domingo, 12 de junho de 2016

A Educação em Estágio Crítico



Em 2014, 43 manifestantes foram brutalmente assassinados por uma gangue de narcotraficantes em Iguala, no México.  O crime, ordenado pelo prefeito da cidade na tentativa de impedi-los de sabotar um evento público promovido pela primeira-dama, horrorizou o mundo devido aos requintes de crueldade empregados. Consta-se que as vítimas foram amontoadas em três veículos (15 morreram de asfixia durante o trajeto) e levadas a um depósito de lixo no município de Cocula, onde foram executadas e tiveram seus corpos carbonizados.
Proveniente do município de Ayotzinapa, o grupo era formado por alunos da escola rural Raúl Isidro Burgos, famoso centro formador de militantes socialistas, de onde saíram, inclusive, notórios guerrilheiros mexicanos como Lucio Cabañas. Adeptos de táticas radicais, os estudantes se encontravam em posse de alguns ônibus tomados à força (prática comum em suas mobilizações) quando foram detidos pela polícia e entregues aos narcotraficantes da facção Guerreros Unidos, ligada à esposa do então prefeito. 
É em tragédias dessa magnitude que mais claramente salta aos olhos o destrutivo poder de influência das ideologias radicais sobre mentes ingênuas, materializado na frieza com que esses jovens foram cruelmente convertidos em massa de manobra e, como ovelhas, enviados ao matadouro. Manipulados em sua inocência, foram impelidos à estupidez de enfrentar políticos corruptos ligados a brutais gangues de narcotraficantes. Pagaram com a vida por isso. Tal qual centenas de jovens brasileiros durante o regime militar, foram vítimas do aliciamento ideológico de agitadores experientes e impiedosamente jogados aos lobos por criminosos que se escondem por trás de teorias fantasiosas e que raramente têm coragem de assumir a linha de frente da luta que tanto pregam. Não à toa, ninguém tinha mais que 21 anos no grupo. Seus professores-doutrinadores continuam, em sua covardia revolucionária, a seduzir impunemente mais idiotas influenciáveis.
Instrumentalizar a pobreza no intuito de formar massa de manobra de sindicato partidarizado e movimento “social” para viver de exigir do estado. Eis a real função das ideias socialistas em locais como Ayotzinapa, onde a crença cega no governo como um Deus ex machina é, no fundo, a causa principal da maioria dos problemas. Transferir para um ente distante e indiferente a responsabilidade pelas vidas das pessoas é a maneira mais eficaz de mantê-las dependentes e assim perpetuar a pobreza e o atraso. No fundo, toda iniciativa de redistribuição é um meio de administrar as necessidades dos pobres em favor dos interesses de uma elite política.
Mensagens messiânicas tendem a ganhar relevância em cenários onde o desespero é a norma. É diante do medo e da completa falta de perspectivas que os discursos místicos parecem ser a única saída possível. Se até o século XIX as religiões detinham o monopólio da narrativa da salvação e prometiam num paraíso post mortem o fim do sofrimento terreno, a mística política dos próximos cem anos traria as soluções do céu para um futuro que nunca chega. Ficaria a cargo dos portadores da boa nova secular a catequização política dos gentios.
Assim se notabilizam os pensadores cujas ideias ocasionam diariamente os Igualas e os Eldorados dos Carajás que passam despercebidos nos rincões mais pobres e afastados do mundo. No Brasil não poderia ser diferente. Paulo Freire, cuja maior contribuição à educação do país foi converter o projeto pedagógico oficial de jovens e adultos num manual de proselitismo marxista, é considerado o patrono nacional da educação. Boa parte de sua retórica se baseia em censurar como mera imposição burguesa o caráter tecnicista, “bancário”, da educação convencional, voltada a capacitar para o trabalho. Em vez dela, idealiza os professores não como agentes de criação de população economicamente ativa, mas como formadores de “consciência crítica”, projetando assim a escola como centro formador de “cidadãos”.
A dita “preocupação social” do modelo pedagógico oficial do “progressismo” brasileiro não demora a trair seu teor totalitário orwelliano ao pregar a apropriação governamental da função estritamente parental de formar cidadãos. Tutto nello stato. Astutamente identificando a autoridade familiar como o último bastião da sociedade contra a tirania do estado, a pedagogia do oprimido parece se mover no sentido de contornar esse obstáculo através da apropriação ideológica das crianças via educação estatal. Tal qual na opus magnum de Orwell, as crianças, antes sob tutela da família, passam a ser propriedade do estado.
  Em situações de estabilidade social (a norma), onde o enriquecimento da humanidade nos últimos 200 anos promoveu uma generalização do conforto e da prosperidade sem precedentes na história documentada, o principal efeito da pedagogia crítica de Freire é alçar as birras infantis de uma geração imbecilizada de mimados desocupados à condição de causas políticas, facilitando assim sua cooptação por partidos anacrônicos, que de outra forma já teriam caído no ostracismo.
Já numa comunidade como Ayotzinapa, onde uma população entregue à própria sorte se vê diariamente sem qualquer perspectiva de prosperidade, rejeitar um modelo educacional voltado primordialmente a habilitar as pessoas a gerar riqueza, nada mais é do que um esforço evidente no sentido de mantê-las pobres e necessitadas, com a finalidade precípua de fazer uso político de sua condição. O único compromisso de um projeto “pedagógico” dessa estirpe é com o cultivo ideológico de infantaria revolucionária. Como consequência imediata, a população mais necessitada, naturalmente suscetível a esse tipo de demagogia e carente de qualquer proteção estatal, é impiedosamente jogada contra o poder esmagador dos senhores da guerra locais e sistematicamente exterminada sem cerimônia.
No Brasil, a natureza das recentes invasões de escolas estaduais em São Paulo é idêntica à das manifestações dos estudantes do colégio Raúl Isidro Burgos. Exatamente como seus similares mexicanos, os invasores são jovens em idade estudantil manipulados por agitadores profissionais de partidos obscuros, especialistas em aproveitar reivindicações justas para semear a desordem. Em que pese o fato de serem realmente alunos dos colégios que invadem (à revelia da maioria, diga-se), as evidências escancaram o óbvio: mesmo tentando passar a impressão de espontaneidade, horizontalidade e independência, os estudantes atuam sob coordenação de agremiações esquerdistas. E isso é mais claro ainda ao se constatar o caráter unicamente partidário das motivações, refletido na ausência de invasões nos 103 colégios municipais sem merenda, esses sob administração de um prefeito petista. Comportamento, aliás, idêntico ao da UNE quando do último corte de mais de R$ 10 bilhões do orçamento do MEC pelo governo federal.
A postura conivente e a bajulação bovina de setores midiáticos “progressistas” em relação aos atos de vandalismo coletivo de marionetes de partidos políticos em São Paulo originou o mais recente fenômeno de glamourização do quebra-quebra desde os pandemônios de 2013. Aliado ao prestígio praticamente incontestável das ideias de Paulo Freire e seus comparsas no establishment “intelectual” brasileiro, esse incentivo tácito à baderna ideológica como método de reivindicação é mais do que suficiente para esclarecer as causas das veias abertas da América Latina. Avaliar o fracasso educacional dessas pobres nações tão longe de Mises e tão perto de Marx sem levar em conta a influência perniciosa de uma visão de mundo renitente em enxergar pobres como massa de manobra de revolução em pleno século XXI, é fechar os olhos para os milagres que a educação livre de ideologia tem operado mundo afora. Em meio século a Coréia do Sul emergiu das ruínas de uma guerra fratricida que causou a destruição de 25% de seus recursos naturais e a morte de 5% de sua população civil para a vanguarda tecnológica mundial. Hoje, enquanto os jovens pobres do Tigre Asiático estudam para criar aplicativos de celular, os brasileiros aprendem como parar avenidas e depredar patrimônio público e os mexicanos são instruídos na nobre arte de tomar ônibus à força e morrer nas mãos de traficantes.