sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Uma Reflexão Sobre o Projeto Escola Sem Partido


Não é pequena a celeuma em torno do Projeto de Lei do Senado 193/2016, de autoria do senador Magno Malta, que versa sobre a inclusão do Programa Escola Sem Partido (PESP) entre as diretrizes e bases da educação nacional. Preocupados com a potencialidade da sala de aula de se converter em palanque político-partidário, seus defensores têm como objetivo garantir aos estudantes de 1º e 2º graus os princípios constitucionais da pluralidade de ideias e da liberdade de consciência e crença, cuja aplicação se encontra sob ameaça devido à evidente inclinação ideológica do ambiente escolar brasileiro.
Dentre tantos exemplos cotidianos (como a imagem que abre essa postagem, esse, esse e esse), que de tão corriqueiros chegam a passar despercebidos, a face mais visível da hegemonia esquerdista no meio pedagógico brasileiro é o fato de alguém como Paulo Freire ser considerado o patrono nacional da educação. A maior referência brasileira em ensino menospreza o caráter profissionalizante da educação convencional, taxando-a de “bancária” por, em seu ponto de vista, tratar os estudantes como depósitos de informação (como se acúmulo de saber fosse o último estágio da degradação humana). Em vez dela, propõe uma pedagogia “crítica”, na qual o aluno “constrói o próprio conhecimento” e se torna um “agente de transformação social”. Em seu propósito original de educar jovens e adultos, o método freireano de “formar cidadãos” termina por criar massa de manobra de sindicato partidarizado e movimento “social”. Na educação regular, cria-se a cultura das birras infantis alçadas à categoria de pensamento político e dos agitadores infanto-juvenis que aprendem a “exigir direitos” (isto é, berrar pelo aumento do tamanho do estado) invadindo escolas e depredando patrimônio público (devidamente incentivados, diga-se, pela bajulação bovina de artistas e jornalistas adestrados em faculdades construtivistas de ciências humanas, especialistas em propagandear promoção de quebra-quebra niilista como “manifestação por direitos”). Nenhuma surpresa nisso, afinal proliferar infantaria revolucionária é o objetivo último de todo doutrinador marxista, desde os mais honestos como Trotsky e Gramsci aos piores vigaristas que se escondem por trás do rótulo de “educadores”.
Muito da resistência ao Projeto Escola sem Partido tem origem na concepção absurda de que educar o indivíduo, no sentido de civilizá-lo, torná-lo apto a viver em sociedade, é dever do professor. Sustentar isso é rebaixar a unidade familiar à condição de mero ajuntamento de pessoas vivendo sob um mesmo teto, pois nega a ela a prerrogativa tradicionalmente sua de transmitir aos próprios filhos os próprios valores e princípios. Um ato reflexo de uma mentalidade totalitária que tende a enxergar a formação do ser humano não como uma atribuição parental, mas como um dever do estado, cujo objetivo frequente é redesenhar a sociedade ao sabor de preferências ideológicas espúrias que de outra forma não encontrariam lastro nas tradições de uma comunidade.
É essa a motivação por trás do parágrafo único do artigo segundo do PESP, que veda a aplicação dos postulados da chamada teoria de gênero nas salas de aula do 1º e 2° graus. Em linhas gerais, a referida corrente de pensamento entende que a identidade e a sexualidade humanas não são determinadas apenas pela biologia, mas são, acima de tudo, “construções sociais”. Em outras palavras, as pessoas nascem “neutras”: não é a genitália que define se alguém “vai se tornar” homem ou mulher, mas sim suas experiências e contextos de vida.
Há pessoas de todo tipo no mundo, de modo que é razoável imaginar que exista quem não se identifique com o próprio sexo biológico. O problema da abordagem desses conceitos em ambientes onde crianças e adolescentes influenciáveis estão sujeitos à autoridade de alguém com opiniões formadas (e, não raro, a serviço de interesses escusos), é a condição que se cria para que a educação estatal sirva como instrumento de propagação das ideias e de imposição da moral de quem está no controle da sala de aula. Daí a importância de estimular os pais a redobrarem a atenção ao que seus filhos são expostos diariamente. Se aproveitando da audiência cativa dos estudantes, alguém mal intencionado tem totais condições de transmitir a pessoas em fase de desenvolvimento moral e intelectual valores que podem não condizer com a formação pretendida por suas famílias. Como qualquer pessoa, o professor, na condição de cidadão, tem total liberdade de expressão e todo direito de criar os próprios filhos da maneira que achar melhor (dentro de determinados limites legais, obviamente). O que ele não pode é educar (isto é, transmitir seus valores e visões de mundo) os filhos dos outros.
Em relação à teoria de gênero, isso é ainda mais crítico porque toca em questões delicadas como sexualidade. Há pessoas que acham conveniente apresentar esse tipo de conteúdo a crianças na primeira infância. Se entendem que sexualizar precocemente os próprios filhos pode ser benéfico para seu desenvolvimento, que assim o façam. Da mesma forma, há quem ache que esses assuntos, além de serem inadequados a pessoas que ainda não atingiram a puberdade, são importantes demais para escapar da alçada da família e ficar a cargo de “educadores” cuja formação muitas vezes se resume à observância de uma agenda ideológica.
A real intenção por trás do interesse de alguns grupos (minoritários, diga-se) em ver um assunto tão especificamente acadêmico como teoria de gênero em salas de aula frequentadas por crianças e adolescentes, pode ser aferida em um projeto de lei de autoria dos deputados federais Jean Wyllys e Érica Kokay. Nas palavras de um dos proponentes, o PL 5002/2013 “tange ao direito à identidade de gênero de pessoas menores de 18 anos de idade”. Como já é de se esperar desse tipo de gente, o projeto tem lá seu lado maluco-beleza: o parágrafo primeiro do artigo 8º rejeita qualquer averiguação de ordem psíquica como exigência para uma pessoa se submeter a algum tratamento que vise à mudança de sexo. O parágrafo segundo estende essa “conveniência” a menores de 18 anos. O artigo imediatamente posterior, num frenesi tipicamente esquerdista por governo grátis, prevê que todos esses procedimentos sejam “gratuitos” e, haja vista sua eficiência germânica para tratar da demanda convencional, obviamente de responsabilidade do SUS.
Isso, no entanto, não é o que mais chama atenção no projeto de lei do deputado ex-BBB. O artigo 5º determina que menores de 18 anos que desejem alterar o status de gênero em registros civis devem fazê-lo por meio de seus responsáveis legais. No caso de não haver consentimento destes últimos, o parágrafo primeiro deste mesmo artigo traz uma solução no mínimo controversa para o impasse: Quando, por qualquer razão, seja negado (...) obter o consentimento de algum/a dos/as representante/s do menor, ele poderá recorrer a (sic) assistência da Defensoria Pública para autorização judicial(...). O artigo 8º, por sua vez, versa sobre o direito de acesso das pessoas maiores de idade a intervenções cirúrgicas e tratamentos hormonais visando à mudança da aparência física. O parágrafo 2° deste mesmo artigo sentencia (novamente ipsis litteris): “No caso das pessoas menores de dezoito (18) anos de idade, vigorarão os mesmos requisitos estabelecidos no artigo 5º para a obtenção do consentimento informado”.
À parte quaisquer questionamentos de ordem moral ou ética, o que é mais perturbador e revelador do caráter e das intenções dessas pessoas é a compulsão totalitária para criar meios de o estado se imiscuir de maneira cada vez mais profunda no seio da estrutura familiar, com o objetivo claro de anular a autoridade parental sobre os filhos. Primeiro a Lei da Palmada entra em vigor para punir pais que lhes apliquem castigos físicos. Agora, se reprovam seu comportamento, entra em cena a defensoria pública para assegurar que possam fazer suas “escolhas” livremente. É evidente o esforço contínuo empreendido na direção de usurpar dos pais em favor do estado o poder sobre os próprios filhos.
Devidamente “conscientizado” na escola acerca de suas infinitas potencialidades sexuais, o estudante passa a prescindir da aprovação da família para tomar uma decisão que pode mudar radicalmente os rumos de sua vida. Via escola, o estado assume o compromisso tradicionalmente familiar de formação e orientação do ser humano e, como consequência, a obediência e lealdade que os filhos outrora destinavam aos pais, passam agora ao grupo então no poder. Tal cenário é uma combinação macabra das previsões mais sombrias de George Orwell e Aldous Huxley: se o primeiro imagina uma realidade onde os pais, permanentemente acuados pela mão de ferro do governo, estão continuamente sob a vigilância dos filhos, o segundo pinta um quadro em que a sexualização precoce de crianças é condição sine qua non para a perpetuação de uma agenda ideológica no poder. Totalitarismo desabrido sob o disfarce de preocupação com a condição de pessoas sexualmente ambivalentes.
É evidente, neste caso, a articulação entre a escola educadora que, exatamente como Gramsci preconiza, atua como meio de difusão das ideias e da moral de quem tem o controle do estado (e, em consequência, da sala de aula via órgãos de regulação da educação) e um projeto de sociedade no qual a atuação do professor educador é vital. É nesse contexto que se faz necessária uma iniciativa como o PESP. Mesmo que criar mecanismos legais de fiscalização e punição do docente mal intencionado possa dar origem a novos problemas, o maior êxito da iniciativa é trazer à luz toda sorte de abusos que doutrinadores e militantes disfarçados de professores cometem diariamente na privacidade da sala de aula com os filhos alheios. Daí a importância de reconhecer na informação e na conscientização os meios mais eficazes de conter tais desmandos.
Uma nação majoritariamente conservadora, onde a moral cristã está indelevelmente arraigada no imaginário coletivo, não pode enxergar com bons olhos a diligência com que uma elite cultural desconectada da realidade das pessoas comuns procura lhe impor uma agenda que vai de encontro à maioria de suas tradições e costumes.  Por mais “liberal” que o statu quo tenha se tornado, para o brasileiro médio ainda é intolerável ver um filho servindo de massa de manobra de agitador profissional ou aceitá-lo como uma mulher no corpo de um homem, por exemplo. Por isso, toda a habilidade dos engenheiros sociais em explorar o lado ruim dessa realidade (a perseguição que homossexuais e pessoas de sexualidade ambivalente ainda sofrem) para promover seus modelos degenerados de sociedade é inócua, se divorciada da conveniência de utilizar a escola para instilar seus valores nas novas gerações (contando sempre com a omissão familiar sobre o tipo de influência a que seus filhos são expostos diariamente). Não à toa, a profusão de famílias sem estrutura, fruto do hedonismo político huxleyano que alça sexo inconsequente cada vez mais precoce, aborto e drogas à categoria de “direitos sociais”, conjugada com a onipresença de um estado paternalista que paga pessoas pobres para terem filhos e confiarem sua “educação” a escolas públicas cada vez mais aparelhadas, é condição essencial para o triunfo de qualquer projeto de poder totalitário.  Ainda assim, e mesmo no controle da quase totalidade dos centros difusores de cultura, o conservadorismo instintivo do brasileiro comum os obriga a agir nas sombras, o que torna sua exposição a forma mais efetiva de combatê-los. Apesar de suas fragilidades, essa vitória o Projeto Escola Sem Partido já pode reclamar.


sábado, 29 de outubro de 2016

Os Loucos e os Sabotadores


Um pensamento usualmente atribuído a Einstein define loucura como a insistência em fazer a mesma coisa repetidas vezes à espera de resultados diferentes. Parte da oposição à PEC 241, que trata de estabelecer um limite aos gastos do estado, poderia ser assim analisada. A outra, mais simples, tem como força motriz o velho espírito de sabotagem daqueles que só reconhecem legitimidade num governo se controlado por eles próprios ou seus cupinchas.
A espinha dorsal do projeto é a exigência que o orçamento anual dos poderes em determinado ano deva se limitar ao total das despesas do ano anterior corrigido pela inflação. Ou seja, se aprovada a propositura, o gasto máximo de 2017 deverá ser igual ao de 2016 reajustado pelo IPCA (o índice de aferição da inflação oficial do governo) dos últimos 12 meses. Às entidades que não se adequarem ao regime são vetadas, por exemplo, a realização de concursos públicos, a criação de novos cargos e a contratação de pessoal.
O carro-chefe da oposição estridente é a alegação de que os investimentos em áreas essenciais como saúde e educação seriam congelados segundo esse novo modelo de gestão das contas públicas. Levando-se em conta os aumentos sucessivos nesses setores na última década e o fato de ser proposto um reajuste anual com base apenas na inflação do ano anterior, é razoável esperar isso na prática. O que ocorre é que esses congelamentos não são exigências, mas consequências da PEC, que define regimes especiais para essas áreas: diferentemente das demais, onde se estipula um teto para as despesas, nessas duas em específico o governo prevê um mínimo a ser investido. Assim sendo, os parlamentares continuam livres para aumentar esses orçamentos como bem entenderem, a diferença é que agora eles devem indicar de onde virá esse dinheiro. Como a proposta fixa um teto geral para o conjunto das despesas do ano posterior, a única forma de fazerem isso é realocando de outras pastas em direção a elas. O que expõe, inclusive, o embuste recorrente de que a proposta é inconstitucional porque tira dos parlamentares a liberdade de definir o orçamento da União, quando na verdade só os obriga a indicar a origem dos recursos.
Se confirmada a tendência de recessão econômica prevista para os próximos anos, a realidade é que a entrada em vigor da PEC 241 (que só valeria para as áreas de saúde e educação a partir de 2018) não seria tão deletéria para essas áreas quanto se alardeia por aí. No caso da educação, os investimentos só sofrem redução relativa se houver melhora na atividade econômica. Num cenário como o atual, os repasses seriam maiores do que com a regra atual, que obriga a União a destinar 18% da receita líquida, descontadas as contribuições a estados e municípios. Para a saúde, que recebe 13,7% do que o governo arrecada, o efeito imediato é, já em 2017, um aumento de R$ 10 bilhões na receita. É a partir desses valores que os orçamentos seriam reajustados pelo IPCA a partir de 2018.
O salário mínimo, ao contrário, seria realmente afetado. De acordo com a proposta, ele seria reajustado apenas com base na inflação do ano anterior, diferentemente do que ocorre atualmente, quando é levada em conta também a variação do PIB do ano retrasado. A consequência imediata disso é a simples reposição anual do poder de compra, sem possibilidade de aumento real, acima da inflação, exatamente como proposto por Nelson Barbosa ainda no início do ano, mas, curiosamente, sem tanta gritaria. Por mais que represente a suspensão temporária de um benefício, pelo menos é assegurada a garantia contra a corrosão do valor do dinheiro. É o preço a se pagar pelas políticas econômicas que legaram ao Brasil mais de onze milhões de desempregados e a mais brutal recessão econômica em quase um século. A boa notícia é que o congelamento de salários vale para todos, motivo pelo qual o Ministério Público, que acredita que só o Executivo, o Legislativo e o Judiciário podem se submeter ao controle de gastos, ser contrário à medida.
Qualidade é melhor que quantidade. Se mesmo com os investimentos astronômicos os serviços prestados continuam sofríveis, a conclusão lógica é que o problema não é a alocação de recursos, mas a forma como estes são geridos. Se as coisas permanecem como estão, o destino da administração pública é permanecer na loucura inconsequente de repetir ad infinitum o mesmo comportamento à espera de resultados diferentes. Medidas de austeridade não têm como objetivo principal economizar, mas criar uma cultura de gasto eficiente, de modo a evitar que a administração pública se torne um buraco negro para os recursos do contribuinte. É natural que a demanda pelo estado aumente em tempos de crise, mas propor jogar mais dinheiro na areia movediça do desperdício é enxugar gelo. Se fosse essa a solução, os R$675 bilhões a mais destinados à saúde e à educação nos últimos dez anos (comparados ao que ocorreria se a PEC já estivesse em vigor no mesmo período) teriam feito alguma diferença. Mais: se para a oposição o gerenciamento dos governos do PT era melhor (tanto é que lutam pela manutenção do modelo), toda gritaria acerca de uma proposta cuja única intenção é manter o nível desses investimentos (só corrigindo-os pela inflação), só se justifica como um esforço para desgastar politicamente um governo adversário, que só é realidade, sempre é bom lembrar, graças a eles mesmos.
Depois de uma década e meia à frente da República, o PT e seus satélites voltam ao que parece ser seu estado natural. Carentes do apoio popular de outrora e desacreditados após o fracasso colossal de um modelo de gestão excessivamente estatizante, só lhes resta o papel que sempre souberam desempenhar à perfeição: a sabotagem com propósitos políticos. Depois da oposição à Constituição de 1988, ao Plano Real e à Lei de Responsabilidade Fiscal, hoje a “luta” é contra o equilíbrio orçamentário de um país cujo déficit fiscal em 2015 foi de mais de R$111 bilhões. A velha mística sentimental que já fez tanto sucesso, hoje só atrai gente cujo maior defeito só o tempo corrige: baderna, drogas e assassinato pra “protestar” pela educação em escolas estaduais, cujos recursos federais, provenientes do FUNDEB, sequer se incluem nos limites da PEC 241.



sábado, 23 de julho de 2016

O Verdadeiro Herói de Game of Thrones



Historicamente, a barbárie e a escassez são a norma na experiência humana. Em mais de seis milênios de civilização, apenas em 1215 conseguiu-se obter de um soberano o compromisso de obedecer a um compilado de normas destinadas a impedir o exercício do poder absoluto. Essa demora desde a invenção da agricultura, a consequente sedentarização da espécie e o advento das primeiras sociedades, só prova que a noção da vida humana como um valor objetivo nada mais é do que um luxo extravagante na cruenta história da humanidade.  
Produções como Game of Thrones (GOT) mostram isso muito claramente. Mesmo ambientada em tempo e lugar fictícios, a trama retrata basicamente as relações de poder numa sociedade feudal na qual o valor de uma vida depende da família a que pertence. Nada muito distante, portanto, do que vem ocorrendo na maior parte do tempo em que o homo sapiens tem reinado sobre a Terra.
Como em qualquer sociedade em qualquer época, a maioria dos protagonistas da história está sempre em busca de poder. Logo de cara fica evidente que, justamente por isso, encarnam as maiores ameaças à integridade física das pessoas comuns. Não por acaso, as personagens com mais escrúpulos do que pretensões são as que menos veem com naturalidade o caráter descartável que a vida humana assume em contextos onde impera a lei do mais forte. Não é Tyrion, o Lannister renegado, que acha que “há mortes demais nesse mundo”? Como Arya Stark aprendeu com Syrio Forel, seu mestre de dança braavosiano, só existe um deus em GOT e ele se chama morte. Em verdade, quando se trata de política, esse é o único deus que as pessoas temem. O brilhantismo da narrativa se escora exatamente em expor sem eufemismos a real essência do jogo político: em busca de poder, qualquer um é capaz de qualquer coisa.
O exemplo mais dramático disso talvez seja Stannis, irmão do meio do rei Robert Baratheon, que não hesita em matar o irmão mais novo e a própria filha em seu desespero para conseguir o Trono de Ferro. Após a morte do rei, o título de Lorde dos Sete Reinos caberia por lei a Joffrey Lannister/Baratheon, em teoria seu filho mais velho. Como Jon Arryn e Ned Stark descobrem que Robert não era pai de nenhum dos filhos da rainha, seu irmão imediatamente anterior se torna, de fato, seu verdadeiro sucessor. Investido da legitimidade que as leis de Westeros o concedem, ele faz literalmente tudo a seu alcance para exercer seu direito à coroa. Mais do que para qualquer um dos tantos reis autoproclamados, para ele os fins realmente justificam os meios. É assim que Stannis se converte a uma seita obscura e passa a ser manipulado por uma sacerdotisa que o ajuda a matar o irmão mais novo (seu rival na corrida pelo trono) e chega a convencê-lo a queimar a própria filha como oferenda ao sadismo do deus que segue. Por poder, Stannis vende a alma ao diabo e extingue a própria linhagem.
É interessante constatar que, mesmo que haja uma fé por trás das atrocidades do Lorde de Dragonstone, não é em seu nome que ele as pratica. Sua “conversão” não passa de mais um artifício empregado no afã de conseguir o Trono de Ferro, o que faz sua falta de escrúpulos guardar uma semelhança vívida com o niilismo comunista do século XX. Se é a busca pelo poder a principal razão pela qual ele queima vivos seus oponentes, o que o distingue de facínoras como Achile Lollo, assassino incendiário e fugitivo da justiça italiana ligado ao PT e ao PSOL? Ou de Cesare Battisti, outro delinquente homicida italiano queridinho da extrema-esquerda brasileira? Stannis não é um crente e nunca seria e é apenas isso que ele não tem em comum com os carniceiros estatólatras do Baader Meinhof, Brigadas Vermelhas, PAC et caterva.
A destruição “por direito” de Stannis Baratheon em busca do poder absoluto só encontra paralelo ideológico na devastação bem intencionada levada a cabo por Daenerys Targaryen com o mesmo propósito, obviamente. Última representante da lendária dinastia que governou os Sete Reinos por três séculos, Dany passa por maus bocados na trama. Tratada como moeda de troca pelo irmão também aspirante ao Trono de Ferro, é oferecida como “esposa” ao líder de uma horda bárbara em troca de seu exército. Como as “mil lâminas” que compõem o assento do soberano de Westeros, ela é forjada no fogo dos abusos e violências de que foi vítima. Diferentemente do que ocorreria se seu pai não fosse apeado do poder, a selvageria que sofre não só a torna forte e temível diante de seus inimigos (lição que Sansa Stark demora tanto a aprender) como a sensibiliza diante do sofrimento das pessoas comuns.
É exatamente aí que se revela o ponto fulcral das motivações da princesa Targaryen em sua luta pela coroa. Apesar de toda depravação de Stannis, ninguém, nem mesmo Cersei Lannister, a encarnação do mal na história, é mais capaz de impor e manter um regime tirânico do que a Breaker of Chains. As causas nobres que propagandeia lhe conferem uma aura de legitimidade que, além de fazê-la pender naturalmente ao populismo (característica indispensável a qualquer aspirante a déspota), torna toda barbaridade levada a cabo em seu nome moralmente justificada, inclusive e principalmente para ela mesma. Se ela luta contra a escravidão, por que não crucificar os antigos mestres no caminho? Eles mesmos não crucificavam seus escravos? O problema é que a fama de “Incorruptível” fica a um tropeço do Comitê de Salvação Pública e suas guilhotinas. Há diferença entre o “Kill the masters!” da Mhysa (“mãe” no baixo valiriano da Baía dos Escravos) e o “Ennemies arrêt de la révolution!” de Robespierre? É precisamente por isso que, ao julgar Petyr Baelish como o “homem mais perigoso dos Sete Reinos”, Varys comete seu mais grosseiro erro de cálculo político: Mesmo que o Littlefinger esteja disposto a reduzir tudo a cinzas para reinar, naturalmente ninguém confia nele. No caso de Daenerys, como se opor à mãe dos pobres, que libertou os escravos e tem as melhores intenções do mundo, mesmo que seu objetivo declarado seja literalmente idêntico ao do alcoviteiro que todo mundo despreza?
Nada explica melhor o grandioso ato de vandalismo ideológico que foi a derrubada da Harpia de Bronze do topo da Grande Pirâmide, logo após o cerco de Meereen. Certamente os motivos da Mother of Dragons, os mais nobres possíveis, devem ter incluído o fato de o monumento ser um símbolo do escravagismo que ela luta para abolir (como se a própria pirâmide da qual ela reina também não fosse. Mas essa, curiosamente, fica intacta). No afã aloprado de “fazer justiça” às vidas futilmente ceifadas para levar a cabo o empreendimento, ela termina por insultar a memória dos escravos mortos, indelevelmente marcada em cada centímetro cúbico da estátua, ao pô-la abaixo e decretar que seu sofrimento será esquecido e suas vidas terão sido em vão. Hoje em dia Daenerys seria facilmente um dos agitadores oportunistas por trás dos tantos idiotas a gritar pela extinção da bandeira confederada e clamar por safe zones em universidades nos EUA ou a invadir e depredar escolas e exigir “passe livre” no Brasil. Sua loucura iconoclasta (quem herda não furta, afinal) não é nada mais do que um remake das destruições jacobinas e soviéticas de igrejas ou da fúria alucinada do Daesh e do Talibã, mandando pelos ares as ruínas de Palmira e os Budas de Bamiyan. No fundo a intenção é chocar, demonstrar força e enaltecer uma ideologia. Qualquer que seja.
Se o grau das pretensões políticas de um personagem é inversamente proporcional a sua predisposição à destruição e a seu nível de tolerância a atrocidades, ninguém encarna melhor esse axioma do que Varys. Escravo órfão vendido a um feiticeiro que o castra e abandona pra morrer, The Spider aprende cedo que, exceto para uma minoria de afortunados, o sofrimento é a regra da vida. Forçado a aceitar todo tipo de degradação para sobreviver, provação atrás de provação o eunuco se torna um ladrão habilidoso e enriquece. Contra todas as possibilidades, galga os degraus que um dia o levariam ao Pequeno Conselho (o staff de conselheiros do rei) como Mestre dos Sussurros, uma espécie de chefe de inteligência do reino.
Por testemunhar in loco e em tempo real as consequências das revoluções e das utopias políticas para as pessoas comuns, Varys é naturalmente refratário a salvadores e conquistadores. “Sempre odiei os sinos. Eles soam pelo horror. Um rei morto, a cidade sob cerco”, pondera pouco antes da Batalha de BlackWater. Seu ceticismo em relação à lealdade feudal tão valorizada em Westeros explica o menosprezo com que é tratado pelos lordes arrogantes sedentos por poder. Quando confrontado por Ned Stark sobre a quem serve ele responde: “ao reino, meu senhor. Alguém tem que fazer isso”. Mesmo ciente de todas as imperfeições e contradições da sociedade que luta para conservar, Varys entende que nenhum “progresso” que os transformadores prometam compensa todo o sofrimento que vem a tiracolo. Como Daenerys mesmo diz, Lannister, Stark, Targaryen, Baratheon, Tyrell, Martel e Arryn são apenas nomes numa roda que destrói tudo por onde passa em seu furor descontrolado farejando poder. Como não se pode quebrá-la, como anseia a Silver Queen em seus delírios de “outro mundo possível”, o Master of Whisperers se esforça para fazer o que é realmente factível: pará-la.
Só assim é possível entender sua recusa em ajudar Ned Stark a escapar da prisão e se juntar ao filho, impulsionando uma rebelião com potencial para destruir o reino. Não é por odiar Petyr Baelish que ele, juntamente com Olenna Tyrell, frustra seus planos de casar com Sansa Stark e assumir o Norte. É por enxergar na obsessão por poder e na falta de escrúpulos do Littlefinger razões mais do que suficientes para impedi-lo de ter meios de pôr o reino abaixo no intuito de se tornar o senhor dos escombros. Se ele se nega a tomar partido de Tyrion num julgamento manipulado por Cersei, ele o faz pela mesma razão que o leva a ajudá-lo a escapar pouco antes de sua execução: por reconhecer nele tanto o intelecto brilhante por trás da defesa de King’s Landing contra a devastação a bordo da esquadra de Stannis, como uma força prudente a ser empregada no esforço de manutenção de tudo de valor que está continuamente sob ameaça numa sociedade onde a “honra” tem mais valor que a vida. Como todo conservador, The Spider entende a importância da prudência e sabe que toda mudança brusca e impensada, por mais “bem intencionada” que seja, representa mais um risco à existência de tudo de valioso que foi arduamente conquistado pela civilização do que uma oportunidade de criar um paraíso na Terra num passe de mágica.
A análise das histórias de Stannis, Daenerys e Varys dá a medida das razões pelas quais seus pontos de vista em relação à política e ao poder são tão mutuamente divergentes.
 Um lorde orgulhoso, que sempre viveu à sombra do irmão mais velho, (que, como se não bastasse ser o primogênito num status quo extremamente patriarcal, ainda derrota uma dinastia de três séculos e se torna rei) numa sociedade que exalta conquistadores em detrimento de diplomatas, só poderia mesmo se tornar um psicopata obcecado por títulos e poder.
Uma princesa de nome antigo que leva uma vida de nababo até ser obrigada a fugir e viver de favor. Vendida como um animal de reprodução pelo próprio irmão, submetida às violências mais brutais e obrigada a descer de sua torre de marfim e encarar a realidade dura, fria e seca da maioria esmagadora das pessoas comuns, que faz festa sempre que consegue comer três vezes ao dia. Diante de tudo isso, nada mais natural que alguém jovem, verdadeiramente benevolente e, acima de tudo, impulsivo, comece a achar que vai salvar a humanidade na base da força, munido apenas das melhores intenções do mundo, pondo em risco tudo de valioso que já existe e, principalmente, ignorando que avanços civilizacionais não são mais que meros desvios da norma sangrenta que dita as relações de poder entre os homens através da história.
Já um eunuco sem linhagem nem o dom da violência, que chega a uma posição de destaque unicamente por sua sagacidade e disposição para o trabalho, tem todos os motivos do mundo para lutar pela manutenção de uma ordem que, bem ou mal, o permite sair da miséria e escrever uma nova história. Num status quo onde impera a lei da selva e que só reconhece indivíduos sem sobrenome se tiverem utilidade prática, a tendência à selvageria é, naturalmente, o ativo mais imediato. Por isso, brutamontes como os irmãos Clegane, Bronn ou Daario Naharis terão a mesma importância em Pyke, Vaes Dothraki ou em qualquer lugar onde haja alguém disposto a pagar por sangue. Gente como Varys, por outro lado, só pode prosperar onde há civilização. Se a tendência da humanidade à selvageria é algo tão inexorável quanto o instinto de auto preservação, nada mais natural que a inclinação a preservar o que a tanto custo foi conquistado (e que se evapora facilmente diante da primeira convulsão social) seja o combustível a mover o Master of Whisperers.
Quando recriminado pelo Lorde de Winterfell por se manter em silêncio diante do assassinato de seus servos por Joffrey e Cersei, Varys simplesmente responde: “E o faria outra vez, meu senhor. (...) Quando olha para mim você vê um herói?”. Mesmo que não o seja diante dos critérios pervertidos de Westeros ele, exatamente como Tyrion clamou durante seu julgamento, é o salvador anônimo de todas as vidas sem sobrenome nem importância que se perdem sem que ninguém se dê conta da existência nas infindáveis disputas entre os lordes sanguinários dos Sete Reinos. Herói é uma figura arquetípica que reúne em si os atributos necessários para superar de forma excepcional um determinado problema de dimensão épica. Num contexto onde direitos humanos não são mais que um delírio de algum idealista desacreditado, há causa mais homérica a defender do que a vida daqueles sem nome que não passam de massa de manobra nas mãos dos que empunham o gládio? Como sabiamente asseverou Sandor Clegane, tolos honrados como Ned Stark, gênios assassinos como Tywin Lannister, jogadores sem escrúpulos como Petyr Baelish ou demagogos sanguinários "bem intencionados" como Daenerys Targaryen não passam, todos, de assassinos. Os verdadeiros heróis não empunham espadas. Eles cuidam para que sejam usadas apenas em último caso.

domingo, 12 de junho de 2016

A Educação em Estágio Crítico



Em 2014, 43 manifestantes foram brutalmente assassinados por uma gangue de narcotraficantes em Iguala, no México.  O crime, ordenado pelo prefeito da cidade na tentativa de impedi-los de sabotar um evento público promovido pela primeira-dama, horrorizou o mundo devido aos requintes de crueldade empregados. Consta-se que as vítimas foram amontoadas em três veículos (15 morreram de asfixia durante o trajeto) e levadas a um depósito de lixo no município de Cocula, onde foram executadas e tiveram seus corpos carbonizados.
Proveniente do município de Ayotzinapa, o grupo era formado por alunos da escola rural Raúl Isidro Burgos, famoso centro formador de militantes socialistas, de onde saíram, inclusive, notórios guerrilheiros mexicanos como Lucio Cabañas. Adeptos de táticas radicais, os estudantes se encontravam em posse de alguns ônibus tomados à força (prática comum em suas mobilizações) quando foram detidos pela polícia e entregues aos narcotraficantes da facção Guerreros Unidos, ligada à esposa do então prefeito. 
É em tragédias dessa magnitude que mais claramente salta aos olhos o destrutivo poder de influência das ideologias radicais sobre mentes ingênuas, materializado na frieza com que esses jovens foram cruelmente convertidos em massa de manobra e, como ovelhas, enviados ao matadouro. Manipulados em sua inocência, foram impelidos à estupidez de enfrentar políticos corruptos ligados a brutais gangues de narcotraficantes. Pagaram com a vida por isso. Tal qual centenas de jovens brasileiros durante o regime militar, foram vítimas do aliciamento ideológico de agitadores experientes e impiedosamente jogados aos lobos por criminosos que se escondem por trás de teorias fantasiosas e que raramente têm coragem de assumir a linha de frente da luta que tanto pregam. Não à toa, ninguém tinha mais que 21 anos no grupo. Seus professores-doutrinadores continuam, em sua covardia revolucionária, a seduzir impunemente mais idiotas influenciáveis.
Instrumentalizar a pobreza no intuito de formar massa de manobra de sindicato partidarizado e movimento “social” para viver de exigir do estado. Eis a real função das ideias socialistas em locais como Ayotzinapa, onde a crença cega no governo como um Deus ex machina é, no fundo, a causa principal da maioria dos problemas. Transferir para um ente distante e indiferente a responsabilidade pelas vidas das pessoas é a maneira mais eficaz de mantê-las dependentes e assim perpetuar a pobreza e o atraso. No fundo, toda iniciativa de redistribuição é um meio de administrar as necessidades dos pobres em favor dos interesses de uma elite política.
Mensagens messiânicas tendem a ganhar relevância em cenários onde o desespero é a norma. É diante do medo e da completa falta de perspectivas que os discursos místicos parecem ser a única saída possível. Se até o século XIX as religiões detinham o monopólio da narrativa da salvação e prometiam num paraíso post mortem o fim do sofrimento terreno, a mística política dos próximos cem anos traria as soluções do céu para um futuro que nunca chega. Ficaria a cargo dos portadores da boa nova secular a catequização política dos gentios.
Assim se notabilizam os pensadores cujas ideias ocasionam diariamente os Igualas e os Eldorados dos Carajás que passam despercebidos nos rincões mais pobres e afastados do mundo. No Brasil não poderia ser diferente. Paulo Freire, cuja maior contribuição à educação do país foi converter o projeto pedagógico oficial de jovens e adultos num manual de proselitismo marxista, é considerado o patrono nacional da educação. Boa parte de sua retórica se baseia em censurar como mera imposição burguesa o caráter tecnicista, “bancário”, da educação convencional, voltada a capacitar para o trabalho. Em vez dela, idealiza os professores não como agentes de criação de população economicamente ativa, mas como formadores de “consciência crítica”, projetando assim a escola como centro formador de “cidadãos”.
A dita “preocupação social” do modelo pedagógico oficial do “progressismo” brasileiro não demora a trair seu teor totalitário orwelliano ao pregar a apropriação governamental da função estritamente parental de formar cidadãos. Tutto nello stato. Astutamente identificando a autoridade familiar como o último bastião da sociedade contra a tirania do estado, a pedagogia do oprimido parece se mover no sentido de contornar esse obstáculo através da apropriação ideológica das crianças via educação estatal. Tal qual na opus magnum de Orwell, as crianças, antes sob tutela da família, passam a ser propriedade do estado.
  Em situações de estabilidade social (a norma), onde o enriquecimento da humanidade nos últimos 200 anos promoveu uma generalização do conforto e da prosperidade sem precedentes na história documentada, o principal efeito da pedagogia crítica de Freire é alçar as birras infantis de uma geração imbecilizada de mimados desocupados à condição de causas políticas, facilitando assim sua cooptação por partidos anacrônicos, que de outra forma já teriam caído no ostracismo.
Já numa comunidade como Ayotzinapa, onde uma população entregue à própria sorte se vê diariamente sem qualquer perspectiva de prosperidade, rejeitar um modelo educacional voltado primordialmente a habilitar as pessoas a gerar riqueza, nada mais é do que um esforço evidente no sentido de mantê-las pobres e necessitadas, com a finalidade precípua de fazer uso político de sua condição. O único compromisso de um projeto “pedagógico” dessa estirpe é com o cultivo ideológico de infantaria revolucionária. Como consequência imediata, a população mais necessitada, naturalmente suscetível a esse tipo de demagogia e carente de qualquer proteção estatal, é impiedosamente jogada contra o poder esmagador dos senhores da guerra locais e sistematicamente exterminada sem cerimônia.
No Brasil, a natureza das recentes invasões de escolas estaduais em São Paulo é idêntica à das manifestações dos estudantes do colégio Raúl Isidro Burgos. Exatamente como seus similares mexicanos, os invasores são jovens em idade estudantil manipulados por agitadores profissionais de partidos obscuros, especialistas em aproveitar reivindicações justas para semear a desordem. Em que pese o fato de serem realmente alunos dos colégios que invadem (à revelia da maioria, diga-se), as evidências escancaram o óbvio: mesmo tentando passar a impressão de espontaneidade, horizontalidade e independência, os estudantes atuam sob coordenação de agremiações esquerdistas. E isso é mais claro ainda ao se constatar o caráter unicamente partidário das motivações, refletido na ausência de invasões nos 103 colégios municipais sem merenda, esses sob administração de um prefeito petista. Comportamento, aliás, idêntico ao da UNE quando do último corte de mais de R$ 10 bilhões do orçamento do MEC pelo governo federal.
A postura conivente e a bajulação bovina de setores midiáticos “progressistas” em relação aos atos de vandalismo coletivo de marionetes de partidos políticos em São Paulo originou o mais recente fenômeno de glamourização do quebra-quebra desde os pandemônios de 2013. Aliado ao prestígio praticamente incontestável das ideias de Paulo Freire e seus comparsas no establishment “intelectual” brasileiro, esse incentivo tácito à baderna ideológica como método de reivindicação é mais do que suficiente para esclarecer as causas das veias abertas da América Latina. Avaliar o fracasso educacional dessas pobres nações tão longe de Mises e tão perto de Marx sem levar em conta a influência perniciosa de uma visão de mundo renitente em enxergar pobres como massa de manobra de revolução em pleno século XXI, é fechar os olhos para os milagres que a educação livre de ideologia tem operado mundo afora. Em meio século a Coréia do Sul emergiu das ruínas de uma guerra fratricida que causou a destruição de 25% de seus recursos naturais e a morte de 5% de sua população civil para a vanguarda tecnológica mundial. Hoje, enquanto os jovens pobres do Tigre Asiático estudam para criar aplicativos de celular, os brasileiros aprendem como parar avenidas e depredar patrimônio público e os mexicanos são instruídos na nobre arte de tomar ônibus à força e morrer nas mãos de traficantes. 

sábado, 9 de abril de 2016

A Geração Que Não Se Importa


A maior tragédia da condição humana é o fato de o sexo ser o meio natural de reprodução da espécie. A realidade de algo tão sério e complexo como gerar uma vida humana ser resultado de uma atividade divertida, prazerosa (alguns diriam até necessidade fisiológica) e de acesso universal é a raiz de grande parte dos males que assolam a humanidade. É precisamente porque todos podem ter filhos que existe tráfico e exploração sexual de crianças na Ásia e no Leste Europeu, que muitas delas são drogadas e usadas como escudos nas intermináveis guerras tribais da África e que se vê tantas delas sendo ao mesmo tempo vítimas e algozes na espiral caótica de violência que tomou conta dos grandes centros urbanos da América Latina.
Se cada pessoa que pensasse em trazer crianças para esse mundo em pedaços tivesse consciência das implicações morais e filosóficas de uma empreitada dessa magnitude, certamente a população da Terra seria bem menor. Sem sombra de dúvida, haveria bem menos pobreza, violência e sofrimento. O problema é que a esmagadora maioria da humanidade é estúpida, fútil e inconsequente. Pouca gente avalia se realmente tem condições materiais, psicológicas e, acima de tudo, morais de assumir o compromisso de toda uma vida de guiar, alimentar e educar um ser humano num mundo cada vez mais insalubre, onde a fronteira que separa o errado do certo é ferida de morte a cada dia.
Se a estupidez de uma maioria que procria como gado, sem se importar com as consequências de trazer uma pessoa de qualquer jeito ao mundo, já é digna de um profundo desdém, muito pior é a arrogância de uma minoria organizada, que se pretende senhora da vida e da morte, e que se acha no direito de decidir se uma pessoa deve ou não nascer.
            À exceção de casos extremos, como vítimas de violência sexual e mulheres cuja vida se encontra ameaçada em razão do parto, pensar em aborto num mundo com uma oferta enlouquecedora de métodos contraceptivos de todas as formas e variedades não é menos que defender abertamente o hedonismo desmesurado de quem categoricamente se recusa a ter um mínimo de responsabilidade na vida. Camisinha, pílulas, injeções, implantes anticoncepcionais, adesivos cutâneos, dispositivos intra-uterinos, laqueadura, vasectomia, diafragmas, esponjas vaginais, espermicidas, pílulas do dia seguinte... há inclusive métodos a ser utilizados depois da relação sexual sem proteção!  Mesmo que o aborto fizesse algum sentido em regiões onde teoricamente as pessoas não teriam acesso a meios de evitar a gravidez (muito apesar da abrangência universal e da natureza democrática da camisinha), defender a cureta nas sociedades infantilizadas pelo estado de bem estar social ocidental, onde a contracepção já foi alçada à condição de “direito social”, é o cúmulo do absurdo.
            Um levantamento realizado em Campinas-SP apontou que uma em cada duas gestantes adolescentes, apesar de possuírem bom nível de conhecimento sobre métodos contraceptivos, não utilizaram qualquer deles na primeira relação sexual. Dentre os nobres motivos que as levaram a assumir essa postura muito responsável: a) não pensaram nisso na hora, b) não queriam usar, c) achavam caro (sic!) ou inconveniente e, por fim, não se importavam em ficar grávidas. Mesmo que as três primeiras razões sejam mais do que suficientes para se ter uma noção clara do tipo de mentalidade que a cultura do “direito a tudo” ocidental está criando, é a frivolidade esquizofrênica de ignorar solenemente as implicações diretas do ato de gerar uma vida humana o que dá a medida exata do tipo de  problema que a noção do aborto como direito social só amplifica.
            Cadelas, vacas, éguas e macacas, por definição, não se importam em engravidar. Bem como as demais fêmeas do reino animal, com a cada vez mais rara exceção da espécie humana, elas não são capazes de juízos de valor e não reconhecem qualquer impedimento para procriar quando os hormônios ordenam. Até recentemente, era a preocupação com as condições sob as quais a cria vem ao mundo e a escolha consciente de não conceber quando estas são desfavoráveis, o que distinguia as primeiras da última e isso, inclusive, era visto como algo a se preservar. A tendência atual, no entanto, é que esse ponto de vista seja cada vez mais ignorado e, como consequência imediata, as políticas de planejamento familiar, antes voltadas a impedir que duas células reprodutivas se encontrassem no útero errado, agora se focam em transferir responsabilidades de gente sem noção de limites para gente que ainda nem nasceu.
Dentre os inúmeros desserviços que o establishment cultural autodenominado progressista presta ao Ocidente, talvez o maior deles seja sua disposição em alçar qualquer demanda humana à condição de “direito”. Em se tratando de sexo, isso é particularmente pernicioso. À parte qualquer consideração de ordem moral, enxergá-lo como algo que deve estar ao alcance de todos, independente da capacidade de cada um de arcar com as consequências dos próprios atos, é simplesmente leviano, afinal sexo é coisa para adultos e infelizmente, na espécie humana, maturidade biológica raramente implica em sensatez e prudência. É exatamente essa a raiz ideológica do comportamento subumano dessa geração que não se importa em engravidar. A defesa do aborto nesse contexto, onde um governo grátis huxleyano garante a qualquer cabeça oca com hormônios em ebulição acesso livre a todo tipo de método contraceptivo, nada mais é do que um salvo-conduto para que essas pessoas abandonem o que lhes resta de civilização e passem a agir como animais.
Hoje em dia é fácil entender o escândalo da maioria das pessoas ao analisar a história da humanidade e constatar a normalidade com que sociedades primitivas encaravam todo tipo de tratamento desumano dispensado a determinados grupos minoritários. Desde a insanidade asteca, que os fazia promover verdadeiros genocídios no intuito de agradar seus deuses e assegurar a próxima colheita, ao universalismo e a inevitabilidade econômica da escravidão humana antes da Revolução Industrial, é vasto o leque de atrocidades que já foram socialmente aceitáveis na história humana. A questão é que, mesmo sendo motivo de vergonha, pelo menos houve razão para muitas delas, seja o medo animal da fome que converte sacrifícios humanos em massa em mera formalidade religiosa, seja a realidade pré-industrial, onde a escravidão era o único meio de produção em larga escala. Se o destino da humanidade realmente é o progresso, as gerações posteriores vão olhar do futuro para essa época estranha, na qual o valor da vida humana varia em função de seu estágio embrionário, da mesma forma como hoje olhamos para sociedades que abatiam seres humanos como gado para agradecer pelo nascer do sol.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O Fim da Dancing Queen


A olhos leigos, nada nos últimos cem anos distinguiu melhor a Suécia do bloco de gelo, prosperidade e assistencialismo conhecido como Escandinávia do que a música pop. Dentre os países nórdicos, nenhum deu maior contribuição à era de ouro da música popular ocidental. Mesmo que os noruegueses do A-Ha e os dinamarqueses do Mercyful Fate tenham conseguido alguma projeção, nada se comparou ao fenômeno das duas maiores e mais conhecidas bandas de Estocolmo. O Europe ficou mundialmente conhecido em 1986 com The Final Countdown, cuja faixa título os fez atingir um patamar nunca mais alcançado. O ABBA, por sua vez, é simplesmente o grupo mais bem sucedido do catálogo da gigante Universal Music Group. 
Mais do que uma dentre tantas bandas que depois de um breve auge raramente é lembrada, o ABBA se tornou um ícone da Suécia. Suas letras leves e melodias cativantes o tornaram o símbolo de uma época. Tratar da história da cultura ocidental nos anos 70 sem mencionar a influência dos suecos é como passar pela história britânica e ignorar Oliver Cromwell ou Henrique VIII. 
 Dentre os sucessos da banda, Dancing Queen é um dos mais emblemáticos. À primeira vista, a história de uma garota de 17 anos que sai numa sexta à noite para dançar pode parecer literal e sem qualquer pretensão, mas o contexto político mundial no qual a canção foi lançada dota sua leveza e simplicidade de uma carga de significado que poucas músicas escritas com propósitos políticos conseguem transmitir.
É impressionante pensar como, em 1976, menos de 4500 km separavam a prosperidade e as liberdades sócio-políticas suecas da tirania, do desespero e da escassez que eram regra do outro lado da Cortina de Ferro. Três anos depois, uma revolução muçulmana no Irã iria acabar com os últimos resquícios de liberdade e modernidade que o Xá tinha tentado implementar, tornando institucional a opressão cultural muçulmana sobre as mulheres. As condições materiais, culturais e sociais que inspiraram Benny Andersson e Björn Ulvaeus a escrever sobre algo tão trivial no Ocidente como a liberdade de uma garota dançar sozinha em público sem se preocupar com a próxima refeição (como acontecia a tantas garotas na URSS) ou sem temer ser açoitada em praça pública (como ainda hoje é regra no Irã) é o que confere à música uma essência que não pode ser ignorada: Dancing Queen é, no fundo, uma ode à Civilização.
Em pleno século XXI a maioria das mulheres do mundo ainda é tratada como bem material de seus pais, irmãos ou maridos. São negociadas como gado no mundo islâmico, sofrem mutilação genital em tribos subsaarianas, são sistematicamente estupradas sob conivência cultural na Índia e são intencionalmente abortadas, só por serem mulheres, em regiões atrasadas da China. Em qualquer desses contextos, uma música como Dancing Queen não poderia ser interpretada como menos que uma expressão de cinismo sádico. Por mais absurdo que possa parecer, a idéia de que uma mulher possa ter autonomia para fazer o que quer que seja sem permissão de um homem não é um valor universal e não foi do dia para noite que isso se tornou regra no Ocidente.
O mainstream cultural da Suécia multiculturalista de hoje não só ignora esses fatos como, ao abusar de uma postura ideologicamente complacente com condutas criminosas de imigrantes muçulmanos, ameaça o legado eternizado na canção do ABBA. Por mais que autoridades governamentais e setores midiáticos "progressistas" empreendam um esforço hercúleo em negar, os efeitos colaterais da invasão muçulmana já se fazem presentes no país escandinavo: a elevada taxa de fecundidade dos imigrantes, sua relutância em aceitar a cultura anfitriã, sua tendência a não se integrar, agrupando-se em guetos que na prática são pequenos califados dentro das cidades. Tudo isso, aliado às baixas taxas de natalidade dos suecos étnicos, tem contribuído para converter o país em não mais que uma extensão do mundo islâmico. Os problemas decorrentes dessa realidade não poderiam ser mais evidentes.
Desde 1975, quando as autoridades suecas passaram a adotar a política imigratória mais relaxada da Europa, as taxas de crimes violentos sofreram um aumento de 300%. O crescente número de jovens suecos que decidem se juntar ao Daesh dá a medida de como a cultura secular do país está sendo sobrepujada pelo vigor expansionista islâmico. O aumento de mais de 1400% nos casos de estupro desde meados da década de 1970 reflete um traço cultural característico de civilizações que enxergam as mulheres como inferiores aos homens: em sociedades muçulmanas é natural que se veja o estupro como uma forma de punição aplicável a mulheres que se recusam a acatar as imposições sociais da sharia. Há inclusive um termo em árabe cunhado exclusivamente para se referir a estupros coletivos: taharrush. Os recentes casos reportados na noite de ano novo nas cidades alemãs de Hamburgo e Colônia, não são, como se vê, obras do acaso.  
Nada, no entanto, é mais preocupante do que a atitude das autoridades suecas diante desse panorama. Mais preocupados com suas convicções ideológicas do que com a segurança da população e a sobrevivência da própria civilização, os líderes suecos parecem perdidos em constatar o quão distante da realidade estão suas crenças. Desde encobrir violações de imigrantes e candidatos a asilo para não legitimar adversários políticos a argumentar que o aumento do número de estupros se deve mais à rigidez da legislação do que ao aumento irrefreado do número de imigrantes árabes e norte africanos, fugir da realidade parece ser a forma que os "progressistas" europeus encontraram de tratar esses problemas. Tal esforço coletivo de ilusionismo ideológico encontra eco no pensamento delinquente de gente como Margot Wallstrom, atual ministra de relações exteriores da Suécia. Ao associar (ou pelo menos tentar) o aumento do número de jovens suecos que aderem ao Daesh à postura de Israel na guerra que trava contra o Hamas e outras organizações terroristas na Palestina, Wallstrom, cega por seu ressentimento ideológico, demonstra não passar de uma militante enraivecida, muito aquém da altura do cargo que ocupa.
O establishment "progressista" sueco vive se gabando da neutralidade do país nas duas guerras mundiais do século XX.  Além de ostentar a recusa covarde em enfrentar o nacional socialismo (inclusive colaborando com a barbárie sempre que possível), parecem também padecer do complexo de culpa ideológica pelo imperialismo do século XIX que acomete seus pares da Europa Ocidental: mesmo sem ter tomado parte no processo de partilha da África e da Ásia que precedeu a guerra de 1914-18, escancaram suas portas indiscriminadamente e tratam com conivência os modos bárbaros de imigrantes por enxergarem na prosperidade que desfrutam a causa do caos que os obrigou a emigrar.
No admirável mundo novo que a esquerda européia vislumbra, a Dancing Queen “can`t dance, can`t jive having the time of your life”. Está presa num hijab e tem medo de sair de casa desacompanhada para dançar na sexta à noite.

sábado, 9 de janeiro de 2016

A Involução Hi-Tech


Depois do instinto de autopreservação, o mais forte impulso que move o macho no reino animalia é o afã de se reproduzir. É a irresistível obrigação biológica de passar seus genes adiante a origem dos espetáculos bizarros e curiosos que os machos proporcionam na hora de cortejar e se oferecer para as fêmeas. Desde macho da foca-de-crista, que infla sua cavidade nasal até que se pareça com um balão gigante, ao macho da viúva negra, que corre o risco de ser devorado vivo pela fêmea ao se aproximar dela, é enlouquecedora a variedade de comportamentos estapafúrdios aos quais os animais se submetem em nome da perpetuação da espécie.
O macho humano carrega a particularidade de ser o único representante do reino que introduz os componentes moral e racional na equação da reprodução. Em tese, deveria dispor de meios menos animalescos para cortejar a fêmea da espécie. A observação empírica, no entanto, atesta sua prolífica capacidade de exibir comportamentos que fariam o ritual de acasalamento do macaco bonobo se confundir com uma exibição de O Lago dos Cisnes pela Academia de Balé Bolshoi.
Mesmo que naturalmente seja um retardado completo e nutra uma paixão bovina por toda sorte de imundície que atravesse o vácuo entre seus ouvidos, é quando tenta chamar a atenção da fêmea que o macho humano médio se supera em sua estupidez. Ignorando qualquer senso de prudência e ridículo, é bastante comum que, traído pela tirania insuperável da testosterona, se veja constantemente agindo como um macaco de circo, aderindo a comportamentos autodestrutivos ou se fazendo de palhaço na tentativa de cair nas graças de alguma fêmea (geralmente com QI de ameba igual ao dele). De tão aterradora realidade, nem Aristóteles escapou.
No esforço heróico de ser bem sucedido na correria darwinista sócio-sexual, agir como um idiota parece ser pré-requisito fundamental. Por isso mesmo, é bastante comum a visão de animais se vestindo e se portando como araras no cio ou de neandertais gastando o que não têm numa única noite, a movimentar toda uma indústria que lucra em cima da infinita potencialidade do homem comum de ser feito de otário.
Mesmo a tecnologia, que como a filosofia é o que melhor distingue a espécie da selvageria de todas as outras do reino animal, endossa o panorama de burrice e mediocridade que reafirma a condição animalesca do ser humano médio. O que sempre foi um monumento à capacidade humana de se elevar sobre as outras espécies se tornou um meio de rebaixá-la à grosseria elementar das mais simples criaturas, ao ser convertida em mera coadjuvante num grotesco ritual de acasalamento moderno. Como o coala macho, que rejeita sua habitual natureza pacata e passa horas seguidas gritando freneticamente, a besta humana média utiliza a tecnologia para chamar a atenção da fêmea da espécie fazendo o máximo de barulho possível.
 Que motivação, afinal, levaria um chimpanzé a chegar com um amplificador de som que vale mais que sua própria vida e despejar o inferno sobre quem está próximo, senão a necessidade neolítica de atrair a fêmea da forma mais primitiva? Alguém (ou algo) que não significa absolutamente nada por si só, tão incompetente em chamar atenção pelo que é que precisa apelar para a violência elementar. Não à toa Schopenhauer sentenciou que quanto menos ruído alguém suporta sem se incomodar, maior seu grau de civilização. O que seria isso senão a sublimação de um paradoxo colossal? A técnica, um dos mais nobres produtos do intelecto humano, que durante toda a história possibilitou ao homem controlar seu ambiente e se destacar dentre todas as outras criaturas, se torna uma ferramenta de involução, um link permanente com o passado troglodita da humanidade, uma barreira hi-tech erguida entre o homem e a civilização.
Não que a maioria tenha no passado sido muito melhor do que é hoje. Se não fosse por uma minoria de bravos que desde sempre carregou a humanidade nas costas, certamente ainda estaríamos em cavernas comendo insetos. A questão é que, como dizia Nelson Rodrigues, se desde sempre o silêncio foi dos imbecis, hoje a tecnologia criou meios de perceberem sua onipotência numérica e de exibir sua idiotice em voz alta, no volume máximo.