quarta-feira, 29 de abril de 2015

Sobre os Discursos "Igualitários" de Hollywood


Segundo estimativas, a economia chinesa ultrapassará a norte-americana em menos de uma década. No entanto, mesmo possuindo arsenal nuclear e uma das mais poderosas forças armadas do planeta, é pouco provável que o gigante asiático possa ser tão bem sucedido quanto os EUA em impor seus valores ao restante do mundo, por uma razão muito simples:  soft power.
Se uma coisa ficou clara após o fim da guerra fria, foi que poderio econômico - militar não é suficiente para nações que tenham pretensões hegemônicas mundiais. Analogamente à britânica e à romana muito antes, a pax americana se apóia na difusão de um conjunto de idéias e valores associados aos EUA que são exportados e aceitos mundo a fora. Por exercer influência mediante a ameaça de uso da força, a capacidade bélica de uma nação, hard Power, não consegue conquistar “corações e mentes”. Se Moscou tivesse o mesmo apelo publicitário do Ocidente, Putin não precisaria agir como um assaltante de morro para manter a Ucrânia na esfera de influência do Kremlin.
  Poucos agentes são tão responsáveis pelo triunfo global da propaganda americana quanto sua indústria cinematográfica. Por ter abrangência mundial, Hollywood é um poderoso instrumento de difusão de idéias.  Seja na ocasião da defesa de pautas historicamente conservadoras, como quando lançou produções pró-Vietnã como Braddock e Rambo, seja na adoção de idéias ditas “progressistas”, como é a tendência atual, o poder de influência de Hollywood não pode ser subestimado.
Ao receber o Oscar de melhor atriz coadjuvante em 2015, a atriz Patricia Arquette fez um discurso inflamado exigindo igualdade salarial e de direitos para as mulheres nos EUA. Sob intensos aplausos da platéia presente, a atriz não perdeu a chance de justificar seu prêmio e garantir que continua digna de arrumar trabalho no futuro, ao fazer publicamente sua profissão de fé à seita política da corriola que dá as ordens em Hollywood. Num país onde a população universitária é majoritariamente feminina, e cujos principais indicadores sociais estão entre os mais igualitários do mundo...
De acordo com o IBGE, em 2011 a remuneração média das mulheres no Brasil, ficou em torno de 70% da média masculina. O mesmo estudo aponta que, em média, mulheres trabalham 4,2 horas semanais a menos que os homens. Quem procura, honestamente, entender como funciona a dinâmica do mercado de trabalho, não pode ignorar que fatores como maternidade e dedicação à família têm influência direta na redução da capacidade produtiva de uma mulher não solteira. Por mais que a remuneração fique a cargo dos órgãos de seguridade social, o tempo que uma mulher passa afastada do trabalho para se dedicar à maternidade, por exemplo, incorre em custos adicionais ao empregador, que precisa treinar e ambientar um substituto até que a funcionária regresse, além de arcar com sua natural redução da produtividade logo após o retorno.
Discursos como o de Arquette mais atrapalham que ajudam as mulheres. Ao ignorar a realidade em favor de um discurso ideológico ela clama por maior ingerência do estado no setor privado. O principal efeito colateral disso é que mulheres tão qualificadas quanto e possivelmente até mais talentosas e competentes que seus concorrentes homens tendem a ser preteridas em seleções de trabalho devido a seu maior custo de contratação. A ocasião de uma legislação, que, em reparo a esse problema, obrigasse as empresas a manter igual proporção de homens e mulheres em seus quadros, implicaria num aumento exponencial da concorrência entre as mulheres em idade produtiva. Paradoxalmente, a interferência do governo na política de remuneração do setor privado tende a criar o cenário que os maiores militantes pela "igualdade de gênero" mais se empenham em evitar: uma realidade de competição selvagem ilimitada, onde os fracos não têm vez. Num ambiente adequadamente desregulado, a insistência de eventuais empregadores em admitir apenas homens seria devidamente punida melo mercado, pois, sendo as mulheres tão capazes e competentes quanto os homens, seria criada uma oferta de mão de obra feminina barata e qualificada, que seria disputada intensamente por atores que buscam exclusivamente o lucro. Obviamente tão talentosas como os homens e com o diferencial de, a priori, oferecerem a mesma mão de obra com menor preço, as trabalhadoras seriam gradualmente atraídas para salários cada vez maiores, até que as desigualdades salariais se extinguissem naturalmente.
No caso de Hollywood, o discurso da vencedora do Oscar de atriz coadjuvante de 2015 se mostra ainda mais sem sentido. Por ser um ramo de negócios que lida com entretenimento, o cinema, de modo muito mais nítido que em outros campos da atividade humana, tende a dar mais valor a quem faz mais sucesso e tem mais apelo com quem consome o serviço, ou seja, o público. Na época áurea de Two and a Half Men, Charlie Sheen, um bêbado e mulherengo inveterado se tornou o ator mais bem pago da TV americana.  Robert Downey Jr., outro ex-drogado que já teve problemas sérios com a justiça, se tornou o mais valioso ator de Hollywood após interpretar personagens como o detetive Sherlock Holmes na franquia homônima e o Iron Man na multi- milionária franquia The Avengers. Dwayne Johnson, protagonista de clássicos eternos do cinema muar como Fast & Furious, é o ator mais bem pago do mundo. O que há em comum entre esses casos é que, mesmo tendo seus trabalhos praticamente ignorados pela crítica especializada, todos eles conseguiram fazer de suas imagens alguns dos produtos de maior valor comercial na indústria de entretenimento dos EUA. Diferentemente de Patricia Arquette, eles nunca precisaram subir num púlpito para, da mesma forma que um mendigo exigente, choramingar por mais do que merecem, por causa de uma realidade simples: eles até podem não ser tão talentosos, mas são mais carismáticos e mais rentáveis que sua colega estridente. Por isso ganham mais e são mais famosos.
Durante a segunda temporada de Friends, Jennifer Aniston e David Schwimmer detinham os maiores salários dentre o elenco principal da sitcom. Só depois que a série fez sucesso a ponto de os seis protagonistas terem a mesma importância, de comum acordo, e sem precisar fazer papel de otário num palanque, eles decidiram reivindicar salários iguais.
        Da mesma forma como já converteu a maioria de suas produções em plataformas de proselitismo esquerdista, Hollywood tem se empenhado ativamente em favorecer artistas que abraçam sua causa “voluntariamente”. O fato de a academia boicotar acintosamente atores que não fazem eco a seu viés ideológico, só mostra como o meio artístico dos EUA é intolerante à divergência de opinião e bastante receptivo a oportunistas que fazem uso de seu “engajamento político” para ganhar visibilidade.

terça-feira, 21 de abril de 2015

O Proselitismo Insensato de Vice


No mais recente episódio de Vice, aclamada série jornalística da HBO, é apresentado um negócio pouco conhecido, que vem crescendo de forma avassaladora na Índia: a gravidez terceirizada. A atividade consiste basicamente no aluguel do útero de uma mulher para gerar uma criança a partir do material genético de pessoas que contratam o serviço. Devido ao adiamento da gravidez por motivos profissionais, o aumento da adoção por parceiros gays, e, principalmente, o menor custo em relação ao mesmo serviço prestado em seus países de origem, cada vez mais pessoas têm procurado clínicas indianas.
O capítulo se inicia com a visita de uma correspondente do semanário a um desses estabelecimentos. À primeira vista, a jornalista se impressiona com o ritmo quase industrial da ocorrência de partos cesarianos na unidade. É possível perceber em suas intervenções certo teor crítico com o fato de a clínica optar por esse tipo de procedimento (já que especialistas em obstetrícia recomendam o parto cesariano apenas em condições especiais) e com a forma sistemática como, diante de tanto a fazer, os funcionários do hospital realizam seu trabalho. Quem já frequentou qualquer unidade hospitalar, sabe que o caráter metódico da atividade lá executada só pode causar estranheza a quem não tem a mínima idéia da dinâmica de um local como aquele. Chega a ser ridícula a forma como ela tenta induzir o espectador a partilhar de sua ingenuidade.
Após entrevistar a proprietária da clínica, a repórter é informada sobre como o serviço representa uma possibilidade de fuga da penúria extrema para as indianas pobres. Num país onde 360 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza e onde 22,5% da população não é minimamente alfabetizada, são parcas as chances de uma mulher pobre e analfabeta não ter que se submeter a regimes de semi-escravidão ou trabalhos degradantes para sobreviver. Como se isso não bastasse para justificar a importância de uma iniciativa que ajuda a amenizar a miséria num país onde quase 50% da população não dispõe sequer da mínima infraestrutura de saneamento básico, a intrépida jornalista observa agora os fatos sob a ótica das mulheres que se submetem ao procedimento. Ao mesmo tempo em que algumas, aos prantos, confessam se sentir constrangidas, elas vislumbram a possibilidade única de ganhar o suficiente para deixar de viver no neolítico, sem precisar vender as filhas pra isso.
Ostentando a vaidade típica de quem se pretende farol da humanidade, a incansável defensora dos fracos e oprimidos se impele agora na direção de sua semelhante local, uma ativista dos direitos das mulheres (é possível perceber uma foto sua com Hillary Clinton). Chega a ser surreal ver alguém que diz “defender as mulheres” viver de procurar meios de dificultar uma atividade empreendedora que representa, pelo menos para os padrões indianos, uma forma voluntária, não coerciva, não violenta e não degradante de elas garantirem um mínimo de dignidade. Se isso já atinge as raias da fantasia num país pobre qualquer, chega a ser patético numa sociedade onde, frequentemente, semi-escravidão não é questão de escolha, mas de necessidade. É como se as mulheres indianas já não tivessem problemas o suficiente: uma ativista se diz preocupada com elas enquanto trabalha para reduzir os meios de elas abandonarem a mendicância. E isso num país onde uma mulher é estuprada a cada 21 minutos. É como diz o ditado, socialista gosta tanto dos pobres que vive para multiplicá-los e os manter na escassez.
A Índia é uma sociedade bárbara, onde a miséria, mais que ignorada, já foi inclusive institucionalizada. Um país que tem a cultura de tratar a população pobre como humanidade excedente. Mesmo assim, há zelotes que, ao vislumbrarem visionários, verdadeiros Midas contemporâneos que geram riqueza onde antes só havia penúria e desespero, preferem manter o antolho ideológico, só porque a realidade não corrobora com seu fanatismo. No caso da redação de Vice, isso ainda é compreensível. Seguros, bem alimentados e confortáveis em suas prósperas sociedades, é mais fácil se entregar a contos de fada políticos do que se colocar no lugar de quem passa fome a meio mundo de distância. Vinda de gente que, por outro lado,  acompanha em tempo real o drama de quem precisa se desumanizar pra conseguir comer, essa atitude só é compreensível no  campo da maldade pura e simples. Gente que vive de explorar a miséria alheia para se promover.