domingo, 17 de dezembro de 2017

Me Me Me Generation


Poucos fatores influenciam nos costumes e na cultura de uma sociedade como seu nível de prosperidade. E, como é característico da espécie, quanto maior e quanto mais tempo perdure, mais uma cultura tende a se tornar relaxada, indiferente e mesmo hostil aos princípios e tradições sobre os quais foi fundada. Aliado à convicção da própria excepcionalidade, consequência natural da hegemonia econômica, cultural e militar, foi o conforto gerado pela combinação de riqueza e estabilidade política o que catalisou a crise de valores que culminaria no ocaso de Roma. As invasões bárbaras desempenharam no processo o papel das infecções oportunistas numa morte por AIDS: apenas se aproveitaram de um corpo carente de auto-defesa para desferir o golpe de misericórdia.
O HIV das grandes civilizações é a descrença generalizada em seus valores fundamentais. Uma sociedade saudável é naturalmente composta por grupos antagônicos que se digladiam em busca de poder. Alguns, na intenção de preservar o que há de bom, o fazem com o objetivo de manter a estrutura social. Outros, por a julgarem perversa na essência, buscam uma mudança profunda, quando não a substituição pura e simples do modelo então em vigor. Se a própria natureza da guerra política pressupõe, segundo Maquiavel, a completa anulação da componente moral na disputa pelo poder, não é incomum que qualquer coisa possa se tornar praticável pra qualquer um dos lados.
Quem defende a manutenção pode muito bem se opor a mudanças necessárias, se acomodar e se tornar insensível aos erros e contradições, inerentes a qualquer empreitada humana. Para quem se propõe a refundá-la, ou transformá-la fundamentalmente, atacar sistematicamente as bases da civilização sobre a qual ela se assenta pode se revelar uma linha de ação sedutora. Nesse caso, poucas coisas são tão efetivas quanto investir na cooptação da juventude.
Jovens são desajustados na essência. O corpo em transformação, desordens emocionais e hormonais de toda sorte, frustração sexual, tendência ao comportamento auto-destrutivo, o desespero de não se ter descoberto como indivíduos e de não ter ainda encontrado o próprio lugar no mundo, a transição geralmente traumática entre a inocência da infância e a truculência da idade da razão... Tudo isso configura a adolescência como o período mais turbulento da experiência humana. Como consequência imediata, a atração, nessa idade, por qualquer visão de mundo que tenda a, pelo menos, contestar a ordem natural das coisas é instintiva.
Isso os torna a parcela da sociedade mais receptiva a utopias, radicalismos e mudanças bruscas e impensadas. Os primeiros a embarcar nas novidades. Facilmente impressionáveis. Sempre prontos a experimentar o que quer que se ofereça. Presas fáceis para o canto da sereia de agitadores e baderneiros especialistas em oratória. Alvos prioritários da agitprop revolucionária. Não à toa, são o motor dos movimentos de massa. Geralmente em maior número e no período mais saudável da vida, são imprescindíveis a qualquer empreendimento que flerte com a alternância não pacífica de poder e tenda a resultar num regime de força. É a militância dos hormônios, ferozmente disputada por sua vitalidade, insensatez, atração pelo proibido, facilidade de manobra e tendência à mentalidade de gado.
A natural impulsividade da idade, um problema a ser administrado por um educador honesto, se torna ativo político nas mãos do arruaceiro extremista, cujo discurso irresponsável e violento só consegue despertar o desprezo e a antipatia de quem tem o que perder. Só assim é possível entender a tragédia de Sócrates: a preocupação legítima em preservar o que a tanto custo foi conseguido e que, por isso mesmo, tão facilmente se esvai, levou as autoridades gregas a persegui-lo. Diante da possibilidade de corromper a juventude e lançar a sociedade no caos, a eventualidade de condenar à morte o pai da filosofia ocidental se torna um efeito colateral admissível.
Em sociedades que falharam em universalizar o acesso à riqueza a ponto de a religião permanecer como elemento central a regular as ações e o comportamento das pessoas, o fundamentalismo se apresenta como o meio ideal para explorar politicamente esse potencial subversivo. Na segunda metade do século XX, o Islã político floresce na ânsia dos muçulmanos por afirmação e identidade num mundo atônito diante do incontestável triunfo do Ocidente, sob a liderança da América. Diante da desgraça moral, política e econômica que se abateu sobre a ummah desde a queda do Império Otomano, só restou aos fiéis se apegar desesperadamente àquela fé que já lhes possibilitou controlar um império que, em seu auge, tinha sido maior que Roma. Esse ambiente aterrador inspirou nas elites econômicas e intelectuais, poliglotas e educadas nos EUA e Europa, um fervor religioso que não se via nem em seus pais. Aos jovens pobres, frutos das taxas de natalidade de uma cultura que exalta a poligamia masculina e se expande por meio de migração e ocupação de território, só restaram as madrassas e quase nenhuma esperança. Sem muito a perder e ávidos por encontrar um sentido na vida, o Islã takfiri se apresenta, então, como caminho natural. É essa massa de desvalidos a garantia de Khomeini para fazer sua revolução no Irã, a base (Al Qaeda, em árabe) da jihad global de Bin Laden e Zawahiri contra o Ocidente e a infantaria de Abu Bakr Al-Baghdadi para erigir seu califado no Iraque e na Síria.
 Num ambiente onde a prosperidade é a norma, ao contrário, é basicamente o tédio e o ócio o que impele os jovens à atitude revolucionária. Livres das preocupações e privações que afligem seus semelhantes nas sociedades mais pobres, os ocidentais não dispõem dos mesmos motivos para aceitar os rigores de uma doutrina religiosa. A segurança e o conforto retiram de Deus o monopólio sobre a natural necessidade humana de sentido na vida. Se a oferta de redenção do monoteísmo abraâmico exige auto-sacrifício por presumir o homem perverso na essência, o antropocentrismo neo- franco-iluminista dos setores mais midiáticos da esquerda contemporânea o exalta a ponto de colocá-lo no lugar que Deus ocupava no imaginário cristão pré-Revolução Francesa. Chega-se ao paroxismo de encarar seus erros e misérias não como anátemas inerentes a sua condição humana, a serem combatidos por meio da auto-disciplina e do auto-controle, mas como culpa da sociedade que o corrompe. Numa geração cultivada sendo convencida de que é especial e única, tendo seus defeitos tratados com uma condescendência que não poderia incutir nela nada a não ser uma mentalidade ressentida, narcisista e hedonista, esse modo de ver o homem só poderia ser alçado à condição de evangelho.
Além da redoma de bem-estar, um esforço deliberado, velado e sistemático na direção de remodelar uma sensibilidade estética comum, cultivada na mais importante herança artística clássica, o conceito de Belo, tem operado uma alteração contínua na atitude das pessoas em relação ao que sempre se convencionou como harmonioso e agradável aos sentidos.
O início do século XX assistiu à ascensão de um movimento de contestação dos paradigmas estéticos que pautaram as artes plásticas durante toda a existência da Civilização Ocidental. Com o horror do mundo amplificado pela velocidade das transformações impostas pela técnica, descortinou-se a oportunidade única de perverter com propósitos políticos algo originalmente idealizado para refletir o que há de mais sublime na natureza humana. Se até o século XIX a arte vinha sendo associada, ao menos no ideário popular, à consolação na tristeza e à afirmação na alegria, a partir de Duchamp virou instrumento de “contestação”, de “quebra de tabu”, do choque pelo choque.  
A música popular não seria poupada da ação desse espírito de devastação. Até a segunda metade do século XX, ainda se privilegiaria a virtuose instrumental, os vocais afinados, as composições melódicas em escalas naturais e dissonâncias cuidadosamente encaixadas. Agora uma estética esquizofrênica toma conta do mercado fonográfico. A canção de sucesso, antes marcada pelo caráter artesanal, pelo gênio criativo e pela perícia do autor em seu instrumento, se rende à grosseria da era da linha de produção. Distribuída em massa para um público cada vez menos exigente, não é mais escrita num piano acústico, mas montada, peça por peça, como uma máquina, num computador. Se os solos trabalhados e as harmonias de piano imperavam outrora, agora abundam os recursos eletrônicos. A música não é mais acústica. É sintética. Ao executar os instrumentos e corrigir vozes de gente incapaz, o computador tornou o talento dispensável. O niilismo sonoro das escalas cromáticas, do abuso de dissonâncias e acordes fora da progressão natural, regurgitados sem fundamento, são a marca do desespero de uma era condenada, que escolheu abrir mão de tudo que já tinha passado pelo teste do tempo para apostar todas as fichas na frágil razão humana como Deus ex-machina da humanidade. O avanço técnico e a tolerância fabricada com a incompetência artística deu origem a uma cultura de plástico, onde a arte perdeu a conexão com uma tradição milenar de refletora do que há de melhor na condição humana.
 E o relativismo estético é o prelúdio do relativismo moral.
Imersos nesse caldo de cultura, vieram ao mundo os chamados millenials. Nascidos a partir da década de 1980 nos centros urbanos do Ocidente, são os filhos da revolução sexual, do maio de 68, do movimento hippie e da contracultura. Diferente de seus antepassados, que enfrentaram os rigores de epidemias, fomes, guerras e crises econômicas, essa geração cresceu na realidade espaço-temporal mais próspera, segura e pacífica da história até então. Nada mais compreensivo, portanto, que tendam a enxergar esse estado de coisas como natural, a ponto de se dar ao luxo de rejeitar os princípios e tradições que possibilitaram a seus ancestrais lhes legar esse estilo de vida. Aliada à tendência da idade à rebeldia e à guerra sistemática empreendida contra a cultura ocidental pelos centros difusores de idéias, controlados pelos prosélitos da esquerda pós-moderna, uma disposição no mínimo indiferente em relação aos valores ocidentais é o que dá a tônica da visão de mundo dessa geração.
O aspecto físico é o mais imediato. A relativização do Belo e do Sublime criou nessas pessoas uma atração mórbida pelo grotesco. Crianças crescem tomando estímulos sonoros eletrônicos por música e tendo na forma grosseira e perturbada dos desenhos animados atuais sua primeira experiência artística. Ao fim da adolescência, o ambiente de devastação estética da universidade potencializa a tolerância com o horrendo, plantada subliminarmente ainda na primeira infância. Assim, sinais de marginalidade social, que outrora identificavam detentos, prostitutas, bandidos, piratas, loucos, drogados e artistas, de repente se tornam populares: tatuagens, cabelos em formatos/cores aberrantes e corpos mutilados com piercings são exaltados como “marcas de originalidade”. A distinção social positiva deixa de ser consequência do que se cria e passa a ser medida pelo que se exibe. Exatamente como animais em período de acasalamento.
Só em ambientes assim poderia florescer algo como a cultura youtuber. Só mesmo numa época de facilidade e informação instantânea, na qual as pessoas, tão idiotizadas, não precisam mais ler para ter acesso a idéias e opiniões, gente sem competência para se expressar pela escrita teria condições de se sobressair. É só ligar uma câmera e fazer papel de idiota para ter views e likes e ser, de repente, alçado à condição de “influenciador digital”. Qualquer drogado tatuado com tendências suicidas (que em qualquer cultura menos doente estaria na sarjeta chafurdando no próprio vômito), palhaço retardado com síndrome de Down (que não passaria de atração de circo de horrores em épocas que a beleza ainda importava) ou patricinha cabeça-oca sem talento nenhum, pode se tornar celebridade, lançar livro, lotar teatros, estrelar filmes, e despertar a devoção bovina de milhões. Se antes os jovens tinham como referência a sabedoria, a força, a beleza, a virtude e a saúde, hoje o prestígio é do tosco, do doentio, do fútil e do bizarro. Gente perturbada, que em épocas mais saudáveis seria devidamente ignorada ou alvo de zombaria, está nas capas de revistas e fazendo publicidade. Como pervertidos que são, não poderiam deixar de trazer seus valores perniciosos a tiracolo: drogas, anti-cristianismo, aborto e desmoralização das autoridades de repente entram na ordem do dia para um rebanho de mentecaptos desorientados e manipuláveis.
Acrescente-se a isso o culto ao sentimento, essa tara da pós-modernidade tratada como cânone da pedagogia infantil contemporânea.
Não é à toa que o sentimentalismo tem sido associado à natureza feminina ao longo da história. Por não dispor da mesma capacidade física do homem, coube a ela aguçar sua inteligência emocional para contrabalançar a relação com o parceiro. Enquanto o poder dele está nos braços, o dela está na mente. Era ela que ficava na caverna, cuidava da prole e, principalmente, que tinha que lidar com os pequenos conflitos domésticos cotidianos, enquanto ele se arriscava na caça. Por isso é natural que meninas amadureçam mais rápido, sejam mais observadoras e intuitivas, mais sociáveis e, logo, mais sensíveis à dinâmica emocional humana.
O problema é quando isso é aplicado aos meninos. Por uma questão de sobrevivência da espécie, eles são, no geral, mais voltados para fora do que para dentro. Diante de uma natureza hostil onde tudo é incerto, o macho que prescinde da força física e não cultiva sua capacidade de iniciativa simplesmente não deixa descendência. Enquanto elas são inclinadas aos sentimentos, eles o são para a violência. Se são criados para negar sua natureza, ao invés de moldá-la à civilização, o resultado é o que se vê hoje: uma geração de afeminados sentimentalistas que simplesmente perderam a conexão com o macho ancestral e não têm mais a capacidade de proteger, cuidar e, o pior de tudo, de despertar e manter o interesse das mulheres. O enfraquecimento deliberado do macho ocidental é só mais uma faceta do esforço diabólico de demolir o Ocidente.
Essa loucura emotiva assumiu um caráter praticamente totalitário nesse mundo de safe spaces. Em tudo existe o medo de ferir e ofender. Até seleções e entrevistas de estágio e emprego se converteram em ritos coordenados de picaretagem sentimentalóide, cuja função principal deixa de ser escolher o mais habilitado e passa a ser não atingir os melindres do menos qualificado. Se antes profissionais analisavam fria e objetivamente as capacidades e habilidades de um postulante a um cargo, agora charlatões com “sensibilidade social” e discurso politicamente correto encorajam os candidatos a falar de seus sentimentos e experiências de vida, enquanto promovem “atividades culturais” com lixo reciclável, a fim de sondar suas “preocupações ambientais e sustentáveis”. As habilidades de desempenhar uma função são colocadas em segundo plano e quem não é escolhido tem direito a ouvir num “feedback motivacional” como tem “espírito de liderança” e “atitude de vencedor”. A linguagem excessivamente informal e indulgente, os memes e os gifs retardados nos e-mails de anúncio de emprego e seleção de estágio nada mais são do que um sinal categórico da capitulação de uma civilização que produziu gente como Charles Martel, Robert E. Lee e Jeanne D’Arc ante os caprichos de uma geração fraca, ultra-sensível, nojenta e podre de mimada.
Como não poderia deixar de ser, o efeito colateral mais deletério dessa sociedade de ofendidos é o culto à depressão. Se já houve épocas em que padecer desse mal era motivo de constrangimento, o que mais se vê atualmente são vampiros psicológicos ostentando marcas de anti-depressivos em perfis de redes sociais. A glamourização da fraqueza e do suicídio se tornou a insígnia dessa geração de adolescentes perpétuos. A partir do momento que posar de vítima dá poder, todos viram vítimas.
Como pra cada otário na face da Terra existe pelo menos um esperto pronto pra tirar vantagem, é assim que oportunistas sem escrúpulos transformam essa estupidez emasculada generalizada em ativo político. Barack Obama dançando como macaco de circo em talk show esquerdista, enquanto posta em redes sociais a lista de “músicas” que ouve nas férias; Hillary Clinton tirando “selfie”com  popstars e sendo venerada em Hollywood; Fernando Haddad tocando guitarra em seu teatrinho hipster populista de minoria, enquanto é ovacionado aos prantos ensandecidos pela redação descolada e moderninha do Estadão; Ao se exibir em pose de ioga, Justin Trudeau consegue fazer a mídia inteira ignorar seu ódio pela civilização ocidental, refletido na decisão de não atacar terroristas islâmicos nem no caso de o Canadá ser alvo de atentado... são eles os protagonistas do panis et cicrcenses da pós-modernidade: enquanto o welfare state provê o pão, o picadeiro está montado no Facebook, Twitter e Instagram. E, como na época de Nero, é o Cristianismo o bode expiatório jogado aos leões para o delírio da massa ignara. Isso quando fica só no esquerdismo europeu de butique biscoito sem glúten...
O perigo é quando a insanidade anti-Ocidente chega num ponto onde até a violência e o terrorismo são relativizados em prol do ideal da “comunidade global da justiça social”. A geração snowflake que acha que palavras machucam é a mesma que usa e a abusa da violência contra vozes dissonantes. Ao mesmo tempo em que impedem adversários políticos de falar em universidades, cobrem o rosto para depredar patrimônio público e privado em bando e assassinam cinegrafistas, enchem o peito pra acusar de fascistas as próprias vítimas de sua fúria cega. A situação chegou num tal nível de paroxismo que, em plenos Estados Unidos da América, um agitador bolchevique com discurso abertamente totalitário precisou ser sabotado pela burocracia do Partido Democrata para não levar as primárias em 2016.
Aberrações como a popularidade de Bernie Sanders na América, Black Blocs, Black Lives Matter, Antifa e Occupy Wall Street só são possíveis numa sociedade tomada completamente por uma geração inteira doutrinada para se sentir merecedora de tudo sem dar contrapartida. Se acreditando especiais e dignos do paraíso na Terra, esses millenials estúpidos viram facilmente massa de manobra na mão do primeiro vigarista prometendo tudo grátis. Uma raça de mongolóides condicionada a se vangloriar dos próprios defeitos pra servir de bucha de canhão de trapaceiro com discurso revolucionário.
Os nomes nonsense em minúsculas e os avatares de diva pop nas redes sociais são resultado de uma cultura desenhada intencionalmente para rejeitar tudo que está no DNA da maior civilização da história da humanidade. Exércitos, bombas, nem mesmo influências culturais externas: nada disso ameaça mais o sistema imunológico do Ocidente do que a escrita errada, a insolência, o senso estético corrompido, os maus costumes, a afeminação geral, o narcisismo, o hedonismo e a necessidade histérica de afetar virtude dessa geração de prostitutas de atenção em rede social.

Em 1780, John Adams, um dos mais brilhantes membros do panteão dos fouding fathers americanos e segundo presidente daquele país, servia como representante da nascente república americana em Paris, ocasião em que buscava apoio de Luís XVI na guerra de independência que travava contra o Império Britânico. Em cartas trocadas com sua esposa, Abigail, ele relatou uma conversa que teve com membros da corte francesa, na qual explicava a razão de sua falta de tempo para apreciar a vibrante cena artística local: “Eu devo estudar política e guerra para que meus filhos tenham a liberdade de estudar matemática e filosofia. Meus filhos devem estudar navegação, comércio e agricultura para que os filhos deles possam estudar pintura, poesia e música”. Mais de dois séculos depois, a citação do ilustre advogado ainda soa atual não apenas pela beleza ou contundência de suas palavras, mas, principalmente pela forma como descreve o que parece ser a dinâmica inexorável das grandes civilizações: tempos difíceis forjam bons homens. Bons homens criam tempos bons. Tempos bons produzem homens fracos. Homens fracos provocam tempos ruins.

domingo, 21 de maio de 2017

Questão de Saúde Pública ou Questão Civilizacional?


Dentre todas as distinções que podem ser feitas entre civilização e barbárie, uma das mais adequadas, sem dúvida, é a que envolve a lei do mais forte. No estado de natureza o direito que regula as relações entre os homens é a arbitrariedade de todo aquele com força suficiente pra fazer valer sua vontade. O estado de direito, por sua vez, é um arranjo concebido para garantir um mínimo de garantias àqueles fracos demais para se defender por si mesmos, que não nasceram com o dom da violência.
Nenhum arranjo social criado entre homens com o intuito de facilitar sua sobrevivência mediante a divisão de trabalho pode existir sem o amparo de um conjunto de regras pré-estabelecidas a que todos devem se submeter. Independente do meio de governo escolhido, uma coisa é certa: é duvidoso o futuro de uma sociedade que carece de uma cultura de temperança mínima, calcada na convicção de que existem limites à liberdade de ação humana e, junto a eles, um sistema de repressão para quem ultrapasse certas fronteiras e outro de reparação, destinado a quem seja prejudicado no processo.
A civilização é, portanto, um arranjo concebido para garantir que a atos se sucedam suas devidas consequências, noção na barbárie condicionada à capacidade do prejudicado de fazer justiça com as próprias mãos. Qualquer um que se pretenda civilizado entende que não pode tudo. Sabe que sua liberdade de ação está condicionada a sua obrigação de lidar com as implicações dela e é isso que o distingue do estado de natureza da criança em processo de preparação para a vida em sociedade e do troglodita que usa a força para submeter os mais fracos que ele.

GUERRA CULTURAL
O Ocidente se tornou, a partir da segunda metade do século XX, um gigantesco experimento social, levado a cabo por uma elite cultural/intelectual insatisfeita com o estado de coisas que possibilitou a essa civilização se tornar a maior e mais próspera da história humana. Esse empreendimento está apoiado basicamente em dois sistemas de pensamento, surgidos ainda na primeira metade do século.
O primeiro são os escritos de Antonio Gramsci e György Lukács, intelectuais comunistas cuja maior contribuição ao movimento foi a revisão do conceito de revolução política. Se o marxismo clássico pregava a ruptura violenta da ordem vigente capitaneada pelas classes produtivas assalariadas (operários e camponeses), Gramsci e Lukács perceberam que o nível sem precedentes de riqueza criada após a Revolução Industrial inviabilizaria o projeto: os trabalhadores estariam mais interessados em angariar patrimônio e cuidar de suas famílias do que em colocar tudo em risco num levante sangrento. Foi por isso que eles criaram o conceito de Revolução Cultural. Ao invés de usar as pessoas que vivem de vender a própria força de trabalho para subverter a ordem diretamente, a ideia seria manobrar o lumpesinato desprezado por Marx (pessoas não-produtivas e/ou que vivem às margens da sociedade: prostitutas, drogados, artistas, vagabundos, criminosos e idiotas úteis em geral) para atacar as fundações sobre as quais ela se assenta no Ocidente, a saber, a moral judaico-cristã, o ordenamento legal romano e a tradição filosófica helenística.
Seguindo a mesma idéia de guerra cultural, a Escola de Frankfurt insere a segunda fundação ao criar a Teoria Crítica, cujo principal meio de ataque à civilização ocidental é basicamente a chantagem: usar a tolerância das sociedades mais tolerantes da história contra elas mesmas. O foco excessivo nas contradições e problemas sociais do Ocidente tem como objetivo incutir e explorar um sentimento de culpa nas populações por erros e abusos inerentes a todos os arranjos humanos já surgidos na Terra: escravidão, submissão das mulheres e perseguição a homossexuais e outras minorias não são exclusividades do Mundo Livre, mas na guerra política mais vale dar a entender que são e ignorar que foi justamente essa a primeira civilização a abolir essas práticas nefastas e a dar exemplo ao restante do mundo.

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
O bombardeio sistemático dessas ideias a partir dos centros difusores de cultura (igrejas, universidades, redações, mídia mainstream...) iria moldar costumes e desembocar no movimento de contracultura dos anos 60. “Make love, not war” contra a Guerra do Vietnã, feminismo, revolução sexual, a chegada da primeira pílula anticoncepcional ao mercado em 1960: tudo isso deu origem a um mundo hiper- erotizado onde o sexo, antes submetido a rígidos controles sociais/morais e restrito ao casamento, foi alçado às raias, praticamente, de necessidade fisiológica.
O resultado não podia ser outro: o início cada vez mais precoce da vida sexual, amparado num estado de bem-estar social que tudo promete só poderia incorrer na banalização da sexualidade. As noções de responsabilidade e atos e consequências se perdem num hopi hari libertino sem fim onde todos têm direito à satisfação irrestrita e sem qualquer compromisso. Na tônica opressor x oprimido que substituiu a dialética burguês x proletário, todo aquele que procura colocar alguma ordem no caos hedonista é opressor. Como se não bastasse o estado garantindo a todos o “direito” à contracepção, chega-se a um ponto sem volta onde mesmo ingerir uma pílula, tomar uma injeção, colocar um preservativo ou colar um adesivo na pele se torna um fardo intolerável e mais uma exigência é feita: em nome da religião secular do prazer total, o aborto passa a ser um direito.

A GRAMA É VERDE?
Combinado à facilidade de circulação de informação e ao acesso universal a todo tipo de método anticoncepcional dos dias atuais, todo esse estado de coisas, transformou o aborto, à parte qualquer consideração de ordem moral, teológica ou religiosa, numa questão civilizacional. E só é possível vislumbrar isso a partir do momento que se entende a atividade sexual humana como um estilo de vida e uma questão de escolha individual.
A tendência atual do establishment “progressista” do Ocidente é tratar o exercício da sexualidade como “direito”, quando não como “necessidade fisiológica”. A conclusão lógica é que, nesses tempos de tara igualitária padrão welfare state, como direito, ela deve, então, estar disponível a todos. G.K. Chesterton foi profético quando escreveu, na Inglaterra da década de 1920, que um dia seria necessário provar ao mundo que a grama é verde. Menos de um século depois, é preciso apelar à biologia humana elementar para lembrar que sexo é uma atividade exclusiva para adultos.
É fato que, muito por obra da mesma elite cultural firmemente empenhada em reduzir o Ocidente a cinzas, a maturidade biológica há muito deixou de ser requisito seguro de uma vida sexual responsável. Mas isso é só o sintoma mais evidente da cultura que surgiu em meio a esse pandemônio lúbrico. Já houve um tempo em que orientar, fiscalizar e controlar o comportamento dos jovens foi considerado obrigação e regra entre os adultos. Já coube aos pais buscar meios de verter a energia sexual proveniente da explosão hormonal característica da adolescência para áreas produtivas (esportes, escotismo, trabalho comunitário) e cultivar neles senso de temperança e responsabilidade até que atingissem a maturidade emocional e psicológica imprescindíveis a uma vida sexual sensata. Hoje o que se vê são crianças recém-inclusas na puberdade pulando etapas e assumindo comportamentos adultos precocemente (obviamente sem arcar com as consequências disso), negligenciados por velhos preguiçosos e narcisistas, mais preocupados em parecer jovens e “legais” perante os filhos do que em fazer deles adultos conscientes das responsabilidades da vida adulta.
Junte-se a isso, a glamourização e a propaganda frenética do sexo como virtude e “saúde” atingindo a todos indiscriminadamente, chegando inclusive ao absurdo de, por exemplo, a banalização mais grosseira ser alçada em parlamento à condição de “patrimônio cultural”. Associe-se a isso a especial suscetibilidade das famílias pobres e sem estrutura a essa verdadeira pregação gramscista em massa para ter como resultado o ambiente ideal à profusão interminável de mães solteiras adolescentes, sem qualquer tipo de condição psicológica, emocional e material de criar e educar um ser humano. Gente sendo jogada em massa num mundo violento e cruel sem qualquer preparo, sem nenhum apoio, carentes de qualquer lastro moral. Resultado? Crescimento exponencial da violência nos grandes centros urbanos, jovens cada vez mais cedo cooptados pela criminalidade e, no limite, extermínio sistemático da juventude negra e parda nas periferias. Culpa? Do “racismo institucionalizado”, da polícia militarizada, da escravidão negra abolida há cem anos, da desigualdade social... de qualquer coisa e qualquer um, menos desse ambiente mefítico de promiscuidade descontrolada e irresponsável arquitetado milimetricamente pela esquerda hedonista do século XXI. Solução? Aborto, é claro!


CASCA DE OVO
Antes de tudo, uma coisa precisa ficar clara. Nenhum onanismo metafísico acerca do momento em que se inicia a vida humana no útero tem qualquer serventia na discussão sobre aborto, a não ser a de desviar o foco do que realmente importa: a responsabilidade individual da mulher (e não do homem) no surgimento daquela vida (ou amontoado de células, a depender das inclinações morais do freguês) no seu corpo. Se a ocorrência da atividade sexual só depende da vontade dela, não existe defesa civilizada do aborto fora da esfera do estupro (muito apesar do fato de que, em condições normais, uma mulher vítima desse crime muito dificilmente espere o desenvolvimento de uma gravidez antes de tomar alguma contramedida) e de um eventual risco de vida em virtude da gestação. Aceitar o contrário é, simplesmente, promover uma cultura onde as pessoas têm salvo-conduto perpétuo para se abster das consequências de seus atos por conveniência, isto é, a barbárie. Excetuada a hipótese remota de falta de informação, qualquer mulher que se julga civilizada e com idade para ter vida sexual tem que aceitar que, apesar da espetacular eficiência dos meios contraceptivos modernos, a gravidez é, sim, um efeito possível desse estilo de vida. Da mesma forma que a morte é uma possibilidade que o paraquedista (que exerce sua atividade confiando na segurança proporcionada por seu equipamento) não pode ignorar.
No desespero para omitir o óbvio e reforçar uma narrativa conveniente ao aborto amplo, geral e irrestrito, os mais absurdos malabarismos retóricos são inventados. Todos procurando ignorar a única questão que importa: a responsabilidade da mulher em engravidar.
Primeiro, a idéia torta de que ninguém, a não ser a própria grávida, pode opinar sobre aborto porque isso seria ingerência alheia nas decisões dela sobre o próprio corpo. É o mesmo que dizer que, além da vítima, ninguém mais pode exigir a punição de uma agressão, já que isso só diz respeito ao corpo dela e ao de mais ninguém. Como se a justiça estivesse atrelada ao desejo de reparação do agredido e não a uma série de regras pré-estabelecidas que devem ser obedecidas por quem deseja viver em sociedade. Seguindo esse raciocínio, se uma mulher, masoquista, é espancada por alguém com quem mantém um relacionamento doentio (e que por isso mesmo ela não quer denunciar, já que não quer vê-lo/a preso/a), o/a agressor/a só pode ser submetido ao devido processo legal se ela assim o exigir, afinal ela pode fazer o que quiser com o próprio corpo, inclusive se submeter a agressões constantes, mesmo que isso implique em livrar um criminoso da cadeia. Assim, a decisão sobre a punição de um sequestrador deve caber apenas à vontade do sequestrado acometido de Síndrome de Estocolmo afinal, corpo dele, regras dele. Se ele quer continuar como hóspede de seu algoz, este último deve sair impune. Um infectado por doença rara e letal, desse modo, tem todo direito de desautorizar em testamento o estudo póstumo de seu corpo, mesmo que isso signifique a morte certa para pessoas que sejam infectadas pela mesma doença no futuro. Em sociedade, nenhum direito é absoluto, nem o direito sobre o que fazer com o próprio corpo.
Por falar em doença, eis que surge o mais desonesto dos argumentos da Igreja dos Hedonistas dos Últimos Dias: o aborto é, também, questão de saúde pública.
Depois da farsa dos “direitos reprodutivos da mulher” (como se não fosse possível escolher entre engravidar ou não), da "cultura do estupro" (em que estupradores precisam ser mantidos longe dos demais presos porque esse crime é intolerável até para quem já vive na criminalidade) e do orwelliano “sou contra o aborto, mas a favor da legalização”, o aborto como "questão de saúde pública" não passa de mais um trambique retórico pra pautar o debate com a consistência de uma casca de ovo. Questão de saúde pública diz respeito a contingências onde é necessária a intervenção do estado para assegurar o bem estar de uma população. Uma epidemia de ebola é questão de saúde pública porque, dentro de determinado contexto, as pessoas são impotentes ante o avanço da peste. Elas precisam do governo porque não dispõem de meios para enfrentar a doença por si próprias e, o que é mais importante, não podem escolher entre contrair ou não a doença. Dar o mesmo tratamento ao aborto num mundo com uma profusão interminável de contraceptivos, numa civilização em crise devido ao sucesso de idéias cujo objetivo precípuo é remover do indivíduo todo e qualquer senso de consequência e onde a sexualização cada vez mais precoce passa a ser vista como uma forma de "libertação do ser humano", é coisa de vigarista intelectual. Gravidez não é doença, é questão de responsabilidade individual. Da mulher.
A defesa do aborto, excetuados os casos extremos, se resume a uma só palavra: hedonismo. Os avanços médicos e tecnológicos (alienígenas para um observador de há apenas três décadas atrás), aliados à mentalidade de bem-estar social que virou regra no Mundo Livre, causaram no ocidental médio uma sensação de conforto e segurança nunca antes sentida por seus ancestrais em nenhum momento da história. A fome e as mortes por doenças banais (gripe, varíola, sarampo, tuberculose...) se tornaram exotismos de um passado recente que parece ter sido há 1000 anos. Essas facilidades criaram nas pessoas o sentimento de que prosperidade, paz, saúde e riqueza são o estado natural da humanidade. Quando se chega nesse estágio, o próximo passo natural é a consciência de que a satisfação irrestrita de todos os caprichos se torna “direito humano”, bandeira de defesa da “liberdade sobre o próprio corpo” ou “questão de saúde pública”.
Se o aborto se torna banal a ponto de um surto de gravidez irresponsável passar a ser comparado a uma epidemia de cólera, quanto vai demorar até que se comece a matar pessoas em estado vegetativo e idosos por simples questão de conveniência? (eles já estão próximos da morte mesmo...) Não é difícil perceber onde isso vai dar. Hoje são amontoados de tecido. Amanhã pesos mortos improdutivos. Foi defendendo o nobre objetivo de oferecer uma “morte misericordiosa” a deficientes e doentes em estado terminal que os nazistas os esterilizaram à força e os jogaram nas primeiras câmaras de gás. A preocupação com o mais fraco, insígnia-mor da Civilização Ocidental, vai aos poucos desvanecendo até que só sobre uma raça de hedonistas mimados, preocupados unicamente com o próximo prazer. No limite, o fim da civilização. O esforço na direção de reduzir o ser humano às suas necessidades mais básicas vai acabar com a humanidade.