sexta-feira, 31 de julho de 2015

Armas Não Matam. Palavras Não Matam. Pessoas Matam.


          Em 17 de junho, o massacre de nove pessoas numa igreja metodista em Charleston, Carolina do Sul, reacendeu a antiga discussão sobre o acesso universal ao porte de armas de fogo e a irrestrita liberdade de discurso nos EUA, assegurados pela Constituição. Motivada por ódio racista, a chacina foi mais emblemática por ocorrer no interior da Emanuel African Methodist Episcopal Church, símbolo da resistência à intolerância étnica, que foi destruída algumas vezes por gangues supremacistas.
Desde o 11/09, grupos terroristas domésticos seculares assassinaram nos EUA duas vezes mais pesssoas que jihadistas declarados. A liberdade de expressão desfrutada por esses criminosos para difundir suas mensagens de ódio, bem como o fácil acesso a armas de fogo, garantidos pelas duas primeiras emendas da Constituição Americana, se configuram num perigo em vários níveis à esmagadora maioria da população pacífica e tolerante.
O primeiro e mais óbvio é a ameaça física representada pela existência dessas gangues a pessoas que não se encaixam no padrão branco/cristão/anglo-saxônico/heterossexual. De acordo com relatório publicado pelo FBI em 2012, dos crimes registrados pelas mais diversas motivações, os levados a cabo por ódio étnico contra negros (66,2%) lideram por apertada margem sobre os crimes de motivação religiosa contra judeus (62,4%). O terceiro grupo mais agredido, com 59,4% dos crimes de motivação étnica, são os hispânicos, seguidos pelos homens homossexuais, vitimizados por 53,9% das condutas ilícitas motivados por sua orientação sexual.
A importância principal de levantamentos como esse reside na sua utilidade em realçar o abismo que separa os preconceitos dos crimes por eles motivados. Duas pesquisas que usaram diferentes métodos de avaliação para medir o índice de racismo na população dos EUA (uma usou como base termos racistas pesquisados no Google e a outra, declarações racistas no Twitter) foram unânimes em apontar a porção oriental do país como a mais preconceituosa. Como era de se esperar, estados sulistas como Texas, Lousiana, Arkansas e Alabama, cuja maioria da população é historicamente racista, apresentaram em 2006 alguns dos maiores índices de criminalidade motivada por ódio contra pessoas negras. Uma análise apressada desses números poderia estabelecer uma dependência necessária entre o discurso de ódio propagado por parte dessas populações e o número de crimes motivados por ele nessas áreas.
Se isso realmente é verdade, como explicar o fato de a Califórnia, situada no extremo oeste do país, longe das áreas mais racistas de acordo com os levantamentos apontados, apresentar o maior número de grupos extremistas em atividade dentre os estados da federação, a maioria deles (aproximadamente 65%) declaradamente (racist skinheads, neonazis, white nacionalists)  ou potencialmente (general hate) racistas? Como conceber que o mais famoso estado dos EUA, mesmo praticamente livre de incidências de discurso racista em postagens no Twitter, possua uma taxa de ocorrência de crime motivado por ódio contra pessoas negras semelhante à do Texas, contumaz primeiro colocado nas listas de estados mais racistas dos EUA? Mesmo que as agências policiais locais não sejam obrigadas a reportar crimes de ódio nos EUA (o que explica o fato de raramente haver dados desse tipo de crime no Mississípi, por exemplo), se houvesse correlação compulsória entre incidência de racismo e crimes por ele motivados, dificilmente a Califórnia teria uma taxa de crimes de intolerância maior que a maioria dos estados racistas do leste, de acordo com levantamento do FBI em 2006.
E o que dizer sobre Montana e Idaho que,  tanto no levantamento realizado a partir das pesquisas no Google, quanto na investigação das postagens no Twitter praticamente não registraram ocorrência de racismo mas possuem mais grupos de ódio ativos que a maioria dos estados americanos, incluindo a maior parte da região oriental?
As Dakotas, por sua vez, apresentaram resultados semelhantes tanto numa pesquisa quanto na outra mas, mesmo assim, possuem alguns dos mais altos índices de crimes cometidos por motivação racista.
Por fim, e mais importante, o estado de New York, apesar de ser a terceira unidade da federação com mais grupos de ódio ativos (aproximadamente 48% deles declarada ou potencialmente racista),  além de possuir uma população fortemente racista de acordo com o levantamento baseado em pesquisas do Google, possui uma das mais baixas taxas de crimes motivados por ódio em todo território americano, muito menores do que estados praticamente sem incidência de racismo (ainda de acordo com a pesquisa do Google) como as Dakotas, Montana, Washington e Idaho.      
Esses dados são bastante enfáticos em negar uma conexão obrigatória entre a existência de preconceito étnico contra negros em determinada região e a ocorrência de crimes contra eles cometidos por causa da cor de sua pele. Como atesta o mapa dos crimes de ódio dos EUA, elaborado pela University of Michigan, a geografia desses delitos não coincide com a geografia do racismo.  Não dá para ignorar que o preconceito pode sim influenciar a conduta violenta contra pessoas negras mas não é condição necessária para tal.
Dois casos recentes são particularmente emblemáticos em demonstrar isso.
Há pouco mais de um ano, o então dono do Los Angeles Clippers, Donald Sterling, foi banido para sempre da NBA por conta de comentários racistas (proferidos em particular, diga-se de passagem). No mês de Junho, Dylan Roof matou nove pessoas numa igreja da Carolina do Sul, somente por serem negras. Por mais que isso passe sempre despercebido, a causa que motivou tanto os comentários equinos do pateta judeu quanto o massacre promovido pelo lixo branco de Charleston foi uma só: a crença tacanha de que o fato de serem brancos os tornam melhores que os outros. O cerne da questão é a diferença abissal entre o comportamento de um de outro. Mesmo sendo racista, Sterling não abateu seres humanos como gado. Roof o fez por ser um assassino, não por ser racista. Não foram os discursos infames que ele postou em suas redes sociais, nem a arma que ele utilizou no crime, nem a bandeira confederada que ele exibia do alto de sua estupidez supremacista, os responsáveis pela carnificina na Carolina do Sul. Sua frieza e crueldade, reflexos de sua miserável natureza sanguinária, utilizaram seu racismo como válvula de escape para dar vazão a sua cólera assassina.
O que leva, então, ao segundo perigo que paira sobre o povo livre dos EUA. Mais grave porque velada, a ameaça contínua aos direitos fundamentais previstos na Bill of Rights se configura em item recorrente na agenda de setores progressistas, fortemente empenhados em aumentar o poder de ingerência do estado sobre o indivíduo. De maneira ardilosa e rasteira, esses segmentos teimam em colocar uma gigantesca maioria de pessoas pacíficas e tolerantes, ainda que eventualmente preconceituosas, no mesmo patamar de vermes como Dylan Roof, a fim de cercear as liberdades garantidas pela Constituição.
Se utilizando de uma sórdida campanha de disseminação de medo e ódio, esse grupos têm como modus operandi induzir as pessoas a abrir mão de seus direitos em troca de uma suposta segurança que eles têm a oferecer. Através da forma imunda como manipulam tragédias como a de Charleston, eles usam as mortes de inocentes a fim de convencer pessoas pacíficas que meia dúzia de degenerados representam o grosso de uma sociedade fundada sobre o respeito ao próximo e a submissão ao império das leis.
Esse esforço se dá basicamente em duas frentes.
A primeira delas se refere às incansáveis tentativas de contenção da liberdade de expressão, garantida pela Primeira Emenda da Constituição. Materializado na busca incessante por meios legais de coibir opiniões divergentes, esse empenho compreende desde a neutralização orwelliana da linguagem proposta pelo politicamente correto, até a tentativa de criminalização da livre expressão inerente à prática de imputar o rótulo de“discurso de ódio” a qualquer opinião, sem critério definido.
Não é que discurso de ódio não exista e não carregue em si uma ameaça ao alvo de sua virulência. A questão é a importância superdimensionada que se dá a ele. A análise dos contextos histórico-sociais em que discursos de ódio ocasionaram cataclismos sociais mostra que a ação dos seus perpetradores contou com a fragilidade das instituições daquelas sociedades e/ou com a conivência silenciosa (quando não o estímulo declarado) dos governos.
No ano de 1994, em Ruanda, a responsabilidade da Rádio Des Mille Collines (ligada ao governo hutu de Juvenal Habyarimana) no genocídio tutsi não pode ser contestada. A campanha de desumanização empreendida pela emissora certamente contribuiu para disseminar o ódio entre a maioria hutu a ponto de erradicar de sua humanidade qualquer resquício de civilização. O que não se leva em conta é a incapacidade do estado em conter as ondas de violência, reflexo da histórica instabilidade política do país. Ao se empenhar ativamente no extermínio tutsi, as forças de coerção do estado, controladas pela maioria hutu, ignoraram seu dever de protegê-los enquanto cidadãos ruandeses. O problema aqui é civilizacional. Foi fragilidade das instituições democráticas da nação africana o que possibilitou o controle do estado por gangues racistas e a subsequente tragédia.
Há alguns anos, nos Estados Unidos, uma dupla musical formada por garotas de descendência ariana causou estardalhaço devido ao teor de suas letras. Abertamente nazista, o grupo Prussian Blue vendeu 91 mil cópias em 2006, sucesso ocasionado, é claro, pelas garantias da Primeira Emenda da Constituição Americana. Mesmo entoando um discurso odioso, não se viu em decorrência disso nenhum massacre de judeus ou negros nos Estados Unidos. Na direção diametralmente oposta a isso, ao saber do “trabalho” das garotas, os próprios vizinhos de bairro direcionaram uma brutal rejeição à família delas. Cartazes com os dizeres No hate here eram praticamente onipresentes na vizinhança e foram determinantes para mantê-los acuados, tornando inócuo qualquer proselitismo racista que eles por ventura tentassem empreender.
Comparando-se as duas situações, pode se tirar algumas conclusões. Diferentemente do que ocorreu em Ruanda, nenhuma rádio ligada ao estado ou a membros do governo federal americano deu suporte ao ódio nacional socialista propagado pelo Prussian Blue. As pessoas que se identificavam com o discurso da “banda”, mesmo que em minoria, não empreenderam nenhuma onda de atentados contra negros, judeus ou homossexuais simplesmente porque sempre souberam que se o fizessem, iriam ser caçados como animais e devidamente enjaulados (talvez até executados, a depender da unidade da federação), como ocorre com qualquer fora da lei num local civilizado. Mesmo tendo seu direito à livre manifestaçao pacífica assegurado pelo estado, tanto as meninas da “banda” quanto os grupos neonazistas que davam suporte, sempre foram vigiados de perto pelos orgãos de segurança do estado. Ao menor sinal de delinquência promovida por esses degenerados, eles seriam prontamente punidos. Independente de qualquer estímulo, seres humanos são seres pensantes e têm capacidade de escolha. Por mais que se defenda a proibição e criminalização do discurso de ódio (como acontece na maioria dos países europeus, por exemplo) as evidências apontam que, apesar de infame e primitivo, o impacto que ele causa em nações civilizadas com instituições sólidas é irrelevante. Se as diatribes proferidas pelas pobres criaturas do Prussian Blue foram praticamente inócuas nos EUA, isso só se deve a uma razão: não é o discurso que mata. As pessoas matam.
Ainda dentro do esforço totalitário em minimizar as liberdades garantidas pela Primeira Emenda, não pode deixar de ser notado o circo que está sendo montado ao redor da bandeira da armada confederada. No que claramente é parte de uma agenda muito mais abrangente, firmemente fincada no impulso suicida de ridicularizar e destruir todo um arcabouço de leis, tradições e instituições que permitiram à civilização ocidental ascender da barbaridade à hegemonia sócio-tecnológica-cultural no mundo, o estandarte está sendo tratado como o espantalho midiático da vez.
A histeria bovina coletiva em torno do mais famoso símbolo confederado se apoia na crença de que se trata de um ícone de orgulho racista. Não há como negar que a Constituição da Confederação garantia explicitamente a permanência da escravidão (apesar de proibir o comércio internacional de escravos). Inconcebível, no entanto, é a canalhice ideológica que enxerga equivalência moral entre confederados e nacional socialistas. A escravidão defendida pelos separatistas americanos tinha razões meramente econômicas. Por se tratar de sociedades pré industriais cujas economias eram baseadas em monoculturas de exportação, os estados sulistas adotavam a servidão humana por ser este o único meio economicamente viável de produção em massa em meados do século XIX, quando a Revolução Industrial ainda engatinhava fora da Grã-Bretanha. Por mais imoral que seja a prática, ela já foi necessária. Felizmente a evolução da Revolução eliminou a necessidade de se tratar seres humanos como máquinas ao tornar possível a mecanização da agricultura, o que contribuiu enormemente para o enriquecimento geral da humanidade nos séculos posteriores.  
A escravidão defendida pelos nacional-socialistas em pleno século XX, ao contrário, se apoiava na convicção de sua suposta “superioridade racial” em relação a outros grupos étnicos. Logo, as justificativas para tal eram simplesmente ideológicas. Só mesmo uma ralé intelectual, massa de manobra de descontrolados saltimbancos midiáticos, para acreditar no conto de fadas de que um mero símbolo de orgulho sulista está no mesmo patamar moral de uma insígnia de morte e escravidão como a suástica.
Por outro lado, se a perseguição demente à bandeira confederada se justifica por ser ela um símbolo de uma sociedade erguida sobre o modo de produção escravista, por que não demonizar também a bandeira britânica, já que representou um império que usou largamente a escravidão? Por que não dinamitar a Esfinge e as Pirâmides de Gizé, símbolos de outra civilização adepta do servilismo, construídos com o suor e o sangue de milhares de seres humanos, como, aliás, ocorreu com todas as outras Sete Maravilhas do Mundo Antigo? Não seria o caso de pôr abaixo o Coliseu e de abandonar o Direito Romano, já que são contribuições de outra sociedade imperial escravocrata?  E por que não ir mais a fundo e rejeitar logo a Democracia e a Cultura Helenística, heranças de outra civilização que se servia da mesma prática?
Foi exatamente esse tipo de alienação ideológica que levou um rebanho de muares a se manifestar efusivamente durante a remoção da bandeira confederada do capitólio da Carolina do Sul. Com direito a cobertura em tempo real, a turba de idiotas úteis exibia sem pudor sua ignorância bovina em rede nacional, convictos, do alto de sua burrice oicofóbica, de que estavam agindo para melhorar o mundo. Nessa alucinação coletiva habilmente orquestrada, a demonização da cultura confederada é só aparência, porque a luta real é contra a Civilização Ocidental. Tal qual os talibãs, que nos delírios megalômanos de sua fúria louca destruíram os Budas de Bamiyan, mandando pelos ares um milênio de História Humana, esses fanáticos seculares exigem o fim de qualquer símbolo que represente uma ameaça à sua religião política.
Quem enxerga a comparação como exagero sempre pode se perguntar onde estavam esses asnos manobrados em abril, quando uma bandeira comunista foi içada no capitólio de Washington, por ocasião da visita de um embaixador chinês. Não fosse um punhado de cidadãos livres a exigir a sua retirada, sem qualquer estardalhaço ou cobertura midiática em tempo real, a infame insígnia totalitária, símbolo-mor da mais abjeta escravização em massa da história, continuaria tremulando em tom de deboche na terra da liberdade.
      Se o ataque contínuo às garantias individuais previstas na Primeira Emenda visam limitar os direitos e liberdades a tanto custo conseguidos, a segunda frente de ação contra a soberania do indivíduo, refletida na verdadeira cruzada empreendida contra o direto de portar e manter armas de fogo garantido pela Segunda Emenda da Constituição, se configura no meio que esses setores encontraram de assegurar a implementação de sua agenda coletivista com resistência mínima.
É um engano persistente a crença de que o direito de acesso a armas de fogo foi pensado pelos fundadores dos EUA como uma forma de assegurar o direito do indivíduo à auto defesa. Apesar de essencial e indispensável, essa garantia é secundária frente à potencialidade ilimitada que os governos humanos têm de se converter em regimes totalitários. Foi a recusa dos fundadores em deixar a população à mercê de tiranias internas e externas, o que levou o Japão Imperial a desistir da ideia estúpida de invadir a costa oeste dos EUA por terra durante a Segunda Guerra Mundial, temendo encontrar “um homem com um fuzil atrás de cada folha de grama”.   
Ignorando completamente esses fatos, e muito mais que isso, se empenhando ativamente para remover de seu caminho a extraordinária resistência que uma população armada representa para suas pretensões tirânicas coletivistas, facções progressistas reunidas sob a égide do Partido Democrata dos EUA dedicam incansáveis esforços na busca de meios para contornar a Segunda Emenda da Constituição. Barack Obama, o superman progressista que não se intimida em ameaçar passar por cima do parlamento para “expandir oportunidades para mais famílias americanas”, não se furta de, sempre que possível, dançar sobre as covas das vítimas de maníacos armados, na tentativa de demonizar publicamente todo aquele que discorda de sua agenda, tratando-os como cúmplices desses assassinatos, só porque têm a petulância de achar que as pessoas podem se defender por si mesmas.
As liberdades asseguradas pelas duas primeiras emendas da Constituição Americana são eventos únicos na história da humanidade. A iniciativa de se impedir o exercício do poder absoluto a partir da concessão aos governados de irrestrita liberdade de expressão e do direito de possuir meios de se defender contra uma eventual tirania do governo, nada mais é do que um lapso momentâneo de razão na sucessão de selvageria e abusos de toda sorte que recebe o nome de história humana. Talvez por isso haja quem incorra no engano de pensar que a supremacia americana no mundo se deva ao fato de sua população ser genética ou intelectualmente superior às outras. Se cubanos ou mexicanos arriscam a vida para entrar nos Estados Unidos e não o contrário, se pessoas de todo mundo deixam seus países para desfrutar da liberdade e da prosperidade que encontram lá, isso só se explica por uma razão: eles não são humanamente superiores a ninguém, apenas possuem um melhor conjunto de princípios.


As Vítimas e as Marchas Pelos Direitos Civis do Século XXI


Mais uma cidade americana é consumida pelo caos diante da morte de um homem negro em decorrência da ação de policiais brancos. Freddie Gray, de 25 anos, veio a óbito após passar uma semana internado com lesões na coluna, provocadas pela ação negligente e truculenta de agentes de segurança pública enquanto era detido ilegalmente. Um dia após a confirmação de sua morte, tiveram início em Baltimore as mais violentas manifestações populares desde a década de 1960. Depois dos casos Trayvon Martin em 2012 e Michael Brown e Eric Garner no ano passado, têm se tornado cada vez mais recorrentes episódios de fúria popular, desencadeados pela ação truculenta de policiais brancos contra homens negros nos EUA.
Desde a Guerra de Secessão, motivada fundamentalmente pelo desentedimento entre Confederação e União em relação à questão da escravidão, a tensão social entre negros e brancos tem sido uma constante nos EUA. Como ocorreu na maioria das sociedades pré-Revolução Industrial com sistemas econômicos baseados na servidão étnica, a maior parte dos  ex escravos libertos ao fim da mais mortal guerra travada em território americano não foram adequadamente integrados à sociedade. Como consequência, os negros se configuram atualmente como o segundo grupo étnico mais pobre nos EUA, logo atrás dos americanos de descendência indígena. A situação econômica adversa, aliada a um racismo estrutural, originado nas plantações de algodão de democratas sulistas, se converteu num barril de pólvora, pronto para explodir de tempos em tempos. A apoteose desses distúrbios se deu, sem dúvida, na segunda metade do século XX, quando políticas segregacionistas institucionalizaram o racismo, relegando oficialmente os negros à condição de cidadãos de segunda classe.
Décadas após a extinção do famigerado arcabouço legal que tornava lei a segregação étnica nos EUA, as manifestações violentas têm retornado com cada vez mais intensidade. Só que as circunstâncias são outras. Se na década de 1960  os confrontos mais agudos ocorreram em decorrência do assassinato de Martin Luther King Jr., hoje seu exato oposto é a causa dos motins.
Não deixa de ser tragicamente irônico que os distúrbios mais severos da segunda metade do século XX tenham sido causados pelo assassinato covarde de um intelectual multi-premiado, adepto da filosofia do satyagraha, e então mais jovem ganhador do Prêmio Nobel da Paz,  enquanto as ondas de saques e vandalismo do início do século XXI tenham origem em previsíveis assassinatos de bandidos comuns. Luther King, um dos homens mais importantes do século passado, deu sua vida para que as pessoas negras tivessem um mínimo de dignidade nos EUA. Michael Brown foi morto num confronto com a polícia, após ter assaltado uma loja de conveniência em Ferguson. Trayvon Martin, adolescente com histórico violento de posse de armas e uso de drogas, foi baleado por agredir um vigilante comunitário. Freddie Gray tinha passagens na polícia por múltiplos delitos como posse de drogas e destruição de propriedade privada. Eric Garner, apesar de, como Gray, ser morto em decorrência de evidente excesso policial, também era um criminoso contumaz, acusado, dentre outras condutas ilícitas, de assédio sexual, falsidade ideológica e posse de drogas.   
Não que os assassinatos se justifiquem pela conduta antissocial dos marginais. Longe disso. O que não pode ser ignorado é o oportunismo rasteiro de setores midiáticos "progressistas" em apontar neles uma suposta motivação racista da polícia. Tendo em mente que, nos EUA, os brancos são as maiores vítimas dos excessos das forças de segurança, é de se admirar porque apenas as mortes de bandidos negros causam comoção generalizada e recebem atenção da grande mídia. Comparar, de alguma forma, os recentes episódios de delinquência coletiva, perpetrados por uma turba habilmente manobrada por arruaceiros disfarçados de jornalistas, com as Marchas de Selma a Montgmery, é insultar a memória de gente da estatura de Martin Luther King Jr. e Rosa Parks.
Muito pior do que a clara intenção de alguns ideólogos do quebra-quebra em converter em manifestações de racismo a abordagem de criminosos negros pela polícia, é o incomensurável utilitarismo despudorado de políticos que utilizam os motins para reforçar sua agenda. Quando o homem que carrega nas costas a honra e a responsabilidade de ser o primeiro chefe de estado negro do maior país do mundo comete o destempero de dizer coisas como “Trayvon Martin could have been me, 35 years ago”, ele admite abertamente o desprezo que sente pelo herói negro que, contra todas as possibilidades, ignora as facilidades do crime (devidamente sancionadas pelos “preocupados com o social” como cobranças da “dívida histórica” que os brancos possuem em relação a eles) e luta pelo que é seu dentro das regras. Ao buscar dividendos políticos se comparando a um criminoso comum, Barack Obama espezinha o legado de Martin Luther King Jr (esse sim muito mais digno da posição de primeiro presidente negro dos EUA do que um simples refém de cartilha partidária), que deu sua vida para provar que é possível exigir direitos sem recorrer à bandidagem ideologicamente “justificada”. Cada vez que usa o expediente marxista da luta classes para acusar policiais de Target Poors, African Americans, ele automaticamente assume a responsabilidade por qualquer degenerado que entenda suas provocações ideológicas rasteiras como incitação ao assassinato de policiais brancos. Queira ou não, Obama tem as mãos sujas de sangue.
Por ironia do destino, algumas semanas após o incidente de Ferguson um jovem branco desarmado foi assassinado por um policial negro, em clara demonstração de excesso de força policial. Uma pesquisa rápida no Google por Dillon Taylor, Eric Garner, Trayvon Martin, Michael Brown ou Freddie Gray mostra que, enquanto para o primeiro o que se apresenta de relevante são apenas uma simples página de facebook exiginido justiça pelo assassinato, um artigo do Daily Mail e uma postagem do Washington Times,  no caso dos outros, sem exceção, há artigos na Wikipedia sobre cada assassinato, fotos  (a maioria delas retratando-os em expressões amigáveis, pra dizer o mínimo) e menções de algumas das maiores redações europeias e americanas como The Guardian, CBS News, NBC News, BBC e Time. Há, inclusive, uma fundação criada em memória de Trayvon Martin. Indagado sobre a diferença entre as coberturas da CNN sobre Michel Brown e Dillon Taylor, Jake Tapper, âncora da emissora, se limitou a dizer que We don’t cover a lot of things enough. Das duas uma: ou o mainstrem jornalístico dos EUA anda meio distraído fazendo proselitismo esquerdista, ou a vida de um negro vale mais que a de um branco.