sábado, 9 de abril de 2016

A Geração Que Não Se Importa


A maior tragédia da condição humana é o fato de o sexo ser o meio natural de reprodução da espécie. A realidade de algo tão sério e complexo como gerar uma vida humana ser resultado de uma atividade divertida, prazerosa (alguns diriam até necessidade fisiológica) e de acesso universal é a raiz de grande parte dos males que assolam a humanidade. É precisamente porque todos podem ter filhos que existe tráfico e exploração sexual de crianças na Ásia e no Leste Europeu, que muitas delas são drogadas e usadas como escudos nas intermináveis guerras tribais da África e que se vê tantas delas sendo ao mesmo tempo vítimas e algozes na espiral caótica de violência que tomou conta dos grandes centros urbanos da América Latina.
Se cada pessoa que pensasse em trazer crianças para esse mundo em pedaços tivesse consciência das implicações morais e filosóficas de uma empreitada dessa magnitude, certamente a população da Terra seria bem menor. Sem sombra de dúvida, haveria bem menos pobreza, violência e sofrimento. O problema é que a esmagadora maioria da humanidade é estúpida, fútil e inconsequente. Pouca gente avalia se realmente tem condições materiais, psicológicas e, acima de tudo, morais de assumir o compromisso de toda uma vida de guiar, alimentar e educar um ser humano num mundo cada vez mais insalubre, onde a fronteira que separa o errado do certo é ferida de morte a cada dia.
Se a estupidez de uma maioria que procria como gado, sem se importar com as consequências de trazer uma pessoa de qualquer jeito ao mundo, já é digna de um profundo desdém, muito pior é a arrogância de uma minoria organizada, que se pretende senhora da vida e da morte, e que se acha no direito de decidir se uma pessoa deve ou não nascer.
            À exceção de casos extremos, como vítimas de violência sexual e mulheres cuja vida se encontra ameaçada em razão do parto, pensar em aborto num mundo com uma oferta enlouquecedora de métodos contraceptivos de todas as formas e variedades não é menos que defender abertamente o hedonismo desmesurado de quem categoricamente se recusa a ter um mínimo de responsabilidade na vida. Camisinha, pílulas, injeções, implantes anticoncepcionais, adesivos cutâneos, dispositivos intra-uterinos, laqueadura, vasectomia, diafragmas, esponjas vaginais, espermicidas, pílulas do dia seguinte... há inclusive métodos a ser utilizados depois da relação sexual sem proteção!  Mesmo que o aborto fizesse algum sentido em regiões onde teoricamente as pessoas não teriam acesso a meios de evitar a gravidez (muito apesar da abrangência universal e da natureza democrática da camisinha), defender a cureta nas sociedades infantilizadas pelo estado de bem estar social ocidental, onde a contracepção já foi alçada à condição de “direito social”, é o cúmulo do absurdo.
            Um levantamento realizado em Campinas-SP apontou que uma em cada duas gestantes adolescentes, apesar de possuírem bom nível de conhecimento sobre métodos contraceptivos, não utilizaram qualquer deles na primeira relação sexual. Dentre os nobres motivos que as levaram a assumir essa postura muito responsável: a) não pensaram nisso na hora, b) não queriam usar, c) achavam caro (sic!) ou inconveniente e, por fim, não se importavam em ficar grávidas. Mesmo que as três primeiras razões sejam mais do que suficientes para se ter uma noção clara do tipo de mentalidade que a cultura do “direito a tudo” ocidental está criando, é a frivolidade esquizofrênica de ignorar solenemente as implicações diretas do ato de gerar uma vida humana o que dá a medida exata do tipo de  problema que a noção do aborto como direito social só amplifica.
            Cadelas, vacas, éguas e macacas, por definição, não se importam em engravidar. Bem como as demais fêmeas do reino animal, com a cada vez mais rara exceção da espécie humana, elas não são capazes de juízos de valor e não reconhecem qualquer impedimento para procriar quando os hormônios ordenam. Até recentemente, era a preocupação com as condições sob as quais a cria vem ao mundo e a escolha consciente de não conceber quando estas são desfavoráveis, o que distinguia as primeiras da última e isso, inclusive, era visto como algo a se preservar. A tendência atual, no entanto, é que esse ponto de vista seja cada vez mais ignorado e, como consequência imediata, as políticas de planejamento familiar, antes voltadas a impedir que duas células reprodutivas se encontrassem no útero errado, agora se focam em transferir responsabilidades de gente sem noção de limites para gente que ainda nem nasceu.
Dentre os inúmeros desserviços que o establishment cultural autodenominado progressista presta ao Ocidente, talvez o maior deles seja sua disposição em alçar qualquer demanda humana à condição de “direito”. Em se tratando de sexo, isso é particularmente pernicioso. À parte qualquer consideração de ordem moral, enxergá-lo como algo que deve estar ao alcance de todos, independente da capacidade de cada um de arcar com as consequências dos próprios atos, é simplesmente leviano, afinal sexo é coisa para adultos e infelizmente, na espécie humana, maturidade biológica raramente implica em sensatez e prudência. É exatamente essa a raiz ideológica do comportamento subumano dessa geração que não se importa em engravidar. A defesa do aborto nesse contexto, onde um governo grátis huxleyano garante a qualquer cabeça oca com hormônios em ebulição acesso livre a todo tipo de método contraceptivo, nada mais é do que um salvo-conduto para que essas pessoas abandonem o que lhes resta de civilização e passem a agir como animais.
Hoje em dia é fácil entender o escândalo da maioria das pessoas ao analisar a história da humanidade e constatar a normalidade com que sociedades primitivas encaravam todo tipo de tratamento desumano dispensado a determinados grupos minoritários. Desde a insanidade asteca, que os fazia promover verdadeiros genocídios no intuito de agradar seus deuses e assegurar a próxima colheita, ao universalismo e a inevitabilidade econômica da escravidão humana antes da Revolução Industrial, é vasto o leque de atrocidades que já foram socialmente aceitáveis na história humana. A questão é que, mesmo sendo motivo de vergonha, pelo menos houve razão para muitas delas, seja o medo animal da fome que converte sacrifícios humanos em massa em mera formalidade religiosa, seja a realidade pré-industrial, onde a escravidão era o único meio de produção em larga escala. Se o destino da humanidade realmente é o progresso, as gerações posteriores vão olhar do futuro para essa época estranha, na qual o valor da vida humana varia em função de seu estágio embrionário, da mesma forma como hoje olhamos para sociedades que abatiam seres humanos como gado para agradecer pelo nascer do sol.