terça-feira, 30 de junho de 2015

Como a Europa Quebrou a Grécia


Imagine que o Sr. Barriga tenha a brilhante ideia de emprestar dinheiro ao Sr. Madruga pra investir no Festival da Boa Vizinhança. Na hora de cobrar o empréstimo, o dono da vila  percebe que o simpático devedor dos eternos 14 meses de aluguel não tem como pagar. Temendo o calote, o primeiro empresta mais dinheiro ao segundo, sob as condições de que ele gaste apenas com o necessário e que vá procurar um emprego. O Sr. Madruga concorda mas não cumpre o que promete. O tempo passa. O Sr. Barriga volta a cobrar e percebe que nada mudou, nem a disposição de seu inquilino em pedir mais dinheiro para tentar se reerguer. O Sr. Barriga começa a perceber que talvez não seja uma boa ideia continuar dando dinheiro ao punk da vila porque a única riqueza que ele gera é sua contribuição inestimável à cultura pop, e ele não consegue capitalizá-la. O Sr. Madruga exige mais dinheiro e decide perguntar à Chiquinha se ela aceita as condições que o Sr. Barriga impõe para emprestar mais. O Sr. Barriga não acredita que nada de bom saia dessa consulta porque dificilmente a filha do Sr Madruga vai aceitar suas condições, uma vez que ela é quem mais vai sofrer com as medidas propostas. Sr Barriga se vê diante de um impasse: emprestar mais ao Sr. Madruga (mesmo sabendo que não vai ver a cor do dinheiro tão cedo) só pra evitar que ele saia da vila sem pagar o que deve, ou aceitar as imposições do inquilino para mantê-lo lá e impedir que outros inquilinos em situação parecida (mas que se esforçam para honrar suas dívidas) também deem calote?
Troque “Sr. Barriga” por “FMI + UE + BCE”, “Sr. Madruga” por “Grécia”, “Festival da Boa Vizinhança” por “Olimpíadas de 2004”, “contribuição inestimável à cultura pop”, por “contribuição inestimável à civilização ocidental”, “Chiquinha” por “população grega”, “vila” por “zona do euro” e “outros inquilinos em situação parecida (mas que se esforçam para honrar suas dívidas)” por “Itália, Portugal, Irlanda e Espanha”, para ter uma noção do que está acontecendo no país de Sócrates.  
Os desajustes fiscais da Grécia vêm de muito antes das Olimpíadas de 2004 mas é fato que a realização do evento, juntamente com a crise de 2008, foi o catalisador do processo irreversível, pelo menos a médio prazo, de empobrecimento do país mediterrâneo. Em seu livro “O Mito do Governo Grátis”, o economista Paulo Rabello de Castro credita aos Jogos Olímpicos de 2004, com custo final de US$ 12,2 bilhões, o título de mais caros da história moderna até então. A inclusão de Atenas na zona do euro em 2002 criou a ilusão de que um país que, antes disso, era o segundo país mais pobre da região em termos de PIB per capita[1], teria condições de honrar as dívidas, contraídas para realizar o evento. Como resultado disso, a dívida pública grega em 2004 chegou a 98,6% do PIB[1]. Hoje, 1 em 4 gregos está desempregado.
 No fim de 1923, 1 em cada 3 alemães estavam na mesma situação. Crises, como se sabe, nada mais são do que celeiros de oportunidades para discursos extremistas. Foi por isso que, nesse mesmo ano, Hitler tentou tomar o poder através de um golpe numa cervejaria de Munique. Nessa tentativa ele não foi bem sucedido. Seu encarceramento, entretanto, originou o Mein Kampf, a base filosófica do Teceiro Reich, que se iniciaria uma década mais tarde.
Na Grécia, o Syriza, partido radical de extrema esquerda, venceu as eleições de 22 de janeiro apostando num discurso antiausteridade. Seu líder e atual mandatário da nação mediterrânea, Alexis Tsipras se referiu à vitória de seu partido como o fim de um processo de “humilhação” que a Grécia vem sofrendo por parte dos outros países europeus.  O interessante é que “humilhação” também era um termo recorrente na retórica do Partido Nacional Socialista antes de tomar o poder na Alemanha. Tal como as imposições do Tratado de Versalhes sobre a Alemanha depois de 1918, as medidas exigidas pelo FMI e pelo Banco Central Europeu promoveram uma piora generalizada dos indicadores econômicos gregos, possibilitando assim a ascensão política de grupos extremistas. Os neonazistas ficaram em terceiro lugar  na eleição de janeiro.
Uma análise equivocada pode levar à conclusão de que são as medidas de austeridade que estão arruinando a Grécia, quando, na verdade, são elas o que separa o país da barbárie. Foram esses ajustes que possibilitaram ao país atingir, no fim do ano passado, o menor nível de déficit orçamental desde 2008, confirmando assim uma tendência de queda, iniciada no período mais agudo da crise, em 2010. Muito mais do que o desprezo com que os sucessivos governos perdulários da nação do mar Egeu trataram as finanças do país, foi a irresponsabilidade delirante dos banqueiros franceses e alemães em emprestar sem qualquer critério durante a euforia da construção das instalações dos Jogos Olímpicos, que possibilitaram a ascensão do Syriza na Grécia. Mais preocupados em garantir os votos dos 700 mil empregados do setor público através de políticas econômicas populistas, os governos gregos anteriores a 2004 não serão tão responsáveis pela ruína grega quanto a burrice cega dos banqueiros europeus em tentar lucrar num país quebrado.
Em 5 de julho, o governo grego vai convocar a população a se manifestar sobre as medidas de austeridade propostas pelo FMI e pelo BCE através de um referendo. No que é tratado pela União Europeia como “traição da Grécia”, o previsível resultado da consulta só vai confirmar sua contribuição ativa na destruição do país mediterrâneo, ao permitir, através da decisão aloprada de financiar as inúteis Olimpíadas de 2004, a ascensão de um lunático comunista que tem no desprezo ao livre mercado o alicerce de suas crenças econômicas. Alexix Tsipras não é o maior culpado pelo que vai acontecer com seu país. A Europa quebrou a Grécia.


[1] O Mito do Governo Grátis - Paulo Rabello de Castro