sábado, 23 de julho de 2016

O Verdadeiro Herói de Game of Thrones



Historicamente, a barbárie e a escassez são a norma na experiência humana. Em mais de seis milênios de civilização, apenas em 1215 conseguiu-se obter de um soberano o compromisso de obedecer a um compilado de normas destinadas a impedir o exercício do poder absoluto. Essa demora desde a invenção da agricultura, a consequente sedentarização da espécie e o advento das primeiras sociedades, só prova que a noção da vida humana como um valor objetivo nada mais é do que um luxo extravagante na cruenta história da humanidade.  
Produções como Game of Thrones (GOT) mostram isso muito claramente. Mesmo ambientada em tempo e lugar fictícios, a trama retrata basicamente as relações de poder numa sociedade feudal na qual o valor de uma vida depende da família a que pertence. Nada muito distante, portanto, do que vem ocorrendo na maior parte do tempo em que o homo sapiens tem reinado sobre a Terra.
Como em qualquer sociedade em qualquer época, a maioria dos protagonistas da história está sempre em busca de poder. Logo de cara fica evidente que, justamente por isso, encarnam as maiores ameaças à integridade física das pessoas comuns. Não por acaso, as personagens com mais escrúpulos do que pretensões são as que menos veem com naturalidade o caráter descartável que a vida humana assume em contextos onde impera a lei do mais forte. Não é Tyrion, o Lannister renegado, que acha que “há mortes demais nesse mundo”? Como Arya Stark aprendeu com Syrio Forel, seu mestre de dança braavosiano, só existe um deus em GOT e ele se chama morte. Em verdade, quando se trata de política, esse é o único deus que as pessoas temem. O brilhantismo da narrativa se escora exatamente em expor sem eufemismos a real essência do jogo político: em busca de poder, qualquer um é capaz de qualquer coisa.
O exemplo mais dramático disso talvez seja Stannis, irmão do meio do rei Robert Baratheon, que não hesita em matar o irmão mais novo e a própria filha em seu desespero para conseguir o Trono de Ferro. Após a morte do rei, o título de Lorde dos Sete Reinos caberia por lei a Joffrey Lannister/Baratheon, em teoria seu filho mais velho. Como Jon Arryn e Ned Stark descobrem que Robert não era pai de nenhum dos filhos da rainha, seu irmão imediatamente anterior se torna, de fato, seu verdadeiro sucessor. Investido da legitimidade que as leis de Westeros o concedem, ele faz literalmente tudo a seu alcance para exercer seu direito à coroa. Mais do que para qualquer um dos tantos reis autoproclamados, para ele os fins realmente justificam os meios. É assim que Stannis se converte a uma seita obscura e passa a ser manipulado por uma sacerdotisa que o ajuda a matar o irmão mais novo (seu rival na corrida pelo trono) e chega a convencê-lo a queimar a própria filha como oferenda ao sadismo do deus que segue. Por poder, Stannis vende a alma ao diabo e extingue a própria linhagem.
É interessante constatar que, mesmo que haja uma fé por trás das atrocidades do Lorde de Dragonstone, não é em seu nome que ele as pratica. Sua “conversão” não passa de mais um artifício empregado no afã de conseguir o Trono de Ferro, o que faz sua falta de escrúpulos guardar uma semelhança vívida com o niilismo comunista do século XX. Se é a busca pelo poder a principal razão pela qual ele queima vivos seus oponentes, o que o distingue de facínoras como Achile Lollo, assassino incendiário e fugitivo da justiça italiana ligado ao PT e ao PSOL? Ou de Cesare Battisti, outro delinquente homicida italiano queridinho da extrema-esquerda brasileira? Stannis não é um crente e nunca seria e é apenas isso que ele não tem em comum com os carniceiros estatólatras do Baader Meinhof, Brigadas Vermelhas, PAC et caterva.
A destruição “por direito” de Stannis Baratheon em busca do poder absoluto só encontra paralelo ideológico na devastação bem intencionada levada a cabo por Daenerys Targaryen com o mesmo propósito, obviamente. Última representante da lendária dinastia que governou os Sete Reinos por três séculos, Dany passa por maus bocados na trama. Tratada como moeda de troca pelo irmão também aspirante ao Trono de Ferro, é oferecida como “esposa” ao líder de uma horda bárbara em troca de seu exército. Como as “mil lâminas” que compõem o assento do soberano de Westeros, ela é forjada no fogo dos abusos e violências de que foi vítima. Diferentemente do que ocorreria se seu pai não fosse apeado do poder, a selvageria que sofre não só a torna forte e temível diante de seus inimigos (lição que Sansa Stark demora tanto a aprender) como a sensibiliza diante do sofrimento das pessoas comuns.
É exatamente aí que se revela o ponto fulcral das motivações da princesa Targaryen em sua luta pela coroa. Apesar de toda depravação de Stannis, ninguém, nem mesmo Cersei Lannister, a encarnação do mal na história, é mais capaz de impor e manter um regime tirânico do que a Breaker of Chains. As causas nobres que propagandeia lhe conferem uma aura de legitimidade que, além de fazê-la pender naturalmente ao populismo (característica indispensável a qualquer aspirante a déspota), torna toda barbaridade levada a cabo em seu nome moralmente justificada, inclusive e principalmente para ela mesma. Se ela luta contra a escravidão, por que não crucificar os antigos mestres no caminho? Eles mesmos não crucificavam seus escravos? O problema é que a fama de “Incorruptível” fica a um tropeço do Comitê de Salvação Pública e suas guilhotinas. Há diferença entre o “Kill the masters!” da Mhysa (“mãe” no baixo valiriano da Baía dos Escravos) e o “Ennemies arrêt de la révolution!” de Robespierre? É precisamente por isso que, ao julgar Petyr Baelish como o “homem mais perigoso dos Sete Reinos”, Varys comete seu mais grosseiro erro de cálculo político: Mesmo que o Littlefinger esteja disposto a reduzir tudo a cinzas para reinar, naturalmente ninguém confia nele. No caso de Daenerys, como se opor à mãe dos pobres, que libertou os escravos e tem as melhores intenções do mundo, mesmo que seu objetivo declarado seja literalmente idêntico ao do alcoviteiro que todo mundo despreza?
Nada explica melhor o grandioso ato de vandalismo ideológico que foi a derrubada da Harpia de Bronze do topo da Grande Pirâmide, logo após o cerco de Meereen. Certamente os motivos da Mother of Dragons, os mais nobres possíveis, devem ter incluído o fato de o monumento ser um símbolo do escravagismo que ela luta para abolir (como se a própria pirâmide da qual ela reina também não fosse. Mas essa, curiosamente, fica intacta). No afã aloprado de “fazer justiça” às vidas futilmente ceifadas para levar a cabo o empreendimento, ela termina por insultar a memória dos escravos mortos, indelevelmente marcada em cada centímetro cúbico da estátua, ao pô-la abaixo e decretar que seu sofrimento será esquecido e suas vidas terão sido em vão. Hoje em dia Daenerys seria facilmente um dos agitadores oportunistas por trás dos tantos idiotas a gritar pela extinção da bandeira confederada e clamar por safe zones em universidades nos EUA ou a invadir e depredar escolas e exigir “passe livre” no Brasil. Sua loucura iconoclasta (quem herda não furta, afinal) não é nada mais do que um remake das destruições jacobinas e soviéticas de igrejas ou da fúria alucinada do Daesh e do Talibã, mandando pelos ares as ruínas de Palmira e os Budas de Bamiyan. No fundo a intenção é chocar, demonstrar força e enaltecer uma ideologia. Qualquer que seja.
Se o grau das pretensões políticas de um personagem é inversamente proporcional a sua predisposição à destruição e a seu nível de tolerância a atrocidades, ninguém encarna melhor esse axioma do que Varys. Escravo órfão vendido a um feiticeiro que o castra e abandona pra morrer, The Spider aprende cedo que, exceto para uma minoria de afortunados, o sofrimento é a regra da vida. Forçado a aceitar todo tipo de degradação para sobreviver, provação atrás de provação o eunuco se torna um ladrão habilidoso e enriquece. Contra todas as possibilidades, galga os degraus que um dia o levariam ao Pequeno Conselho (o staff de conselheiros do rei) como Mestre dos Sussurros, uma espécie de chefe de inteligência do reino.
Por testemunhar in loco e em tempo real as consequências das revoluções e das utopias políticas para as pessoas comuns, Varys é naturalmente refratário a salvadores e conquistadores. “Sempre odiei os sinos. Eles soam pelo horror. Um rei morto, a cidade sob cerco”, pondera pouco antes da Batalha de BlackWater. Seu ceticismo em relação à lealdade feudal tão valorizada em Westeros explica o menosprezo com que é tratado pelos lordes arrogantes sedentos por poder. Quando confrontado por Ned Stark sobre a quem serve ele responde: “ao reino, meu senhor. Alguém tem que fazer isso”. Mesmo ciente de todas as imperfeições e contradições da sociedade que luta para conservar, Varys entende que nenhum “progresso” que os transformadores prometam compensa todo o sofrimento que vem a tiracolo. Como Daenerys mesmo diz, Lannister, Stark, Targaryen, Baratheon, Tyrell, Martel e Arryn são apenas nomes numa roda que destrói tudo por onde passa em seu furor descontrolado farejando poder. Como não se pode quebrá-la, como anseia a Silver Queen em seus delírios de “outro mundo possível”, o Master of Whisperers se esforça para fazer o que é realmente factível: pará-la.
Só assim é possível entender sua recusa em ajudar Ned Stark a escapar da prisão e se juntar ao filho, impulsionando uma rebelião com potencial para destruir o reino. Não é por odiar Petyr Baelish que ele, juntamente com Olenna Tyrell, frustra seus planos de casar com Sansa Stark e assumir o Norte. É por enxergar na obsessão por poder e na falta de escrúpulos do Littlefinger razões mais do que suficientes para impedi-lo de ter meios de pôr o reino abaixo no intuito de se tornar o senhor dos escombros. Se ele se nega a tomar partido de Tyrion num julgamento manipulado por Cersei, ele o faz pela mesma razão que o leva a ajudá-lo a escapar pouco antes de sua execução: por reconhecer nele tanto o intelecto brilhante por trás da defesa de King’s Landing contra a devastação a bordo da esquadra de Stannis, como uma força prudente a ser empregada no esforço de manutenção de tudo de valor que está continuamente sob ameaça numa sociedade onde a “honra” tem mais valor que a vida. Como todo conservador, The Spider entende a importância da prudência e sabe que toda mudança brusca e impensada, por mais “bem intencionada” que seja, representa mais um risco à existência de tudo de valioso que foi arduamente conquistado pela civilização do que uma oportunidade de criar um paraíso na Terra num passe de mágica.
A análise das histórias de Stannis, Daenerys e Varys dá a medida das razões pelas quais seus pontos de vista em relação à política e ao poder são tão mutuamente divergentes.
 Um lorde orgulhoso, que sempre viveu à sombra do irmão mais velho, (que, como se não bastasse ser o primogênito num status quo extremamente patriarcal, ainda derrota uma dinastia de três séculos e se torna rei) numa sociedade que exalta conquistadores em detrimento de diplomatas, só poderia mesmo se tornar um psicopata obcecado por títulos e poder.
Uma princesa de nome antigo que leva uma vida de nababo até ser obrigada a fugir e viver de favor. Vendida como um animal de reprodução pelo próprio irmão, submetida às violências mais brutais e obrigada a descer de sua torre de marfim e encarar a realidade dura, fria e seca da maioria esmagadora das pessoas comuns, que faz festa sempre que consegue comer três vezes ao dia. Diante de tudo isso, nada mais natural que alguém jovem, verdadeiramente benevolente e, acima de tudo, impulsivo, comece a achar que vai salvar a humanidade na base da força, munido apenas das melhores intenções do mundo, pondo em risco tudo de valioso que já existe e, principalmente, ignorando que avanços civilizacionais não são mais que meros desvios da norma sangrenta que dita as relações de poder entre os homens através da história.
Já um eunuco sem linhagem nem o dom da violência, que chega a uma posição de destaque unicamente por sua sagacidade e disposição para o trabalho, tem todos os motivos do mundo para lutar pela manutenção de uma ordem que, bem ou mal, o permite sair da miséria e escrever uma nova história. Num status quo onde impera a lei da selva e que só reconhece indivíduos sem sobrenome se tiverem utilidade prática, a tendência à selvageria é, naturalmente, o ativo mais imediato. Por isso, brutamontes como os irmãos Clegane, Bronn ou Daario Naharis terão a mesma importância em Pyke, Vaes Dothraki ou em qualquer lugar onde haja alguém disposto a pagar por sangue. Gente como Varys, por outro lado, só pode prosperar onde há civilização. Se a tendência da humanidade à selvageria é algo tão inexorável quanto o instinto de auto preservação, nada mais natural que a inclinação a preservar o que a tanto custo foi conquistado (e que se evapora facilmente diante da primeira convulsão social) seja o combustível a mover o Master of Whisperers.
Quando recriminado pelo Lorde de Winterfell por se manter em silêncio diante do assassinato de seus servos por Joffrey e Cersei, Varys simplesmente responde: “E o faria outra vez, meu senhor. (...) Quando olha para mim você vê um herói?”. Mesmo que não o seja diante dos critérios pervertidos de Westeros ele, exatamente como Tyrion clamou durante seu julgamento, é o salvador anônimo de todas as vidas sem sobrenome nem importância que se perdem sem que ninguém se dê conta da existência nas infindáveis disputas entre os lordes sanguinários dos Sete Reinos. Herói é uma figura arquetípica que reúne em si os atributos necessários para superar de forma excepcional um determinado problema de dimensão épica. Num contexto onde direitos humanos não são mais que um delírio de algum idealista desacreditado, há causa mais homérica a defender do que a vida daqueles sem nome que não passam de massa de manobra nas mãos dos que empunham o gládio? Como sabiamente asseverou Sandor Clegane, tolos honrados como Ned Stark, gênios assassinos como Tywin Lannister, jogadores sem escrúpulos como Petyr Baelish ou demagogos sanguinários "bem intencionados" como Daenerys Targaryen não passam, todos, de assassinos. Os verdadeiros heróis não empunham espadas. Eles cuidam para que sejam usadas apenas em último caso.