de Mohammed, que não o alertou que seu comportamento poderia ser considerado suspeito numa sociedade profundamente traumatizada, que tem todos os motivos do mundo para desconfiar da própria sombra. Aos oportunistas de plantão fica a pergunta: se antes de levar sua invenção à escola, Ahmed decidisse dar uma passada na Casa Branca? 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Armas Não Matam. Palavras Não Matam. Pessoas Matam.


          Em 17 de junho, o massacre de nove pessoas numa igreja metodista em Charleston, Carolina do Sul, reacendeu a antiga discussão sobre o acesso universal ao porte de armas de fogo e a irrestrita liberdade de discurso nos EUA, assegurados pela Constituição. Motivada por ódio racista, a chacina foi mais emblemática por ocorrer no interior da Emanuel African Methodist Episcopal Church, símbolo da resistência à intolerância étnica, que foi destruída algumas vezes por gangues supremacistas.
Desde o 11/09, grupos terroristas domésticos seculares assassinaram nos EUA duas vezes mais pesssoas que jihadistas declarados. A liberdade de expressão desfrutada por esses criminosos para difundir suas mensagens de ódio, bem como o fácil acesso a armas de fogo, garantidos pelas duas primeiras emendas da Constituição Americana, se configuram num perigo em vários níveis à esmagadora maioria da população pacífica e tolerante.
O primeiro e mais óbvio é a ameaça física representada pela existência dessas gangues a pessoas que não se encaixam no padrão branco/cristão/anglo-saxônico/heterossexual. De acordo com relatório publicado pelo FBI em 2012, dos crimes registrados pelas mais diversas motivações, os levados a cabo por ódio étnico contra negros (66,2%) lideram por apertada margem sobre os crimes de motivação religiosa contra judeus (62,4%). O terceiro grupo mais agredido, com 59,4% dos crimes de motivação étnica, são os hispânicos, seguidos pelos homens homossexuais, vitimizados por 53,9% das condutas ilícitas motivados por sua orientação sexual.
A importância principal de levantamentos como esse reside na sua utilidade em realçar o abismo que separa os preconceitos dos crimes por eles motivados. Duas pesquisas que usaram diferentes métodos de avaliação para medir o índice de racismo na população dos EUA (uma usou como base termos racistas pesquisados no Google e a outra, declarações racistas no Twitter) foram unânimes em apontar a porção oriental do país como a mais preconceituosa. Como era de se esperar, estados sulistas como Texas, Lousiana, Arkansas e Alabama, cuja maioria da população é historicamente racista, apresentaram em 2006 alguns dos maiores índices de criminalidade motivada por ódio contra pessoas negras. Uma análise apressada desses números poderia estabelecer uma dependência necessária entre o discurso de ódio propagado por parte dessas populações e o número de crimes motivados por ele nessas áreas.
Se isso realmente é verdade, como explicar o fato de a Califórnia, situada no extremo oeste do país, longe das áreas mais racistas de acordo com os levantamentos apontados, apresentar o maior número de grupos extremistas em atividade dentre os estados da federação, a maioria deles (aproximadamente 65%) declaradamente (racist skinheads, neonazis, white nacionalists)  ou potencialmente (general hate) racistas? Como conceber que o mais famoso estado dos EUA, mesmo praticamente livre de incidências de discurso racista em postagens no Twitter, possua uma taxa de ocorrência de crime motivado por ódio contra pessoas negras semelhante à do Texas, contumaz primeiro colocado nas listas de estados mais racistas dos EUA? Mesmo que as agências policiais locais não sejam obrigadas a reportar crimes de ódio nos EUA (o que explica o fato de raramente haver dados desse tipo de crime no Mississípi, por exemplo), se houvesse correlação compulsória entre incidência de racismo e crimes por ele motivados, dificilmente a Califórnia teria uma taxa de crimes de intolerância maior que a maioria dos estados racistas do leste, de acordo com levantamento do FBI em 2006.
E o que dizer sobre Montana e Idaho que,  tanto no levantamento realizado a partir das pesquisas no Google, quanto na investigação das postagens no Twitter praticamente não registraram ocorrência de racismo mas possuem mais grupos de ódio ativos que a maioria dos estados americanos, incluindo a maior parte da região oriental?
As Dakotas, por sua vez, apresentaram resultados semelhantes tanto numa pesquisa quanto na outra mas, mesmo assim, possuem alguns dos mais altos índices de crimes cometidos por motivação racista.
Por fim, e mais importante, o estado de New York, apesar de ser a terceira unidade da federação com mais grupos de ódio ativos (aproximadamente 48% deles declarada ou potencialmente racista),  além de possuir uma população fortemente racista de acordo com o levantamento baseado em pesquisas do Google, possui uma das mais baixas taxas de crimes motivados por ódio em todo território americano, muito menores do que estados praticamente sem incidência de racismo (ainda de acordo com a pesquisa do Google) como as Dakotas, Montana, Washington e Idaho.      
Esses dados são bastante enfáticos em negar uma conexão obrigatória entre a existência de preconceito étnico contra negros em determinada região e a ocorrência de crimes contra eles cometidos por causa da cor de sua pele. Como atesta o mapa dos crimes de ódio dos EUA, elaborado pela University of Michigan, a geografia desses delitos não coincide com a geografia do racismo.  Não dá para ignorar que o preconceito pode sim influenciar a conduta violenta contra pessoas negras mas não é condição necessária para tal.
Dois casos recentes são particularmente emblemáticos em demonstrar isso.
Há pouco mais de um ano, o então dono do Los Angeles Clippers, Donald Sterling, foi banido para sempre da NBA por conta de comentários racistas (proferidos em particular, diga-se de passagem). No mês de Junho, Dylan Roof matou nove pessoas numa igreja da Carolina do Sul, somente por serem negras. Por mais que isso passe sempre despercebido, a causa que motivou tanto os comentários equinos do pateta judeu quanto o massacre promovido pelo lixo branco de Charleston foi uma só: a crença tacanha de que o fato de serem brancos os tornam melhores que os outros. O cerne da questão é a diferença abissal entre o comportamento de um de outro. Mesmo sendo racista, Sterling não abateu seres humanos como gado. Roof o fez por ser um assassino, não por ser racista. Não foram os discursos infames que ele postou em suas redes sociais, nem a arma que ele utilizou no crime, nem a bandeira confederada que ele exibia do alto de sua estupidez supremacista, os responsáveis pela carnificina na Carolina do Sul. Sua frieza e crueldade, reflexos de sua miserável natureza sanguinária, utilizaram seu racismo como válvula de escape para dar vazão a sua cólera assassina.
O que leva, então, ao segundo perigo que paira sobre o povo livre dos EUA. Mais grave porque velada, a ameaça contínua aos direitos fundamentais previstos na Bill of Rights se configura em item recorrente na agenda de setores progressistas, fortemente empenhados em aumentar o poder de ingerência do estado sobre o indivíduo. De maneira ardilosa e rasteira, esses segmentos teimam em colocar uma gigantesca maioria de pessoas pacíficas e tolerantes, ainda que eventualmente preconceituosas, no mesmo patamar de vermes como Dylan Roof, a fim de cercear as liberdades garantidas pela Constituição.
Se utilizando de uma sórdida campanha de disseminação de medo e ódio, esse grupos têm como modus operandi induzir as pessoas a abrir mão de seus direitos em troca de uma suposta segurança que eles têm a oferecer. Através da forma imunda como manipulam tragédias como a de Charleston, eles usam as mortes de inocentes a fim de convencer pessoas pacíficas que meia dúzia de degenerados representam o grosso de uma sociedade fundada sobre o respeito ao próximo e a submissão ao império das leis.
Esse esforço se dá basicamente em duas frentes.
A primeira delas se refere às incansáveis tentativas de contenção da liberdade de expressão, garantida pela Primeira Emenda da Constituição. Materializado na busca incessante por meios legais de coibir opiniões divergentes, esse empenho compreende desde a neutralização orwelliana da linguagem proposta pelo politicamente correto, até a tentativa de criminalização da livre expressão inerente à prática de imputar o rótulo de“discurso de ódio” a qualquer opinião, sem critério definido.
Não é que discurso de ódio não exista e não carregue em si uma ameaça ao alvo de sua virulência. A questão é a importância superdimensionada que se dá a ele. A análise dos contextos histórico-sociais em que discursos de ódio ocasionaram cataclismos sociais mostra que a ação dos seus perpetradores contou com a fragilidade das instituições daquelas sociedades e/ou com a conivência silenciosa (quando não o estímulo declarado) dos governos.
No ano de 1994, em Ruanda, a responsabilidade da Rádio Des Mille Collines (ligada ao governo hutu de Juvenal Habyarimana) no genocídio tutsi não pode ser contestada. A campanha de desumanização empreendida pela emissora certamente contribuiu para disseminar o ódio entre a maioria hutu a ponto de erradicar de sua humanidade qualquer resquício de civilização. O que não se leva em conta é a incapacidade do estado em conter as ondas de violência, reflexo da histórica instabilidade política do país. Ao se empenhar ativamente no extermínio tutsi, as forças de coerção do estado, controladas pela maioria hutu, ignoraram seu dever de protegê-los enquanto cidadãos ruandeses. O problema aqui é civilizacional. Foi fragilidade das instituições democráticas da nação africana o que possibilitou o controle do estado por gangues racistas e a subsequente tragédia.
Há alguns anos, nos Estados Unidos, uma dupla musical formada por garotas de descendência ariana causou estardalhaço devido ao teor de suas letras. Abertamente nazista, o grupo Prussian Blue vendeu 91 mil cópias em 2006, sucesso ocasionado, é claro, pelas garantias da Primeira Emenda da Constituição Americana. Mesmo entoando um discurso odioso, não se viu em decorrência disso nenhum massacre de judeus ou negros nos Estados Unidos. Na direção diametralmente oposta a isso, ao saber do “trabalho” das garotas, os próprios vizinhos de bairro direcionaram uma brutal rejeição à família delas. Cartazes com os dizeres No hate here eram praticamente onipresentes na vizinhança e foram determinantes para mantê-los acuados, tornando inócuo qualquer proselitismo racista que eles por ventura tentassem empreender.
Comparando-se as duas situações, pode se tirar algumas conclusões. Diferentemente do que ocorreu em Ruanda, nenhuma rádio ligada ao estado ou a membros do governo federal americano deu suporte ao ódio nacional socialista propagado pelo Prussian Blue. As pessoas que se identificavam com o discurso da “banda”, mesmo que em minoria, não empreenderam nenhuma onda de atentados contra negros, judeus ou homossexuais simplesmente porque sempre souberam que se o fizessem, iriam ser caçados como animais e devidamente enjaulados (talvez até executados, a depender da unidade da federação), como ocorre com qualquer fora da lei num local civilizado. Mesmo tendo seu direito à livre manifestaçao pacífica assegurado pelo estado, tanto as meninas da “banda” quanto os grupos neonazistas que davam suporte, sempre foram vigiados de perto pelos orgãos de segurança do estado. Ao menor sinal de delinquência promovida por esses degenerados, eles seriam prontamente punidos. Independente de qualquer estímulo, seres humanos são seres pensantes e têm capacidade de escolha. Por mais que se defenda a proibição e criminalização do discurso de ódio (como acontece na maioria dos países europeus, por exemplo) as evidências apontam que, apesar de infame e primitivo, o impacto que ele causa em nações civilizadas com instituições sólidas é irrelevante. Se as diatribes proferidas pelas pobres criaturas do Prussian Blue foram praticamente inócuas nos EUA, isso só se deve a uma razão: não é o discurso que mata. As pessoas matam.
Ainda dentro do esforço totalitário em minimizar as liberdades garantidas pela Primeira Emenda, não pode deixar de ser notado o circo que está sendo montado ao redor da bandeira da armada confederada. No que claramente é parte de uma agenda muito mais abrangente, firmemente fincada no impulso suicida de ridicularizar e destruir todo um arcabouço de leis, tradições e instituições que permitiram à civilização ocidental ascender da barbaridade à hegemonia sócio-tecnológica-cultural no mundo, o estandarte está sendo tratado como o espantalho midiático da vez.
A histeria bovina coletiva em torno do mais famoso símbolo confederado se apoia na crença de que se trata de um ícone de orgulho racista. Não há como negar que a Constituição da Confederação garantia explicitamente a permanência da escravidão (apesar de proibir o comércio internacional de escravos). Inconcebível, no entanto, é a canalhice ideológica que enxerga equivalência moral entre confederados e nacional socialistas. A escravidão defendida pelos separatistas americanos tinha razões meramente econômicas. Por se tratar de sociedades pré industriais cujas economias eram baseadas em monoculturas de exportação, os estados sulistas adotavam a servidão humana por ser este o único meio economicamente viável de produção em massa em meados do século XIX, quando a Revolução Industrial ainda engatinhava fora da Grã-Bretanha. Por mais imoral que seja a prática, ela já foi necessária. Felizmente a evolução da Revolução eliminou a necessidade de se tratar seres humanos como máquinas ao tornar possível a mecanização da agricultura, o que contribuiu enormemente para o enriquecimento geral da humanidade nos séculos posteriores.  
A escravidão defendida pelos nacional-socialistas em pleno século XX, ao contrário, se apoiava na convicção de sua suposta “superioridade racial” em relação a outros grupos étnicos. Logo, as justificativas para tal eram simplesmente ideológicas. Só mesmo uma ralé intelectual, massa de manobra de descontrolados saltimbancos midiáticos, para acreditar no conto de fadas de que um mero símbolo de orgulho sulista está no mesmo patamar moral de uma insígnia de morte e escravidão como a suástica.
Por outro lado, se a perseguição demente à bandeira confederada se justifica por ser ela um símbolo de uma sociedade erguida sobre o modo de produção escravista, por que não demonizar também a bandeira britânica, já que representou um império que usou largamente a escravidão? Por que não dinamitar a Esfinge e as Pirâmides de Gizé, símbolos de outra civilização adepta do servilismo, construídos com o suor e o sangue de milhares de seres humanos, como, aliás, ocorreu com todas as outras Sete Maravilhas do Mundo Antigo? Não seria o caso de pôr abaixo o Coliseu e de abandonar o Direito Romano, já que são contribuições de outra sociedade imperial escravocrata?  E por que não ir mais a fundo e rejeitar logo a Democracia e a Cultura Helenística, heranças de outra civilização que se servia da mesma prática?
Foi exatamente esse tipo de alienação ideológica que levou um rebanho de muares a se manifestar efusivamente durante a remoção da bandeira confederada do capitólio da Carolina do Sul. Com direito a cobertura em tempo real, a turba de idiotas úteis exibia sem pudor sua ignorância bovina em rede nacional, convictos, do alto de sua burrice oicofóbica, de que estavam agindo para melhorar o mundo. Nessa alucinação coletiva habilmente orquestrada, a demonização da cultura confederada é só aparência, porque a luta real é contra a Civilização Ocidental. Tal qual os talibãs, que nos delírios megalômanos de sua fúria louca destruíram os Budas de Bamiyan, mandando pelos ares um milênio de História Humana, esses fanáticos seculares exigem o fim de qualquer símbolo que represente uma ameaça à sua religião política.
Quem enxerga a comparação como exagero sempre pode se perguntar onde estavam esses asnos manobrados em abril, quando uma bandeira comunista foi içada no capitólio de Washington, por ocasião da visita de um embaixador chinês. Não fosse um punhado de cidadãos livres a exigir a sua retirada, sem qualquer estardalhaço ou cobertura midiática em tempo real, a infame insígnia totalitária, símbolo-mor da mais abjeta escravização em massa da história, continuaria tremulando em tom de deboche na terra da liberdade.
      Se o ataque contínuo às garantias individuais previstas na Primeira Emenda visam limitar os direitos e liberdades a tanto custo conseguidos, a segunda frente de ação contra a soberania do indivíduo, refletida na verdadeira cruzada empreendida contra o direto de portar e manter armas de fogo garantido pela Segunda Emenda da Constituição, se configura no meio que esses setores encontraram de assegurar a implementação de sua agenda coletivista com resistência mínima.
É um engano persistente a crença de que o direito de acesso a armas de fogo foi pensado pelos fundadores dos EUA como uma forma de assegurar o direito do indivíduo à auto defesa. Apesar de essencial e indispensável, essa garantia é secundária frente à potencialidade ilimitada que os governos humanos têm de se converter em regimes totalitários. Foi a recusa dos fundadores em deixar a população à mercê de tiranias internas e externas, o que levou o Japão Imperial a desistir da ideia estúpida de invadir a costa oeste dos EUA por terra durante a Segunda Guerra Mundial, temendo encontrar “um homem com um fuzil atrás de cada folha de grama”.   
Ignorando completamente esses fatos, e muito mais que isso, se empenhando ativamente para remover de seu caminho a extraordinária resistência que uma população armada representa para suas pretensões tirânicas coletivistas, facções progressistas reunidas sob a égide do Partido Democrata dos EUA dedicam incansáveis esforços na busca de meios para contornar a Segunda Emenda da Constituição. Barack Obama, o superman progressista que não se intimida em ameaçar passar por cima do parlamento para “expandir oportunidades para mais famílias americanas”, não se furta de, sempre que possível, dançar sobre as covas das vítimas de maníacos armados, na tentativa de demonizar publicamente todo aquele que discorda de sua agenda, tratando-os como cúmplices desses assassinatos, só porque têm a petulância de achar que as pessoas podem se defender por si mesmas.
As liberdades asseguradas pelas duas primeiras emendas da Constituição Americana são eventos únicos na história da humanidade. A iniciativa de se impedir o exercício do poder absoluto a partir da concessão aos governados de irrestrita liberdade de expressão e do direito de possuir meios de se defender contra uma eventual tirania do governo, nada mais é do que um lapso momentâneo de razão na sucessão de selvageria e abusos de toda sorte que recebe o nome de história humana. Talvez por isso haja quem incorra no engano de pensar que a supremacia americana no mundo se deva ao fato de sua população ser genética ou intelectualmente superior às outras. Se cubanos ou mexicanos arriscam a vida para entrar nos Estados Unidos e não o contrário, se pessoas de todo mundo deixam seus países para desfrutar da liberdade e da prosperidade que encontram lá, isso só se explica por uma razão: eles não são humanamente superiores a ninguém, apenas possuem um melhor conjunto de princípios.


As Vítimas e as Marchas Pelos Direitos Civis do Século XXI


Mais uma cidade americana é consumida pelo caos diante da morte de um homem negro em decorrência da ação de policiais brancos. Freddie Gray, de 25 anos, veio a óbito após passar uma semana internado com lesões na coluna, provocadas pela ação negligente e truculenta de agentes de segurança pública enquanto era detido ilegalmente. Um dia após a confirmação de sua morte, tiveram início em Baltimore as mais violentas manifestações populares desde a década de 1960. Depois dos casos Trayvon Martin em 2012 e Michael Brown e Eric Garner no ano passado, têm se tornado cada vez mais recorrentes episódios de fúria popular, desencadeados pela ação truculenta de policiais brancos contra homens negros nos EUA.
Desde a Guerra de Secessão, motivada fundamentalmente pelo desentedimento entre Confederação e União em relação à questão da escravidão, a tensão social entre negros e brancos tem sido uma constante nos EUA. Como ocorreu na maioria das sociedades pré-Revolução Industrial com sistemas econômicos baseados na servidão étnica, a maior parte dos  ex-escravos libertos ao fim da mais mortal guerra travada em território americano não foram adequadamente integrados à sociedade. Como consequência, os negros se configuram atualmente como o segundo grupo étnico mais pobre nos EUA, logo atrás dos americanos de descendência indígena. A situação econômica adversa, aliada a um racismo renitente originado nas plantações de algodão de democratas sulistas, se converteu num barril de pólvora, pronto para explodir de tempos em tempos. A apoteose desses distúrbios se deu, sem dúvida, na segunda metade do século XX, quando políticas segregacionistas institucionalizaram o racismo, relegando oficialmente os negros à condição de cidadãos de segunda classe.
Décadas após a extinção do famigerado arcabouço legal que tornava lei a segregação étnica nos EUA, as manifestações violentas têm retornado com cada vez mais intensidade. Só que as circunstâncias são outras. Se na década de 1960  os confrontos mais agudos ocorreram em decorrência do assassinato de Martin Luther King Jr., hoje seu exato oposto é a causa dos motins.
Não deixa de ser tragicamente irônico que os distúrbios mais severos da segunda metade do século XX tenham sido causados pelo assassinato covarde de um intelectual multi-premiado, adepto da filosofia do satyagraha, e então mais jovem ganhador do Prêmio Nobel da Paz,  enquanto as ondas de saques e vandalismo do início do século XXI tenham origem em previsíveis assassinatos de bandidos comuns. Luther King, um dos homens mais importantes do século passado, deu sua vida para que as pessoas negras tivessem um mínimo de dignidade nos EUA. Michael Brown foi morto num confronto com a polícia, após ter assaltado uma loja de conveniência em Ferguson. Trayvon Martin, adolescente com histórico violento de posse de armas e uso de drogas, foi baleado por agredir um vigilante comunitário. Freddie Gray tinha passagens na polícia por múltiplos delitos como posse de drogas e destruição de propriedade privada. Eric Garner, apesar de, como Gray, ser morto em decorrência de evidente excesso policial, também era um criminoso contumaz, acusado, dentre outras condutas ilícitas, de assédio sexual, falsidade ideológica e posse de drogas.   
Não que os assassinatos se justifiquem pela conduta antissocial dos marginais. Longe disso. O que não pode ser ignorado é o oportunismo rasteiro de setores midiáticos "progressistas" em apontar neles uma suposta motivação racista da polícia. Tendo em mente que, nos EUA, os brancos são as maiores vítimas dos excessos das forças de segurança, é de se admirar porque apenas as mortes de bandidos negros causam comoção generalizada e recebem atenção da grande mídia. Comparar, de alguma forma, os recentes episódios de delinquência coletiva, perpetrados por uma turba habilmente manobrada por arruaceiros disfarçados de jornalistas, com as Marchas de Selma a Montgmery, é insultar a memória de gente da estatura de Martin Luther King Jr. e Rosa Parks.
Muito pior do que a clara intenção de alguns ideólogos do quebra-quebra em converter em manifestações de racismo a abordagem de criminosos negros pela polícia, é o incomensurável utilitarismo despudorado de políticos que utilizam os motins para reforçar sua agenda. Quando o homem que carrega nas costas a honra e a responsabilidade de ser o primeiro chefe de estado negro do maior país do mundo comete o destempero de dizer coisas como “Trayvon Martin could have been me, 35 years ago”, ele admite abertamente o desprezo que sente pelo herói negro que, contra todas as possibilidades, ignora as facilidades do crime (devidamente sancionadas pelos “preocupados com o social” como cobranças da “dívida histórica” que os brancos possuem em relação a eles) e luta pelo que é seu dentro das regras. Ao buscar dividendos políticos se comparando a um criminoso comum, Barack Obama espezinha o legado de Martin Luther King Jr (esse sim muito mais digno da posição de primeiro presidente negro dos EUA do que um simples agitador que nunca teve um trabalho na vida), que deu sua vida para provar que é possível exigir direitos sem recorrer à bandidagem ideologicamente “justificada”. Cada vez que usa o expediente marxista da luta classes para acusar policiais de Target Poors, African Americans, ele automaticamente assume a responsabilidade por qualquer degenerado que entenda suas provocações ideológicas rasteiras como incitação ao assassinato de policiais brancos. Queira ou não, Obama tem as mãos sujas de sangue.
Por ironia do destino, algumas semanas após o incidente de Ferguson um jovem branco desarmado foi assassinado por um policial negro, em clara demonstração de excesso de força policial. Uma pesquisa rápida no Google por Dillon Taylor, Eric Garner, Trayvon Martin, Michael Brown ou Freddie Gray mostra que, enquanto para o primeiro o que se apresenta de relevante são apenas uma simples página de facebook exiginido justiça pelo assassinato, um artigo do Daily Mail e uma postagem do Washington Times,  no caso dos outros, sem exceção, há artigos na Wikipedia sobre cada assassinato, fotos  (a maioria delas retratando-os em expressões amigáveis, pra dizer o mínimo) e menções de algumas das maiores redações europeias e americanas como The Guardian, CBS News, NBC News, BBC e Time. Há, inclusive, uma fundação criada em memória de Trayvon Martin. Indagado sobre a diferença entre as coberturas da CNN sobre Michel Brown e Dillon Taylor, Jake Tapper, âncora da emissora, se limitou a dizer que We don’t cover a lot of things enough. Das duas uma: ou o mainstrem jornalístico dos EUA anda meio distraído fazendo proselitismo esquerdista, ou a vida de um negro vale mais que a de um branco.