domingo, 20 de setembro de 2015

#StandWithAhmed



Porbandar, Índia, 1891. Imagine o jovem Gandhi saindo sozinho de uma festa na casa de amigos tarde da noite. Ao passar por uma viela suja, escura e erma, ele é acometido por uma lancinante dor no estômago. Alguma comida da festa lhe causou um enorme problema digestivo. São 00h12min. Cambaleando, Gandhi não sabe se vai conseguir voltar pra casa, quando então passa por ele, apressada e sozinha, uma jovem de mais ou menos 17 anos. Desesperado e sem ter a quem mais recorrer, o futuro criador da filosofia do satyagraha puxa o sári da garota na tentativa de chamar sua atenção. Qual a instintiva reação da moça ao ser abordada por trás, tarde da noite, sozinha, num local afastado e quase sem iluminação, num país onde uma mulher é estuprada a cada 21 minutos?
Dilema semelhante tirou o sossego de uma professora do ensino médio em Irving, Texas, ao constatar um artefato insólito em poder de um aluno de origem sudanesa. Uma semana após o décimo quarto aniversário do mais mortal ataque perpetrado em território americano desde a Guerra Civil de 1861, Ahmed Mohamed, de 14 anos, levou à escola um relógio que ele construiu para apresentar na aula de engenharia.  Empolgado, o garoto foi mostrar seu trabalho à professora que, nervosa, aconselhou-o a manter o invento oculto. Eis que, no meio da aula, o relógio guardado na mochila do azarado rapaz começa a alarmar.
O triste mal entendido rendeu ao pobre Mohamed uma visita a um centro de detenção juvenil (com direito a algemas, longas horas de um perturbador interrogatório, coleta e registro de impressões digitais e uma sessão de fotos ao estilo Al Capone), além de três dias de suspensão no colégio, sem que ele fosse acusado de qualquer crime.
Óbvio que houve nítido excesso na abordagem do inocente rapaz. Quando do confisco do objeto, qualquer especialista em explosivos poderia atestar seu caráter inofensivo e Ahmed seria poupado de muito sofrimento desnecessário. É natural que o episódio gere indignação, já que se trata de um inocente pagando por algo que não cometeu. Mais justo ainda é o garoto receber algum tipo de compensação do estado. Esclarecido esses pontos, ao que interessa.
Como sempre ocorre quando alguém que não se encaixa no padrão branco/heterossexual/cristão/anglo-saxão, é punido justa ou injustamente (como é o caso de Mohamed) nos EUA, uma profusão interminável de justiceiros de rede social com muito tempo livre e trambiqueiros de palanque sem qualquer freio moral, não demora a se manifestar, dispostos a tirar proveito da desgraça alheia. Como apresentadores policialescos que se utilizam da sórdida compulsão por tragédias da ralé que lhes dá audiência, os vigaristas midiáticos se valem da necessidade que os chimpanzés de iPhone têm de tentar conferir um mínimo de significado a suas existências patéticas, vazias e bovinas, posando de legais e politicamente corretos, sempre em rede social, nunca no mundo real.
Ostentando o cinismo e oportunismo habituais, Barack Obama não demorou em reivindicar seu naco de publicidade ao convidar Ahmed Mohamed para visitar a Casa Branca e levar seu invento. À primeira vista parece uma atitude nobre e desinteressada, mas, também não seria legal convidar também alguém que passou 30 anos no corredor da morte injustamente? Se der para tirar proveito político disso, quem sabe? A mesma pergunta fica para Mark Zuckerberg, que, do alto de sua falsidade demagógica politicamente correta, disse que “a ambição de construir algo deveria levar a aplausos, não à prisão”. Ignorando completamente o trauma que um ataque terrorista de proporções cataclísmicas ainda causa, mesmo uma década e meia depois, na psique de uma população pacífica, Zuckerberg cumpre com perfeição seu papel de bajulador categoricamente submisso à opinião de quem tem o poder de falar mais alto. Foi essa mesma covardia oportunista que levou o nerd trapaceiro a aceitar calado a censura imposta ao Facebook por Tayyip Erdogan na Turquia. Intencionando cair nas graças do tiranete turco e, em conseqüência, alcançar o mercado de seu feudo particular, Mark Zuckerberg rapidamente esqueceu que “a ambição de construir algo” só pode surgir onde existe liberdade para pensar e se expressar.
Rotular a professora de Ahmed, os policiais que o detiveram (a despeito da truculência desnecessária) ou, por conseguinte, a maioria da população dos EUA de “islamofóbica” (seja lá o que isso signifique) por desconfiarem de um garoto de aparência árabe, portando um artefato no mínimo inusitado, dentro de um local cheio de crianças, nos EUA, uma semana após um aniversário do 11/09, faz tanto sentido quanto tentar colar a pecha de misândrica na mocinha do causo fictício de Gandhi. Num cenário onde só há vítimas, o que mais se aproxima de culpa pela situação desagradável é a displicência infantil da família de Mohamed, que permitiu que o pobre garoto agisse de modo suspeito numa sociedade profundamente traumatizada, que tem todos os motivos do mundo para desconfiar da própria sombra. Aos justiceiros de plantão e aos vigaristas de púlpito uma última pergunta: se antes de levar sua invenção à escola, Ahmed decidisse dar uma passadinha na Casa Branca? O que aconteceria?

             

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

As Vítimas da "Vítima": Quando a Luta de Classes Migra dos Contos de Fada Para a Realidade



Um interessante experimento social, conduzido pela rede americana de televisão ABC, detecta as reações de pessoas comuns diante de manifestações explícitas de racismo. Ambientada numa barbearia do Harlem, bairro nova-iorquino de população majoritariamente negra, a trama apresenta uma funcionária negra do estabelecimento que flerta com um cliente, também negro, até que a namorada branca dele aparece. Esses três primeiros personagens são atores. Ao saber da relação entre a mulher que chega por último e o cliente, a cabeleireira surta e começa a proferir impropérios racistas à única pessoa branca no recinto. Os outros clientes do salão, esses os alvos da armação, se comportam de diferentes maneiras, mas, além do fato de serem negros, todos têm outra coisa em comum: a presença de espírito de, cada qual a seu modo, reprovar os atos explícitos de intolerância.
Ninguém com um mínimo de bom senso e honestidade poderia esperar outra coisa. Afinal, é do Ocidente que se trata. A civilização que aboliu a escravidão humana, que equiparou socialmente homens e mulheres, que trouxe para os pobres do mundo uma prosperidade sem precedentes na história da humanidade, que erradicou a varíola, a gripe espanhola, a tuberculose o fascismo, o internacional/nacional-socialismo e o comunismo. É simplesmente por isso que as reações das pessoas na experiência não causam espanto em quem as observa. Por mais que alguns ideólogos do caos inutilmente dediquem vidas inteiras em tentar negar, pessoas educadas, conscientes e civilizadas são a regra no Mundo Livre.  E isso não se deve a nenhuma bondade intrínseca à espécie humana. É apenas o resultado do sucesso dessa civilização em, através da caridade cristã, educação e prosperidade material, elevar as pessoas do seu natural estado de selvageria à vanguarda da civilização no mundo.
O problema é que esse êxito incontestável, apesar de adaptar o homem à vida em sociedade, não muda sua natureza bárbara. Isso, acrescido do fato de que o esforço racional de renúncia à animalidade é uma noção exclusivamente ocidental, é o que explica porque a maioria da humanidade ainda vive no neolítico social. O fato de as mulheres ainda serem tratadas como gado em países islâmicos ou de a segregação institucional ainda persistir na civilização hindu, mesmo oficialmente abolida de suas sociedades (mais por pressão do Ocidente que por iniciativa própria, diga-se), são a pá de cal na trapaça multi-culturalista de que todas as culturas humanas são moralmente aceitáveis.
É nas ocasiões em que está sob a liderança de civilizações de tradição latino-helenística-judaico-cristã (Império Romano na antiguidade, Império Britânico na era Moderna, EUA atualmente) que o mundo é menos insalubre para a maior parte das pessoas (vide o caos que se instalou na Europa durante o vácuo de poder entre a queda do Império Romano e a ascensão da Igreja Católica, a violência da expansão do Islã no Oriente Médio e norte da África entre os séculos VII e VIII ou mesmo o reino de terror Mongol na Ásia Central entre os séculos XIII e XIV). Tendo em mente que o poder dessas nações está intimamente relacionado a sua capacidade de conter e administrar a natural brutalidade humana, é de causar espanto como, mesmo diante da implacável repressão que seus autores sofrem, as ocorrências de atos de selvageria persistem no Ocidente (claro que em número insignificante se comparados às demais culturas humanas). Isso só ilustra como é tênue a linha que separa civilização e barbárie, além de realçar com clareza singular como há muito o que perder no Mundo Livre. Embora os Dylan Roofs, Sandy Hooks e Columbines provem que sempre haverá o que combater, esses casos estão longe de ser uma ameaça séria à existência da maior civilização que já floresceu no planeta.
Uma nova geração de bárbaros, saída do lodo da arrogância anticlerical megalômana iluminista, fornecedora do aparato teórico que tornou possível a loucura carniceira jacobina e inaugurou a era dos assassinatos industriais, se configura no maior perigo que o Mundo Ocidental já enfrentou.
Cegamente crentes de que a salvação do mundo depende de seus ideais “generosos”, “progressistas” e “solidários”, estas grandes almas encarnam com perfeição a máxima burkeana atribuída a Rousseau, seu pai intelectual, do tipo de gente que ama a humanidade e odeia seu semelhante. Capazes de se indignar violentamente com quem olha torto para um representante de alguma “minoria historicamente oprimida”, esses filósofos da vaidade, iluminados herdeiros de Gramsci e Robespierre, se ressentem com a “decadência dos hipócritas valores morais judaico-cristãos do Ocidente”, enquanto tratam o abate sistemático de seres humanos para a comercialização de órgãos como política de planejamento familiar.
A carnificina da Virgínia, ocorrida no último dia 26 nos EUA e transmitida ao vivo em rede nacional, representa nada menos do que o mais nefasto efeito da campanha ideológica de vitimização, inveja e ressentimento obstinadamente perpetrada por esse tipo de gente, que acredita que características fenotípicas, orientação sexual ou condição socioeconômica conferem direitos automáticos a uns e condenação sem julgamento a outros. Foi certamente seu senso de merecimento exacerbado, devidamente orientado pela bússola moral sem norte, típica do revolucionário metido a justiceiro que faz qualquer coisa “pela causa”, o que fez Vester Lee Flanagan II se achar no direito de assassinar a sangue frio dois ex-colegas por se sentir por eles “discriminado”.
Negro e homossexual, Bryce Williams, cognome profissional de Flanagan, certamente se acreditava duplamente merecedor de direitos por pertencer simultaneamente a duas “classes oprimidas”. Democrata obamista e provavelmente militante LGBT, talvez tivesse achado intolerável ser demitido ou rejeitado. Como um negro, e ainda por cima gay, pode ser preterido de um emprego num país com um governo tão progressista como os EUA? Claro que isso só pode ser reflexo do racismo estrutural e da “homofobia” endêmica que permeiam a reacionária, atrasada e conservadora maioria da população norte-americana. Pouco importa se Williams era uma pessoa perturbada, propensa a conflitos com seus colegas de trabalho e com histórico de demissão em outras emissoras por onde passou. Que relevância pode ter o fato de ele precisar ter sido retirado por policiais do antigo escritório, quando da sua última demissão? Nada disso importa, afinal ele era afrodescendente e gay e todos nós, “racistas e ‘homofóbicos’”, temos uma dívida histórica para com ele. Quem liga se ele nunca foi escravizado ou se tinha os mesmos direitos que qualquer cidadão americano? Errados estão todos os que se recusaram a tratá-lo de maneira especial por causa da cor de sua pele e de sua opção sexual.
Em mais uma demonstração descarada de timing e oportunismo político, a Casa Branca não perdeu tempo em mover o foco da discussão do ato de terrorismo ideológico em si para a “necessidade” do controle de armas. Como se objetos inanimados de metal pudessem, por si só, causar dano a alguém, Obama mais uma vez deixou claro seu desprezo pela população que jurou defender ao sequer se dar ao trabalho de comentar pessoalmente o caso. Diferentemente da chacina de junho passado na Carolina do Sul (tornada possível pelo empenho do senador Clementa Pinckney, um dos nove mortos, em barrar uma lei que permitiria o porte de armas em locais públicos) quando, numa performance digna de Oscar, o liberal superman democrata não desperdiçou mais uma oportunidade de dançar sobre as covas das vítimas, despejando sua cantilena controladora desarmamentista, dessa vez, numa demonstração de descaso poucas vezes vista, ele delegou a seu porta-voz Josh Earnest a recorrente tarefa de sua administração de tripudiar dos mortos em favor de uma agenda ideológica. Quem sabe se o assassino fosse branco, heterossexual e conservador e as vítimas negras, homossexuais e progressistas, o carismático presidente não desse o ar da graça?
Em outra experiência, idêntica à do Harlem, mas com atores brancos desempenhando o papel dos atores negros e vice versa, realizada pela mesma ABC, a reação dos alvos da trama, todos brancos, não foi diferente. Apesar de ainda existir no Ocidente gente estúpida o suficiente para julgar pessoas por algo que não seu caráter e suas ações, a realidade é que, nessa civilização, esse tipo de comportamento minoritário não é mais estimulado nem tolerado. Logo, qualquer um que ao menos cogite entender a covardia traiçoeira de Flanagan como algo que destoe minimamente de uma manifestação histérica de afetação, típica de uma geração podre de mimada, habilmente mesmerizada pelo ópio do vitimismo constante por qualquer motivo, tem as mãos sujas de sangue. Agora que há gente morta, dá pra se ter idéia do que acontece quando a luta de classes migra do plano teórico para o mundo real.