sábado, 17 de outubro de 2015

A Revolta de Atlas



No início de 2014 a imagem de um ladrão surrado amarrado a um poste no bairro do Flamengo repercutiu mundo afora. Extenuadas com a incompetência arrogante do governo em prover um mínimo de segurança, ao mesmo tempo em que as impede de exercerem seu natural direito à auto defesa, algumas pessoas se juntaram e resolveram fazer justiça com as próprias mãos. De tão recorrente no Brasil, a ação talvez passasse despercebida se não fosse um comentário de Rachel Sheherazade no jornal do SBT. Por achar compreensível a atitude do grupo numa circunstância onde as autoridades só demonstram competência na hora de tomar o fruto do trabalho das pessoas, a jornalista atraiu a fúria de alguns setores minoritários, que, não fosse sua organização e capacidade de se fazer ouvidos, seriam insignificantes. Depois de um tempo afastada da bancada do jornal por pressão da polícia de pensamento do Estado, Rachel retornou mutilada em seu direito à livre expressão. 
Algum tempo depois do episódio, o mesmo meliante, agora alçado à condição de popstar pelos justiceiros de redação, voltou a aprontar. Ao ser novamente capturado, ele lançou uma máxima que até hoje ecoa na cabeça de quem evita sair de casa com receio de não voltar: Eu sou o ‘do poste’! Sabe com quem está falando?.
Ao longo de toda a história documentada, o sentimento generalizado de insatisfação tem sido a maior ameaça ao status quo na maioria das sociedades humanas. Por ser um animal intrínseca e naturalmente egoísta, poucas coisas são tão intoleráveis ao homem quanto a injustiça. O afã de exterminar privilégios (mesmo os legítimos) e desigualdades (mesmo as naturais) com o objetivo de nivelar a humanidade por baixo e acabar com injustiças deu origem a algumas das piores e mais tenebrosas perversões já perpetradas em nome de uma suposta idéia de “justiça social”. A coisa ficou especialmente pior a partir de 1789, quando o fator “causa” foi inserido na equação. Com os avanços na capacidade técnica humana, proporcionados pela Revolução Industrial, o início da era dos assassinatos industriais foi inevitável. Todas as desgraças que se abateram sobre a humanidade nos últimos cem anos remetem única e exclusivamente à sede de justiça inerente à natureza humana. Se Maria Antonieta, ao saber da fome que assolava o Terceiro Estado, materializada na escassez crônica de pão, se abstivesse de, ironicamente, aconselhá-los a substituí-lo por brioche, talvez ela terminasse seus dias de vida com a cabeça ainda no corpo.
Não foram preconceitos, hostilidade contra a aristocracia ou qualquer coisa semelhante o que levou parte dos russos do início do século XX a endossar as práticas criminosas dos bolcheviques. Ódio certamente explica a motivação de gente que, como Lenin e Trotsky, toma a frente dos movimentos e convence os demais que a violência cega é o melhor caminho. Em se tratando do cidadão comum, apenas injustiças intoleráveis têm o poder de tirá-lo da civilização. Só isso pode explicar a atitude do grupo de pessoas que amarrou o bandido ao poste. A simples idéia de que determinadas condutas são permitidas a determinados tipos de pessoas em função de sua ascendência genética, condição socioeconômica, opção sexual ou equivalente é mais do que suficiente para regredir seres humanos ao nível da selvageria.
É exatamente o sentimento de impotência diante da impunidade generalizada, amplificado pela deficiência atávica das autoridades em fornecer um mínimo de segurança e justiça a quem todo dia se vê sitiado pela criminalidade, o que cria a atmosfera ideal para o surgimento de grupos radicais, empenhados em executar o papel que seria do Estado, o detentor legal do monopólio da violência. Cada vez mais acuada, a maioria da população pacífica e honesta tem apelado para soluções cada vez mais drásticas na tentativa desesperada de se defender.
A mais recente delas alude aos grupos voluntários de justiçamento. Formadas por jovens de classe média, a maioria praticante de artes marciais, essas facções surgiram em reação à onda de arrastões que tem tomado conta do Rio de Janeiro. Seu modus operandi consiste basicamente em detectar e agredir tipos considerados “suspeitos” de cometerem os crimes. Nas palavras de um integrante, estes seriam “moleques de chinelo, com cara de quem não tem R$ 1 no bolso.”
Esse tipo de generalização rasa carrega consigo um precedente tenebroso. A cultura de associar a aparência de um indivíduo a seu suposto comportamento é tão nefasta quanto a crença de que, por ter como alvos jovens aparentemente provenientes de favela, esses movimentos têm caráter racista e “elitista”.
Seis em cada dez detentos no Brasil são negros ou pardos. Dentre as vítimas de homicídio, a proporção sobe para sete. A análise superficial de dados como esses, combinada com doses cavalares de desonestidade intelectual e charlatanismo ideológico, confere um status quase axiomático ao engodo de que o “racismo estrutural brasileiro” é a única explicação plausível para esses números. Se metade da população representa 70% das vítimas de morte violenta, como não haver um sistema seriamente empenhado em eliminar essas pessoas?
Num ambiente intelectual como o brasileiro, onde a desinformação generalizada, aliada à seletividade ideológica de estatísticas e à inclinação pavloviana de enxergar “grupos oprimidos” sempre como vítimas formam quase um senso comum, é praticamente impossível não chegar a esse tipo de conclusão. Devidamente amalgamadas com a teoria da “dívida histórica”, essas idéias formam a base de um aparato retórico amplamente empregado para defender o salvo conduto de determinados grupos sociais em deter o monopólio moral da pobreza e da criminalidade.
Dentre os “oprimidos”, os negros (perfil que geralmente inclui pardos também) são, sem dúvida, os queridinhos das grandes almas iluminadas que dedicam suas existências à árdua tarefa de tornar o mundo um lugar melhor. Na maioria das vezes em que algumas estatísticas (como a composição étnica das vítimas de assassinatos no Brasil, por exemplo) são freneticamente alardeadas para endossar determinada agenda ideológica, geralmente alguns dados acessórios são “esquecidos”.
Dois estudos, conduzidos por acadêmicos da Fundação Oswaldo Cruz em maternidades federais e municipais fluminenses, fornecem números que trazem o racismo de uma parte da população mais para perto das conseqüências que das causas desses números.
Publicado em 2002 sob o título Experiência da gravidez na adolescência, fatores associados e resultados perinatais entre puérperas de baixa renda, o primeiro deles elenca algumas características sócio-econômicas e de estilo de vida de 3508 mulheres de baixa renda que tinham acabado de dar à luz nessas instituições, de idades que iam da pré-adolescência aos 34 anos. A análise do documento mostra que, no grupo composto por mulheres menores de 20 anos, por exemplo, quase 88% delas estavam desempregadas, 26% residiam em favelas ou na rua, mais de um terço não vivam com o pai da criança (desses, um em quatro não tinha fonte de renda formal) e quase 58% delas eram pardas ou negras. 
O segundo, realizado entre os anos de 1999 e 2001 e publicado em 2004, traça o perfil sócio-demográfico e psicossocial de adolescentes recém-parturientes na mesma situação econômica. Contando com uma amostra de pouco mais de dez mil entrevistadas, o levantamento constatou, por exemplo, que, na faixa etária compreendida entre 17 e 19 anos, 57,2% delas eram negras ou pardas. No intervalo imediatamente anterior, 12-16 anos, esse percentual sobe para 58,4%. Desse contingente, 61,3% delas não estavam em união consensual na época da concepção do bebê.
Dessa forma, entender que o número elevado de negros e pardos dentre presos e vítimas de violência é mais uma questão demográfica que ideológica/cultural é simplesmente enxergar a realidade objetiva que salta aos olhos. Sendo essa a composição étnica da maioria das mães solteiras de baixa renda, das crianças de rua e das pessoas que menos se preocupam com planejamento familiar, é mais do que natural que haja mais deles envolvidos em criminalidade, pobreza e violência do que os brancos. É óbvio também que o peso da escravidão de seus antepassados e sua reinserção social no mínimo negligente são fatores a ser levados em consideração, mas creditar a isso a maior parte ou a totalidade das causas dos males que acometem essas pessoas nada mais é do que uma manifestação categórica de preconceito e desprezo por elas. A violência no Brasil é muito mais um problema de responsabilidade individual que de herança étnico-cultural.
Cada vez que um grupo se organiza para agredir alguém com “perfil de criminoso”, são esses fatos que são involuntária e instintivamente invocados para justificar as ações. Óbvio que isso é assustador, mas afirmar que apenas racismo e elitismo são as únicas motivações dessas pessoas é de uma monstruosidade moral pornográfica. Qualquer pessoa que já teve a experiência de freqüentar ou residir em áreas periféricas de centros urbanos brasileiros, já presenciou a profusão quase onipresente de adolescentes grávidas, em sua maioria negras e pardas, bem como de crianças de todas as idades vagando livremente e sem supervisão em qualquer horário. Por mais que se trate de uma prática temerária, discriminatória e até certo ponto funesta, não deixa de ser compreensível, dado o rumo que as coisas tomaram.

Tanto é assim, que da maioria das pessoas que se vêem presas na espiral caótica de violência e insegurança que tomou conta da maioria dos grandes centros urbanos brasileiros, não se poderia esperar menos que um efusivo apoio a esses grupos. Afinal, além de serem sistematicamente espoliados para garantir a base eleitoral de um governo cada vez mais disposto a se manter no poder através da administração e perpetuação da pobreza à custa da riqueza dos outros, eles ainda têm que se contentar em ser continuamente humilhados e hostilizados pelas pessoas que eles mesmos sustentam. Além de arcar com o ônus das escolhas erradas alheias, ainda são taxados de racistas, elitistas e criminosos se tentam se defender. Esse é o sistema moral que os algozes de Sheherazade (que acham um absurdo ela compreender as atitudes dessas pessoas, ao mesmo tempo que não vêem problema em alguém justificar crimes ) estão tentando implantar no Brasil.